O que se sabe sobre o plano de cessar-fogo entre EUA e Irã
Plano de dez pontos foi celebrando pelos dois lados como vitória. Mas há incertezas sobre pontos-chave, como conflitos no Líbano e enriquecimento de urânio por Teerã.O plano de cessar-fogo acordado entre Estados Unidos e Irã na terça-feira (07/04) foi apresentado por ambas as partes como uma vitória, na esteira de mais de um mês de guerra no Oriente Médio. O resultado de maior impacto imediato é a reabertura temporária pelo governo iraniano do Estreito de Ormuz, rota marítima essencial para o suprimento global de petróleo.
O presidente dos EUA, Donald Trump, disse que suspenderia por duas semanas os ataques contra o Irã em resposta à abertura "completa, imediata e segura" do canal.
"Nós recebemos uma proposta de dez pontos do Irã, e acreditamos que seja uma base trabalhável sobre a qual negociar," escreveu o americano. "Quase todos dos pontos de disputa do passado foram acordados entre EUA e Irã, mas um período de duas semanas permitirá que o acordo seja finalizado e consumado."
Até a manhã desta quarta-feira (08/04) nem a República Islâmica nem os Estados Unidos haviam tornado público oficialmente o conteúdo do documento. Divulgados pela mídia estatal do Irã, os pontos do acordo incluiriam, entretanto, demandas maximalistas do país persa.
Dentre elas, estariam a manutenção pelo Irã do controle sobre o Estreito de Ormuz, o levantamento de sanções pelos EUA, a retração de forças militares americanas do Oriente Médio, a liberação de ativos iranianos congelados pelos EUA e o pagamento de compensação para a reconstrução do Irã. O Conselho de Segurança das Nações Unidas deveria, ainda, tornar o acordo vinculante por meio de uma resolução.
Enriquecimento de urânio
Além disso, o Irã se comprometeria a não perseguir a posse de armas nucleares. Mas, na sua versão em inglês, a lista de dez pontos do Irã indicava que a aceitação do enriquecimento de urânio pelo país persa era uma condição de Teerã para o cessar-fogo.
A versão circulada em farsi pela mídia estatal iraniana, entretanto, não fazia menção ao mesmo ponto.
Trump acusa o Irã de enriquecer urânio com o objetivo de desenvolver uma arma nuclear, o que Teerã nega. Num plano anterior para acabar com as hostilidades, os EUA demandaram que o Irã interrompesse o enriquecimento, concordasse com limites para o seu programa de mísseis e deixasse de apoiar grupos armados na região.
O Irã não concordou anteriormente. Dessa vez, Trump se limitou a dizer que o tema seria "perfeitamente cuidado" no âmbito da trégua de duas semanas.
O presidente dos EUA tem sido inconsistente na determinação de condições para cessar o conflito no Oriente Médio. Ele já diversas vezes impôs demandas duras para, em seguida, voltar atrás.
"O que foi alcançado até agora se parece mais com uma derrota estratégica dos Estados Unidos", afirmou o especialista em segurança Carlo Masala à rádio Deutschlandfunk. No plano de dez pontos, "há pouco sinal de concessões iranianas em relação às exigências iniciais americanas".
No mês passado, Trump chegara a dizer que o único resultado aceitável da guerra atual seria a rendição incondicional do Irã. Poucas horas antes do acordo de terça-feira, ele ameaçou destruir completamente a civilização iraniana.
Incerteza para o Líbano
O cessar da guerra, segundo o Irã, deveria abarcar também o Líbano, Iêmen e Iraque. Não está claro, entretanto, como e até que ponto isso seria possível.
Aliado americano no conflito, Israel expressou apoio à suspensão dos ataques pelos EUA, mas indicou que não pretende interromper as próprias operações militares no Líbano contra o Hezbollah.
A declaração contradisse o governo do Paquistão, que media as negociações. Segundo o primeiro-ministro Shehbaz Sharif, o acordo cobria toda a região, incluindo o Líbano.
Sharif disse, ainda, que o cessar-fogo deveria entrar em vigor imediatamente, com conversas entre EUA e Irã previstas para começar em Islamabad na sexta-feira. A Casa Branca afirmou, por sua vez, que estava considerando participar das conversas, sem que os planos estivessem finalizados.
No entanto, surgiram relatos vindos de Israel indicando que o país ainda foi alvo de ataques com mísseis iranianos durante a madrugada, mesmo após o anúncio do cessar-fogo. Também houve relatos de explosões no oeste do Irã.
Bem recebida por lideranças políticas ao redor do mundo, a trégua é amplamente vista como um importante primeiro passo, mas ainda não como solução.
O acordo atual deverá ser usado para tentar chegar ao encerramento definitivo do conflito. Caso isso não aconteça, é provável que os ataques sejam retomados.
ht/md (AFP, dpa)