Orbán reconhece derrota e deixa governo húngaro após 16 anos
Líder ultranacionalista admitiu vitória "clara" do líder da oposição, Péter Magyar. Eleições para a Assembleia tiveram participação recorde.O primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orbán, reconheceu a derrota nas eleições deste domingo (12/04), após as apurações mostrarem uma ampla vantagem do líder oposicionista Péter Magyar, apontando um domínio do seu Partido pelo Respeito e pela Liberdade (Tisza) na Assembleia Nacional, com mais de dois terços das cadeiras.
O reconhecimento da vitória de Magyar por Orbán ocorreu durante discurso do líder ultranacionalista, que está há 16 anos há frente do país.
"A responsabilidade e a oportunidade de governar não foi dada a nós", declarou Orbán. "Serviremos ao país e à nação húngara na oposição", complementou, acrescentando que o resultado foi "doloroso, mas claro".
Poucos minutos antes, Magyar havia afirmado, pelas redes sociais, que tinha sido parabenizado pela vitória pelo adversário. "O primeiro-ministro Viktor Orbán acaba de me telefonar para nos felicitar pela vitória", escreveu o líder da oposição.
"Como prometemos, como esperávamos, hoje, 12 de abril de 2026,
a Hungria e vários milhões de pessoas fizeram história novamente, exatamente
23 anos depois do dia em que foi realizado o referendo sobre a adesão à
União Europeia na Hungria", acrescentou Magyar.
Mais de dois terços do Parlamento
Com cerca de 90% das urnas apuradas, às 22h30 do horário local (17h30 de Brasília), o Tisza tinha alcançado 138 das 199 cadeiras na Assembleia Nacional, o que representa mais que dois terços do Legislativo húngaro (133). O Fidez, de Orbán, somava 54, e o Mi Hazánk (Nossa Pátria, de ultradireita), sete.
As urnas fecharam às 19h com uma adesão eleitoral recorde, superior a 77,8%, segundo as previsões oficiais.
Houve longas filas em várias seções eleitorais, e o aumento da participação foi mais pronunciado em cidades de médio porte e entre os eleitores mais jovens, mais propensos a apoiar o conservador e pró-europeu Peter Magyar, segundo os analistas, relatou a agência France-Presse (AFP).
A eleição foi considerada a mais importante para a Hungria desde a transição democrática de 1989/90.
Os eleitores votaram para escolher os 199 lugares da Assembleia Nacional, num sistema eleitoral misto, com 106 deputados eleitos em círculos uninominais e 93 em listas de partidos nacionais. Nessas contas também entram os votos das minorias, particularmente alemães e roma.
O pleito foi seguida de perto em países da Europa e de outros continentes, o que demonstra o papel desproporcional que Orbán desempenha na política populista de ultradireita em todo o mundo.
Líderes europeus parabenizam Magyar
O vencedor das eleições, Péter Magyar, ex-partidário de Orbán, comprometeu-se, durante a campanha, a reconstruir as relações da Hungria com a União Europeia (UE) e a Otan - laços que se desgastaram durante o governo do Fidesz.
Os líderes europeus não demoraram a parabenizar Magyar.
A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, afirmou que "a Hungria escolheu a Europa" e que o país "retoma seu caminho europeu".
"A Europa sempre escolheu a Hungria. Juntos, somos mais fortes", disse von der Leyen, acrescentando que "o coração da Europa está batendo mais forte na Hungria esta noite".
Já o chanceler federal da Alemanha, Friedrich Merz, declarou que "o povo húngaro decidiu" e felicitou Magyar pelo sucesso eleitoral. Merz afirmou esperar uma cooperação próxima com o novo líder e defendeu a união de esforços por "uma Europa forte, segura e, acima de tudo, unida".
O presidente da França, Emmanuel Macron, disse ter falado com Magyar para parabenizá‑lo pela vitória e classificou o resultado como um triunfo da participação democrática. Segundo ele, o voto mostrou o apego da população húngara aos valores da União Europeia e ao papel do país no projeto europeu.
Ex-membro do Fidesz, partido de Orbán, Magyar rompeu com a sigla em 2024 e rapidamente fundou o Tisza. A partir de então, ele percorreu a Hungria incansavelmente, realizando comícios em cidades grandes e pequenas, em uma campanha intensiva que recentemente o levou a visitar até seis cidades por dia.
Em entrevista à Associated Press no início deste mês, Magyar disse que a eleição seria um "referendo" sobre se a Hungria continuaria em direção à Rússia sob Orbán ou se retomaria seu lugar entre as sociedades democráticas da Europa.
O Tisza é membro do Partido Popular Europeu, a principal família política de centro-direita cujos líderes governam 12 dos 27 países da UE.
Batalha difícil
Durante os últimos anos, Orbán frustrou repetidamente os esforços da União Europeia (UE) para apoiar a Ucrânia na guerra contra a invasão russa, ao mesmo tempo que cultivou laços estreitos com o presidente Vladimir Putin.
Durante os seus 16 anos como primeiro-ministro, o ultranacionalista lançou duras repressões contra os direitos das minorias e a liberdade de imprensa, subverteu muitas das instituições húngaras e foi acusado de desviar grandes somas de dinheiro para os cofres da sua elite empresarial aliada, alegação que nega.
Orbán também desempenhou um papel de destaque na política populista de ultradireita em todo o mundo. Foi tratado por Donald Trump como uma "superestrela" e se aproximou de Jair Bolsonaro enquanto o brasileiro, hoje em prisão domiciliar, estava na Presidência da República. Em 2024, Bolsonaro chegou a se refugiar na Embaixada da Hungria, em Brasília, após ter o passaporte apreendido pela Polícia Federal.
Já Magyar ascendeu rapidamente e tornou-se o adversário mais sério de Orbán. O líder de 45 anos do partido de centro-direita Tisza fez campanha com base em questões que afetam os eleitores comuns, incluindo os setores da saúde pública e dos transportes da Hungria, que estão em declínio, e o que descreve como corrupção desenfreada no governo.
Mas a batalha eleitoral foi acirrada. De acordo com o Washington Post, a Rússia teria planejado interferir e influenciar as eleições a favor de Orbán. O ultranacionalista, por sua vez, acusou a vizinha Ucrânia, bem como os aliados da Hungria na UE, de tentarem influenciar a votação para instalar um governo "pró-Ucrânia".
fcl (AFP, Lusa, ots)