Zelenskiy diz que EUA pedem concessões frequentes da Ucrânia e não da Rússia
O presidente ucraniano Volodymyr Zelenskiy expressou esperança no sábado de que as negociações de paz mediadas pelos Estados Unidos em Genebra na próxima semana sejam substantivas, mas disse que a Ucrânia está sendo solicitada "com muita frequência" a fazer concessões. Ele também acusou Moscou de tentar adiar as decisões ao mudar seu principal negociador.
As delegações ucraniana, russa e norte-americana devem se reunir na cidade suíça na terça e na quarta-feiras, enquanto o presidente dos EUA, Donald Trump, busca aprovar um acordo para encerrar a maior guerra da Europa desde 1945.
"Esperamos sinceramente que as reuniões trilaterais da próxima semana sejam sérias, substantivas e úteis para todos nós, mas, honestamente, às vezes parece que os lados estão falando de coisas completamente diferentes", disse Zelenskiy em um discurso na Conferência Anual de Segurança de Munique.
ZELENSKIY QUER MAIS
Ucrânia e Rússia participaram de duas rodadas recentes de negociações mediadas por Washington em Abu Dhabi, descritas pelas partes como construtivas, mas sem grandes avanços.
Zelenskiy pediu uma ação mais forte dos aliados da Ucrânia para pressionar a Rússia a fazer a paz — tanto na forma de sanções mais duras quanto de mais fornecimento de armas.
Recordando seu apelo há quatro anos, quando discursou na mesma conferência dias antes de dezenas de milhares de soldados russos invadirem a Ucrânia, Zelenskiy disse que havia muita conversa por parte das autoridades ocidentais e pouca ação.
Trump tem o poder de forçar Putin a declarar um cessar-fogo e precisa fazê-lo, disse Zelenskiy. Autoridades ucranianas afirmaram que um cessar-fogo é necessário para realizar um referendo sobre qualquer acordo de paz, que seria organizado juntamente com as eleições nacionais.
O líder ucraniano, um ex-apresentador de televisão, reconheceu que estava sentindo "um pouco" de pressão de Trump, que ontem disse que Zelenskiy não deveria perder a "oportunidade" de fazer a paz em breve e o instou a "agir".
"Os norte-americanos frequentemente voltam ao tema das concessões e, muitas vezes, essas concessões são discutidas apenas no contexto da Ucrânia, não da Rússia", disse Zelenskiy.
Em vez disso, Zelenskiy disse que queria ouvir quais concessões Moscou estaria disposta a fazer, já que a Ucrânia já havia feito muitas das suas.
A Rússia disse que sua delegação em Genebra seria liderada pelo assessor de Putin, Vladimir Medinsky, uma mudança em relação às negociações em Abu Dhabi, nas quais a equipe da Rússia foi liderada pelo chefe da inteligência militar, Igor Kostyukov.
Zelenskiy disse aos repórteres no sábado que a mudança foi "uma surpresa" para a Ucrânia e sugeriu que a Rússia queria adiar qualquer decisão a ser acordada.
Autoridades ucranianas criticaram a maneira como Medinsky conduziu as negociações anteriores, acusando-o de dar aulas de história à equipe ucraniana em vez de se envolver em negociações construtivas.
IMPASSE SOBRE TERRITÓRIO
O território continua sendo o principal ponto de discórdia nas negociações, com a Rússia exigindo que a Ucrânia ceda os 20% restantes da região leste de Donetsk que Moscou não conseguiu capturar — algo que Kiev se recusa terminantemente a fazer.
Em uma coletiva de imprensa no sábado, Zelenskiy disse que os negociadores dos EUA informaram à Ucrânia que os russos prometeram um fim rápido para a guerra se as forças ucranianas se retirassem imediatamente da parte de Donetsk que ainda controlam.
Ele disse anteriormente que estava pronto para discutir uma proposta dos EUA para uma zona de livre comércio naquela região, enquanto congelava o restante da linha de frente de 1.200 km (745 milhas).
O principal negociador da Ucrânia, Rustem Umerov, que se sentou ao lado de Zelenskiy durante a coletiva de imprensa, disse que as duas únicas opções eram a Ucrânia manter as atuais linhas de controle ou estabelecer uma zona econômica livre.
A Rússia ocupa cerca de 20% do território nacional da Ucrânia, incluindo a Crimeia e partes da região oriental de Donbas, tomadas antes da invasão em grande escala em 2022.
Analistas afirmam que Moscou conquistou cerca de 1,5% do território ucraniano desde o início de 2024. Seus recentes ataques aéreos às cidades e à infraestrutura elétrica da Ucrânia deixaram centenas de milhares de ucranianos sem aquecimento e energia elétrica durante um inverno extremamente rigoroso.
Autoridades ucranianas têm expressado repetidamente nas últimas semanas a preocupação de que as eleições legislativas de meio de mandato nos EUA em novembro possam fazer com que o governo Trump se concentre em questões políticas internas após o verão.
Zelenskiy disse que espera que os EUA continuem envolvidos nas negociações e que haja uma oportunidade para a Europa, que ele disse estar atualmente marginalizada, desempenhar um papel mais importante.
"A Europa está praticamente ausente da mesa de negociações. Na minha opinião, isso é um grande erro", afirmou.
Zelenskiy disse que a Rússia tinha de aceitar uma missão de monitorização do cessar-fogo e uma troca de prisioneiros de guerra; estimou que a Rússia tinha atualmente cerca de 7000 soldados ucranianos, enquanto Kiev tinha mais de 4000 russos.
Zelenskiy também sugeriu que Moscou se opõe ao envio de tropas francesas e britânicas para a Ucrânia após a guerra — algo que Paris e Londres afirmaram estar dispostas a fazer — porque o presidente russo, Vladimir Putin, "quer ter a oportunidade de voltar".