'Um hacker roubou as anotações da minha terapeuta - agora meus segredos mais profundos estão na internet para sempre'
Meri-Tuuli Auer contou à sua analista coisas sobre sua vida que ela não queria que nem mesmo sua família mais próxima soubesse. Agora, tudo isso está na internet, após um ataque hacker que se tornou o maior crime cibernético da história da Finlândia
Assim que Meri-Tuuli Auer viu o assunto do e-mail na pasta de spam, ela soube que aquele não era um spam comum. Ele continha seu nome completo e número de seguro social - o equivalente na Finlândia ao CPF brasileiro.
O e-mail estava cheio de detalhes sobre ela que ninguém mais deveria saber.
O remetente sabia que ela estava fazendo psicoterapia por meio de uma empresa chamada Vastaamo. Disseram que haviam invadido o banco de dados de pacientes da Vastaamo e que queriam que Auer pagasse 200 euros (R$ 1.248) em bitcoins em 24 horas, ou o preço subiria para 500 euros em 48 horas.
Se ela não pagasse, escreveram, "suas informações serão publicadas para todos verem, incluindo seu nome, endereço, número de telefone, número do seguro social e registro detalhado de paciente contendo transcrições de suas conversas com os terapeutas da Vastaamo".
"Foi aí que o medo começou", diz Auer, de 30 anos. "Tirei licença médica do trabalho, me tranquei em casa. Não queria sair. Não queria que as pessoas me vissem."
Ela foi uma dos 33 mil pacientes da Vastaamo que tiveram seus registros terapêuticos roubados em outubro de 2020 por um hacker anônimo.
Elas haviam compartilhado seus pensamentos mais íntimos com seus terapeutas, incluindo detalhes sobre tentativas de suicídio, casos extraconjugais e abuso sexual infantil.
Na Finlândia, um país de 5,6 milhões de habitantes, parecia que todos conheciam alguém que teve seus registros terapêuticos roubados.
O caso se tornou um escândalo nacional, o maior crime cibernético da história da Finlândia, e a então primeira-ministra Sanna Marin convocou uma reunião de emergência com ministros para discutir uma resposta.
Mas já era tarde demais para deter o hacker.
Antes de enviar os e-mails para as pacientes da Vastaamo, o hacker publicou todo o banco de dados com os registros roubados da empresa na dark web, e um número desconhecido de pessoas leu ou baixou uma cópia. Essas anotações circulam desde então.
Auer havia contado à sua terapeuta coisas que nem mesmo seus familiares mais próximos sabiam — sobre seu consumo excessivo de álcool e um relacionamento secreto que manteve com um homem muito mais velho.
Agora, seus piores medos haviam se tornado realidade.
Mas, em vez de destruí-la, o ataque hacker a fez perceber que ela era muito mais resiliente do que jamais imaginara.
O apartamento de Auer, nos arredores de Helsinque, a capital da Finlândia, parece um lugar alegre.
Objetos da Barbie enchem suas prateleiras e há um poste de pole dance no centro da sala de estar. Mas não se deixe enganar pelas aparências, diz Auer. Ela tem lutado contra a depressão e a ansiedade por quase toda sua vida.
"Sou extrovertida, muito confiante e adoro estar perto de pessoas", diz Auer. "Mas tenho a sensação de que todos me acham estúpida e feia, e que minha vida é uma sequência de erros."
Auer procurou ajuda pela primeira vez em 2015. Ela contou à sua terapeuta da Vastaamo sobre seus problemas de saúde mental, seu consumo de álcool e um relacionamento que teve aos 18 anos com um homem mais velho, que manteve em segredo da família.
Ela diz que confiava plenamente em sua terapeuta e, com a ajuda dela, fez progressos reais. Ela não fazia ideia do que ela havia escrito em suas anotações das conversas.
Quando recebeu o e-mail com o pedido de resgate, a notícia do ataque hacker à Vastaamo já havia se espalhado.
Três dias antes, o chantagista havia começado a divulgar as anotações das sessões de terapia na dark web em lotes de 100 por dia, na expectativa de pressionar a empresa a pagar um resgate muito maior — o equivalente a cerca de 400 mil euros (R$ 2,5 milhões) em bitcoins — que ele vinha exigindo havia semanas.
Auer diz que se sentiu compelida a vasculhar as anotações vazadas.
"Eu nunca tinha usado a dark web antes. Mas pensei: 'Preciso ver se meus registros estão lá'."
Quando descobriu que não estavam, ela fechou o arquivo e não leu os registros de mais ninguém, conta. Mas viu como outras pessoas na dark web zombavam do sofrimento dos pacientes.
"Uma criança de 10 anos tinha ido à terapia e as pessoas acharam engraçado."
E alguns dias depois, quando ficou claro que os registros de todos os pacientes da Vastaamo haviam sido publicados, a saúde mental de Auer começou a se deteriorar.
Sem saber quem era o responsável, ou quem poderia ter lido seus pensamentos mais íntimos, ela ficou apavorada de usar transporte público, sair de casa ou até mesmo abrir a porta para o carteiro.
Ela duvidava que o hacker fosse ser encontrado.
Os detetives finlandeses também temiam não encontrar o suspeito, dado o volume de dados que precisavam analisar.
"Eu nem conseguia imaginar a dimensão disso. Este não é um caso normal", diz Marko Lepponen, o detetive que liderou a investigação para a polícia finlandesa.
Mas, após dois anos de investigação, em outubro de 2022, eles nomearam seu suspeito: Julius Kivimäki, um cibercriminoso conhecido.
Em fevereiro de 2023, Kivimäki foi preso na França e transportado de volta à Finlândia para responder às acusações.
Nenhuma sala de tribunal era grande o suficiente para acomodar os 21 mil ex-pacientes da Vastaamo que se registraram como parte no processo criminal, então exibições foram realizadas em espaços públicos, incluindo cinemas, para que eles pudessem assistir ao julgamento.
Determinada a ver Kivimäki enfrentar a justiça, Auer compareceu a uma das exibições e ficou impressionada com a aparência comum do criminoso.
"Ele parece um jovem finlandês comum", diz ela. "Isso me fez pensar que poderia ter sido qualquer um."
Quando ele foi considerado culpado e sentenciado a seis anos e sete meses de prisão, ela disse que sentiu como se tivesse recebido uma confirmação.
"Qualquer sentença que ele recebesse jamais compensaria tudo. O sofrimento das vítimas foi reconhecido pelo tribunal - e eu fiquei grata por isso."
Kivimäki segue negando ser o responsável pelo ataque cibernético.
Nos meses seguintes ao ocorrido, Auer solicitou uma cópia impressa de seus registros à Vastaamo.
Suas anotações estão empilhadas em uma pilha grossa sobre a mesa enquanto ela conta o que aconteceu.
Mesmo que seus registros tenham sido divulgados há mais de cinco anos, os pacientes da Vastaamo continuam sendo vítimas. Alguém chegou a criar um mecanismo de busca que permite aos usuários encontrar registros na dark web apenas digitando o nome de uma pessoa.
Auer concorda em compartilhar comigo alguns de seus registros de terapia vazados.
"A paciente é em grande medida raivosa, impulsiva e amargurada", diz ela, lendo algumas das primeiras anotações que sua terapeuta fez sobre as sessões.
"A paciente relata seu passado de forma confusa. Há algumas dificuldades interpessoais decorrentes de seu temperamento frágil, típico para sua idade."
Quando leu as anotações pela primeira vez, Auer conta que ficou com o coração partido. "Fiquei magoada com a forma como ela me descreveu. Isso me fez sentir pena da pessoa que eu era."
Ela afirma que o vazamento de dados abalou a confiança dos pacientes.
"Há muitas pessoas que eram clientes da Vastaamo, que faziam terapia há anos, mas agora nunca mais vão marcar uma sessão."
A advogada que representa as vítimas da Vastaamo em um processo civil contra o hacker diz que sabe de pelo menos dois casos em que pessoas tiraram a própria vida depois de descobrirem que seus prontuários de terapia haviam sido roubados.
Auer decidiu enfrentar seus medos de frente. Ela publicou nas redes sociais sobre o ataque, contando a todos que havia sido uma das vítimas.
"Foi muito mais fácil para mim saber que todos que me conheciam já sabiam", diz ela. Ela conversou com sua família sobre o conteúdo dos seus registros vazados, incluindo o relacionamento secreto que nunca havia revelado. "As pessoas me apoiaram muito."
Finalmente, ela decidiu retomar o controle de sua história publicando um livro sobre suas experiências. O título é "Todos Ficam Sabendo", em tradução livre.
"Eu transformei tudo em uma narrativa. Pelo menos posso contar a minha versão da história - aquela que não está visível nos prontuários dos pacientes."
Auer aceitou que seus segredos sempre estarão expostos.
"Para o meu próprio bem-estar, é melhor simplesmente não pensar nisso."