O que muda com suspensão de entrevistas para vistos dos EUA
Medida acompanha novo capítulo de ofensiva pelo governo Trump, desafiada pela Justiça
Os EUA suspenderam agendamentos de entrevistas para vistos de imigrantes sob a justificativa de um treinamento consular global para barrar dependentes de benefícios públicos. A ação aprofunda a ofensiva anti-imigração do governo Trump, que não afeta turistas ou estudantes, mas inclui planos para revogar até 200 mil vistos de solicitantes de asilo e fixar uma taxa de 100 mil dólares para vistos de trabalho H-1B. A medida gera críticas e contestações na Justiça por discriminação e abusos legais.
Os Estados Unidos suspenderam o agendamento de entrevistas para a obtenção de vistos de imigrantes em todo o mundo. O governo americano atribuiu nesta terça-feira (25/08) a pausa das entrevistas a um treinamento global em todos os seus consulados e embaixadas, numa iniciativa que teria sido lançada no início deste mês.
Para o Brasil, já estava pausada a emissão deste tipo de vistos desde janeiro. Mas, antes, os requerentes ainda podiam apresentar pedidos, agendar entrevistas e comparecer a elas, à espera de uma eventual retomada do processamento das suas solicitações.
Não foram impactados vistos para turistas, estudantes, trabalhadores qualificados e seus familiares ou outros.
A medida é, entretanto, amplamente lida como mais um passo da ampla ofensiva contra a imigração levada a cabo pelo presidente Donald Trump desde o início do seu segundo mandato.
Segundo o Departamento de Estado, o treinamento "em profundidade" visa a ajudar funcionários consulares a descartar candidatos suscetíveis de se tornarem dependentes de benefícios públicos dos EUA, por meio de uma avaliação "abrangente e consistente".
Não se conhecem mais detalhes sobre o conteúdo do treinamento nem da sua duração, tampouco quando as entrevistas deverão ser retomadas.
A notícia da suspensão foi primeiro reportada pelo Financial Times. Segundo o jornal, requerentes de vistos foram avisados de que suas entrevistas haviam sido canceladas e seriam remarcadas, sem por ora receberem um novo agendamento.
Justiça anulou restrição anterior
Na sexta-feira, uma juíza já anulara a política anterior do governo Trump que suspendia a emissão de vistos de imigrantes para requerentes de 75 países. Era esta a medida que já impactava o Brasil. O Executivo ainda pode apelar.
A magistrada considerou que a medida era "manifestamente ilegal" por exceder a autoridade de Marco Rubio, que chefia o Departamento de Estado.
O governo americano apresentou, à época, a mesma justificativa desta semana: de que mirava imigrantes com "alto risco de se tornarem um ônus público e recorrerem aos recursos dos governos locais, estaduais e federais".
Segundo a missão dos EUA no Brasil, solicitantes de visto de imigrante poderiam ainda apresentar pedidos, agendar entrevistas e comparecer a elas, mas os vistos não seriam emitidos durante o período de suspensão.
Outros países afetados incluíam mais países da América Latina, incluindo Colômbia, Guatemala e Uruguai; dos Balcãs, como Bósnia e Albânia; do sul da Ásia, como Paquistão e Bangladesh; e de diversas nações da África e do Oriente Médio.
Requerentes para vários destes tipos de visto, entretanto, receberam a orientação de "ajustar as configurações de privacidade de todas as suas contas de redes sociais para 'públicas', a fim de facilitar a verificação necessária para estabelecer sua identidade e elegibilidade para entrada nos Estados Unidos."
"Maior revogação de vistos da história"
O Departamento de Estado também planeja revogar vistos de estrangeiros que tenham entrado nos Estados Unidos para turismo ou negócios e, depois, solicitado asilo a fim de permanecer no país. A medida visa coibir fraudes, disse um porta-voz na terça-feira.
A menos que seja contestada ou revisada, a expectativa é que o departamento anuncie, nas próximas semanas, a anulação dos chamados vistos B1 e B2 emitidos entre 2016 e 2026. A identificação dos imigrantes afetados será conduzida em parceria com o Departamento de Segurança Interna (DHS, na sigla em inglês).
As revogações não resultariam necessariamente em deportação imediata, disseram autoridades em anonimato à agência de notícias Associated Press. A maioria das pessoas com pedidos de asilo ainda pendentes teria sua classificação migratória alterada, mas perderia o status de viajante de negócios ou turismo.
A Casa Branca sugeriu que "até 200 mil vistos" seriam afetados, no que seria a "maior revogação em massa de vistos da história".
Desde que Trump retornou ao poder em janeiro de 2025, cerca de 175 mil estrangeiros tiveram vistos revogados. Os motivos já incluíram desde infrações criminais, como dirigir sob efeito de álcool, até elogios ao assassinato do ativista de ultradireita Charlie Kirk.
Empecilho para contratação de estrangeiros
Além disso, o DHS propôs nesta semana tornar permanente o custo de 100 mil dólares (R$515 mil) para a emissão de vistos do tipo H-1B, para trabalhadores qualificados. O valor girava entre 2 e 5 mil dólares (R$10,2 e R$25,7 mil) até o ano passado, quando foi alvo de um aumento temporário válido até o próximo mês de setembro.
O pagamento costuma ser coberto por empresas que contratam estrangeiros para trabalhar nos Estados Unidos, com destaque para o setor de tecnologia e de consultoria.
A imposição da supertaxa desencadeou uma enxurrada de processos judiciais nos últimos meses. A tendência é que ela incentive empresas, como as Big Techs, a contratarem mais americanos num contexto de demissões nos Estados Unidos e de um mercado de trabalho mais restritivo.
A empreitada mais ampla de repressão à imigração, enquanto isso, é enquadrada pela Casa Branca como necessária para reforçar a segurança nacional.
Defensores dos direitos humanos acusam as políticas de Trump para o tema de serem discriminatórias e de violarem direitos à liberdade de expressão e ao devido processo legal. Elas criam um ambiente inseguro nos EUA, especialmente para as minorias étnicas, afirmam especialistas.
ht/cn (Reuters, AP, AFP, ots)
---------
Não deixe que o algoritmo esconda as notícias. Se você valoriza o trabalho da nossa equipe para uma cobertura jornalística confiável, reserve um momento para nos selecionar como sua fonte preferida no Google clicando aqui. Marque o link da DW quando ele aparecer na lista para sempre ver nossas notícias verificadas primeiro.
Comentários
Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.