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Trabalhadores trazidos para reconstruir Alemanha vivem hoje na pobreza

30 out 2026 - 09h51
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Resumo
Os trabalhadores imigrantes que impulsionaram a reconstrução econômica da Alemanha no pós-guerra enfrentam hoje altos índices de pobreza na velhice. Por terem exercido funções braçais com baixos salários, menor qualificação e carreiras instáveis, muitos têm aposentadorias reduzidas — cerca de 360 euros a menos que os nativos — e dependem de auxílios sociais. O cenário afeta sobretudo a comunidade de origem turca, marcada por sequelas de saúde, isolamento e histórico de discriminação no país.

Trabalhadores estrangeiros convocados para manter o "milagre econômico" alemão recebem atualmente aposentadorias mais baixas do que alemães e muitos dependem de benefícios sociais.O local da cerimônia foi escolhido de forma simbólica: em meados de setembro, no aeroporto de Düsseldorf, o governador da Renânia do Norte-Vestfália, Hendrik Wüst, homenageou em um evento comemorativo as pessoas que haviam desembarcado ali 65 anos antes.

Muitos dos trabalhadores convidados (Gastarbeiter) ganhavam a vida na época trabalhando em minas de carvão subterrâneas
Muitos dos trabalhadores convidados (Gastarbeiter) ganhavam a vida na época trabalhando em minas de carvão subterrâneas
Foto: DW / Deutsche Welle

Eram os "trabalhadores convidados", os chamados Gastarbeiter. Milhares de pessoas que se mudaram para a Alemanha para trabalhar após a Segunda Guerra Mundial, principalmente entre 1955 e 1973. A ainda jovem República Federal da Alemanha (Alemanha Ocidental) dependia desses migrantes para manter o "milagre econômico" alemão. Isso porque boa parte da população, principalmente a masculina em idade de trabalha, havia sido perdida durante a Guerra. Além disso, a taxa de natalidade estava em queda.

Assim, o governo da então Alemanha Ocidental assinou acordos de recrutamento com vários países para garantir o fluxo de mão de obra masculina, mais tarde também feminina. Um desses países foi a Turquia. Cerca de 870 mil turcos chegaram ao país até 1973, quando o programa terminou. Eles trabalharam nas minas de carvão, realizaram tarefas em ritmo acelerado nas linhas de montagem e fizeram a limpeza das fábricas. A maioria permaneceu na Alemanha e encontrou um novo lar em cidades como Düsseldorf, Colônia e Duisburgo.

"Eles tornaram nosso país mais diverso, mais aberto e mais forte", elogiou Wüst, acrescentando, porém: "Só chegaremos ao nosso objetivo quando nome, cor da pele e religião deixarem de fazer diferença."

Mas, para Haci-Halil Uslucan, professor de Estudos Turcos Modernos na Universidade de Duisburgo-Essen, a Alemanha ainda está longe disso. Segundo ele, mesmo 65 anos depois, ainda existe muita discriminação contra migrantes de origem turca e seus filhos.

Ainda assim, ele vê o acordo como uma história de sucesso. "Temos êxitos em muitas áreas, especialmente no avanço educacional. Hoje contamos com um grande número de graduados universitários, ascensão profissional e também ascensão política. Um exemplo é Cem Özdemir, atual governador de Baden-Württemberg."

Pobreza na velhice maior entre migrantes

O próprio Uslucan é um exemplo desse processo. Seu pai chegou a Berlim em 1971 para trabalhar na indústria têxtil. Dois anos depois, trouxe a esposa e os dois filhos.

Uma das pesquisas mais recentes de Uslucan, que também é doutor em Psicologia, aborda um dos lados obscuros do acordo de recrutamento, que ainda afeta muitos dos antigos trabalhadores convidados: a solidão dos imigrantes mais velhos. Mas o isolamento não é o único problema enfrentado por muitos descendentes de turcos na aposentadoria.

"A pobreza na velhice, segundo os estudos, é duas vezes mais alta entre migrantes: entre 25% e 30%, em comparação com 12% a 14% entre os alemães. As taxas de invalidez e aposentadoria precoce também são significativamente maiores entre migrantes, porque a primeira geração exerceu trabalhos muito pesados fisicamente."

Segundo Uslucan, a probabilidade de ficar desempregado cerca de dez anos antes da aposentadoria também é duas vezes maior entre migrantes. "Além disso, eles têm rendimentos mensais mais baixos, trajetórias profissionais frequentemente interrompidas e trabalharam em setores de baixos salários. Como consequência, suas aposentadorias também são menores."

Média de 360 euros a menos de aposentadoria

Uma análise especial da Previdência Alemã para o Mediendienst Integration, plataforma de informação para jornalistas sobre os temas refúgio, migração e discriminação, revelou números alarmantes: aposentados com nacionalidade turca recebem, em média, cerca de 360 euros (cerca de R$ 2.170) a menos por mês do que aposentados alemães.

Ainda mais preocupante: em junho de 2026, a proporção de cidadãos turcos que dependiam de benefícios sociais complementares para idosos era mais de três vezes maior do que entre os alemães: 9,3% contra 2,7%.

De acordo com o cientista social Eric Seils, da Fundação Hans Böckler, muitos desses trabalhadores chegaram à Alemanha já em idade mais avançada e, por isso, contribuíram menos tempo para o sistema previdenciário. "A principal razão são os salários mais baixos e o histórico profissional. Os trabalhadores convidados que vieram para a Alemanha geralmente foram direto para fábricas, minas ou canteiros de obras. Lá, não recebiam salários elevados por hora, porque frequentemente tinham menor nível de escolaridade do que os alemães."

Com a desindustrialização iniciada no começo dos anos 1970 e a crise do petróleo, muitos também perderam seus empregos. "Deixaram de existir tantos postos de trabalho de qualidade nas indústrias tradicionais. Quem tinha menos formação foi mais afetado pelo desemprego, assim como ocorreu entre os alemães. E quando a carreira profissional sofre interrupções, isso se reflete inevitavelmente na aposentadoria."

Trabalhadores convidados com menor qualificação

A pesquisadora Janina Söhn, do Instituto de Pesquisa Sociológica de Göttingen (SOFI), vinculado à Universidade Georg-August, também estudou a pobreza na velhice entre imigrantes. Sua conclusão é clara: o fato de quase um terço do migrantes estar em risco de pobreza representa um grande problema para a Alemanha.

"Esse grupo é ainda mais afetado do que, por exemplo, as mulheres em geral, que já enfrentam um risco elevado de pobreza. Quando observamos mulheres migrantes que vivem sozinhas, os números são realmente alarmantes. Sem apoio familiar, a situação seria ainda mais triste."

Mesmo a possibilidade de complementar a renda durante a aposentadoria costuma ser limitada para muitos cidadãos de nacionalidade turca. Isso ocorre porque sua qualificação frequentemente não é suficiente ou porque o trabalho físico pesado realizado durante décadas já comprometeu sua capacidade laboral.

Dados da Agência Federal de Emprego mostram que a taxa de ocupação desse grupo é apenas metade da observada entre os alemães: 5,2% contra 10,8%. "Na verdade, trata-se de um conjunto de desvantagens e dificuldades acumuladas ao longo da vida", resume Söhn. "Os trabalhadores convidados foram trazidos para a Alemanha e assumiram os trabalhos mais pesados, enquanto parte da população nativa conseguiu se qualificar e avançar profissionalmente."

Já para os trabalhadores convidados, não houve iniciativas relevantes de capacitação. "As pessoas que realizaram esses trabalhos pesados, indispensáveis para qualquer economia, acabaram pagando o preço com a própria saúde."

Deutsche Welle A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas.
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