'Ultimato ao Hamas': enquanto grupo armado avalia plano de paz de Trump, Israel prossegue ofensiva em Gaza
O plano de paz para a Faixa de Gaza apresentado pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, é analisado pela imprensa francesa nesta quarta-feira (1°). Os diários são reticentes quanto a resultados concretos que o projeto pode trazer, principalmente diante da marcha à ré iniciada pelo primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, sobre dois pontos cruciais do compromisso. Já o Hamas quer "garantias internacionais".
O plano de paz para a Faixa de Gaza apresentado pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, é analisado pela imprensa francesa nesta quarta-feira (1°). Os diários são reticentes quanto a resultados concretos que o projeto pode trazer, principalmente diante da marcha à ré iniciada pelo primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, sobre dois pontos cruciais do compromisso. Já o Hamas quer "garantias internacionais".
"O ultimato ao Hamas" é a manchete do jornal Libération. O diário destaca que Trump determinou que o movimento armado palestino teria de "três ou quatro dias" para dar sua resposta ao plano de paz. Caso contrário, "pagará no inferno". Em seu editorial, Libération avalia que "entre a determinação do presidente americano e dos países árabes, existe uma janela de oportunidade para colocar um fim à guerra em Gaza". No entanto, reitera que "o único problema é que Netanyahu não quer". Prova disso seria que, algumas horas após o anúncio do projeto, o premiê israelense publicou um vídeo afirmando que seus soldados permanecerão em boa parte da Faixa de Gaza, reitera o jornal.
Uma fonte palestina próxima à direção do grupo Hamas afirmou nesta manhã que o movimento armado quer modificar algumas cláusulas do plano de paz do presidente americano, Donald Trump, principalmente no que diz respeito ao desarmamento do Hamas. Negociadores do grupo armado participaram de conversas na terça-feira (30) em Doha, com mediadores do Catar, do Egito e autoridades turcas. Na condição de anonimato, a mesma fonte ainda indicou que o Hamas precisava de "dois ou três dias, no máximo", para dar sua resposta sobre esse projeto de compromisso apresentado por Trump, ao lado de Netanyahu, na segunda-feira (29), na Casa Branca.
Tensões internas no governo de Netanyahu
Para o jornal Le Figaro, a iniciativa de Trump "é uma audaciosa tentativa diplomática". Mas, se é a resposta do grupo Hamas o que todos esperam para que o plano comece a ser colocado em prática, o jornal considera que é do lado de Israel que o projeto pode emperrar, já que, segundo a publicação, "escolhendo o caminho da paz, Netanyahu se arrisca a enfraquecer sua coalizão".
Na resposta que os líderes do Hamas pretendem apresentar nos próximos dias, a mesma fonte anônima prevê que o movimento palestino também deve pedir "garantias internacionais" de que Israel vai se retirar totalmente da Faixa de Gaza. Essa exigência é delicada, porque Benjamin Netanyahu se pronunciou a favor da permanência de suas forças na maior parte do enclave, opondo-se também à ideia de um Estado palestino.
O governo de Netanyahu, formado em 2022, depende de seus aliados ultranacionalistas, observa Le Figaro. Dois dos mais radicais ministros israelenses, Itamar Ben Gvir (Segurança Nacional) e Bezalel Smotrich (Finanças), ameaçam regularmente fazer o governo cair a partir do momento em que um acordo para Gaza for firmado, lembra a matéria.
Já o jornal Le Parisien destaca "o jogo duplo" do premiê israelense, obrigado a aceitar o plano de Trump porque seu principal aliado quer um Prêmio Nobel da Paz, afirma. Em entrevista ao diário, especialistas avaliam que, em qualquer dos casos, Netanyahu é vencedor. Se o Hamas aceitar o projeto, o premiê poderá ser perdoado pelo 7 de outubro de 2023 e mirar nas próximas eleições. No caso contrário, Israel terá carta-branca para continuar a guerra ou "terminar o trabalho", nas palavras do líder israelense.
"As zonas obscuras do plano de Trump" é a manchete do jornal La Croix, que analisa os 20 pontos do projeto de paz apresentado pelo líder republicano na segunda-feira. O diário acredita que, entre os principais desafios, está convencer a direita israelense da ideia de um Estado palestino, também descartada na terça-feira por Netanyahu.
"Última oportunidade para os habitantes da cidade de Gaza"
Importante destacar também que, enquanto o plano de paz continua sendo analisado, a ofensiva israelense prossegue. O Exército de Israel anunciou que vai bloquear, a partir desta quarta-feira, o acesso ao norte do enclave palestino, impedindo qualquer circulação vinda do sul do território. Segundo o coronel Avichay Adraee, será permitida apenas a passagem de moradores que queiram sair da Cidade de Gaza, onde os militares intensificam suas operações.
Ainda nesta quarta-feira, o ministro da Defesa israelense lançou um último aviso aos habitantes da Cidade de Gaza para que fugissem para o sul, sob pena de serem "considerados terroristas". "Esta é a última oportunidade para os habitantes de Gaza que assim o desejarem se deslocarem para o sul e deixarem os terroristas do Hamas isolados na cidade de Gaza", declarou Israel Katz em um comunicado divulgado pela mídia israelense, enquanto o exército israelense intensifica suas operações na região. "Aqueles que permanecerem serão considerados terroristas e apoiadores do terrorismo", acrescentou.
Por sua vez, no mesmo dia, a Cruz Vermelha indicou estar "obrigada" a suspender temporariamente suas atividades na Cidade de Gaza devido às operações militares israelenses, alertando que "dezenas de milhares de pessoas" que permaneceram no local enfrentavam "condições humanitárias terríveis".
"A intensificação das operações militares na cidade de Gaza forçou o Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) a realocar seu pessoal para seus escritórios no sul da Faixa de Gaza, a fim de garantir a segurança das equipes e a continuidade das operações", informou.