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O celibato clerical ao longo dos séculos

14 jan 2020
12h08
atualizado em 15/1/2020 às 05h35
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Recomendada para religiosos desde o século 3º, vida celibata foi transformada em regra da Igreja Católica no século 12 por razões espirituais e práticas. Hoje, questão opõe progressistas e conservadores.Padre pode se casar? A discussão, que recupera uma polêmica de quase mil anos do catolicismo, voltou à tona esta semana por conta do lançamento de um livro com coautoria atribuída ao papa emérito Bento 16. Um trecho de Des profondeurs de nos coeurs (Do fundo dos nossos corações, em tradução livre), que o antecessor de Francisco assina juntamente com o cardeal conservador Robert Sarah, diz que o celibato dos sacerdotes "tem um grande significado", sendo "indispensável para que o nosso caminho na direção de Deus permaneça o fundamento da nossa vida".

O posicionamento de Bento 16 repercutiu nas altas esferas do catolicismo justamente porque está sendo aguardada a exortação apostólica em que o papa Francisco pode vir a autorizar a ordenação de homens casados para suprir a carência de padres em regiões remotas, atendendo a uma recomendação feita pelos bispos participantes do Sínodo para a Amazônia, em outubro do ano passado.

Para o padre americano James Martin, consultor do Vaticano, o celibato é uma regra, e não um dogma. "Ou seja: pode ser alterado a qualquer momento pelo papa", diz.

"E a melhor razão para permitir a ordenação de homens casados é que há muitos lugares onde as pessoas ficam sem os sacramentos, porque há falta de padres. No Sínodo da Amazônia, fomos lembrados de lugares remotos assim. Como costumava dizer um dos meus professores de teologia, é preciso fazer uma escolha: celibato ou Eucaristia?", afirma.

Nas vezes em que foi confrontado com a questão milenar, o papa Francisco demonstrou uma abertura para que o celibato se torne facultativo em alguns casos. "Não é um dogma de fé", afirmou em 2018. "É uma regra de vida que eu aprecio muito e acredito que seja um dom para a Igreja. Não sendo dogma de fé, sempre temos a porta aberta."

Nesta segunda-feira (13/01), diante da polêmica, um comunicado emitido pela Sala de Imprensa da Santa Sé destacou outra declaração de Francisco, de janeiro de 2019, quando ele citou e classificou de corajosa a seguinte frase do papa Paulo 6º: "Prefiro dar a vida antes de mudar a lei do celibato."

Na ocasião, contudo, o papa emendou com uma ressalva: "Pessoalmente, penso que o celibato seja um dom para a Igreja e não concordo em permitir o celibato opcional. Não. Permaneceria alguma possibilidade nos lugares mais distantes, penso nas ilhas do Pacífico, mas é algo em que pensar quando há necessidade pastoral. O pastor deve pensar nos fiéis."

Tradição milenar

A ideia não é estranha aos primórdios da Igreja. Os primeiros religiosos do cristianismo não eram celibatários. Apóstolo de Cristo, Pedro, considerado o primeiro papa da Igreja, era casado. O celibato clerical passou a aparecer de modo mais constante entre os religiosos a partir do século 3º.

Na Igreja de então, havia recomendações para que os sacerdotes prescindissem da vida familiar, dedicando-se exclusivamente aos assuntos espirituais. No século 12, dois concílios realizados pela Igreja transformaram a recomendação em regra. A medida foi confirmada em três concílios seguintes: em 1215, em 1545 e 1563.

"Certos grupos de religiosos, principalmente os monges, sempre observaram o celibato, desde os primeiros dias da Igreja", aponta o padre Martin. "Por outro lado, muitos outros padres eram casados. Até o século 11, o celibato não existia como regra universal."

Martin diz que as razões para a imposição da norma "são complexas". "Tinha a ver com a imitação dos monges, em uma época em que o celibato significa um chamado 'mais elevado', tinha a ver também com problemas em passar as propriedades da Igreja para os filhos [em casos de herança], e também tinha a ver com a imitação de Jesus, que era celibatário", afirma.

E por que o celibato se tornou algo tão importante para a Igreja Católica? "Não é a única maneira possível de viver uma vida comprometida. Mas é uma maneira", pondera Martin.

"O mais importante está na imitação de Cristo, que, por várias razões escolheu o celibato para demonstrar o compromisso com o Pai. Mas também há razões práticas: o padre celibatário, sem esposa ou filhos, tem mais tempo para se dedicar às necessidades de seus paroquianos."

Progressistas x conservadores

O sociólogo Francisco Borba Ribeiro Neto, coordenador do Núcleo Fé e Cultura da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), contextualiza a polêmica em um cenário de declínio do catolicismo.

"O problema do celibato se tornou importante e emblemático, no confronto entre progressistas e conservadores, em função da busca de alternativas ao declínio da proporção de católicos e de vocações religiosas no Ocidente", pontua em entrevista à DW Brasil.

"Os chamados progressistas consideram que o problema é a falta de uma flexibilidade doutrinal capaz de enfrentar os novos contextos da modernidade, na qual a renúncia à sexualidade seria impensável, e os chamados conservadores consideram que o problema é a perda da dimensão mística, que alimenta os afetos e dá novo sentido à vida, superando os dramas da modernidade", diz.

"Os primeiros acreditam que o fim do celibato atrairia mais jovens à vocação e permitiria um trabalho mais intenso junto à população, além de minimizar o risco de escândalos sexuais e casos de pedofilia", prossegue o estudioso.

"Os últimos acreditam que o fim do celibato implicaria vocações menos místicas, mais imaturas e frágeis, enfraquecendo o testemunho e gerando um trabalho menos convincente - aumentando, entre os padres mal vocacionados, o risco de escândalos e casos de pedofilia", conclui.

Já existem padres casados

O filósofo e teólogo Fernando Altemeyer Júnior, coordenador do Departamento de Ciência da Religião da PUC-SP, considera o celibato "um ato de liberdade para doar-se integralmente a uma causa ou comunidade ou religião". "É uma escolha bonita. Mas é preciso que a pessoa se sinta feliz e livre para isso", considera.

Ele acredita, contudo, que o catolicismo teria a ganhar com a permissão de padres casados. "Seria uma beleza e graça divina o mundo da Igreja latina e, especialmente, o Brasil terem padres casados", acrescenta.

Para corroborar a ideia, ele lembra que os ritos orientais do catolicismo sempre permitiram sacerdotes casados. "Já existem padres católicos casados. Estimo que, nos ritos orientais, haja um total de quase 2 mil padres casados, entre os 15.273 atuantes, ou seja, 10% do total", afirma.

"A maioria dos padres orientais é solteira, mas existem padres casados aceitos e amados em suas comunidades. Isso seria uma dádiva de Deus para comunidades que passam anos sem poder celebrar a Eucaristia, ficando anêmicas do sacramento central da Santa Missa", opina.

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