Brasília aposta em pragmatismo com Washington, mas espera teste político nas urnas dos EUA
Com a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva e a ida de Flávio Bolsonaro para os Estados Unidos, o governo brasileiro se prepara para renegociar as bases da relação bilateral com Washington. A aposta em Brasília é a de que ainda há espaço para um entendimento pragmático entre os dois países. Mas a dimensão dessa possibilidade dependerá, em boa medida, do resultado das eleições de meio de mandato americanas, na próxima terça-feira.
O governo brasileiro aposta no pragmatismo com os Estados Unidos enquanto aguarda as eleições legislativas americanas, vistas como um termômetro para a força política de Donald Trump. O Planalto busca calibrar a defesa da soberania nacional com a abertura para negociações e investimentos estratégicos, sem abrir mão de sua autonomia externa. Apesar de divergências ideológicas, atritos diplomáticos e do risco de sanções, Brasília prioriza manter os canais de diálogo bilaterais preservados.
Vivian Oswald, correspondente da RFI em Brasília
A avaliação no Palácio do Planalto é que os dois países precisam primeiro concluir o reajuste de forças políticas pelo qual estão passando. Depois do Brasil, é a vez de os Estados Unidos irem às urnas para escolher senadores e deputados, em uma votação que deverá dar uma indicação mais clara do que esperar do presidente Donald Trump daqui para frente.
No governo brasileiro, a leitura é que uma eventual perda de controle republicano de uma ou das duas Casas do Congresso pode criar dificuldades adicionais para o avanço da agenda de Trump. Isso, avaliam interlocutores do Planalto, poderia significar uma mudança de postura em relação ao Brasil.
É justamente nesse ponto que está o principal desafio da diplomacia brasileira: calibrar o discurso da soberania nacional sem fechar as portas para a negociação.
Segundo fontes, não há divergências consideradas incontornáveis entre os dois países. O problema, na avaliação do governo, é saber até que ponto Washington estará disposta a separar os interesses estratégicos da pressão política.
Em Brasília, não se descarta a possibilidade de novas sanções norte-americanas contra o Supremo Tribunal Federal, especialmente contra o ministro Alexandre de Moraes, que determinou a entrega dos passaportes de Flávio Bolsonaro.
Planalto vê legitimidade eleitoral como trunfo
Ainda assim, integrantes do governo lembram que, mesmo sob sanções no ano passado, o Brasil continuou negociando com os Estados Unidos e conseguiu reverter parte das medidas adotadas por Washington.
A margem de mais de 4,4 milhões de votos que garantiu a vitória de Lula é vista pelo Planalto como um fator adicional de legitimidade política e de redução do espaço para questionamentos externos ou tentativas de interferência norte-americana na política nacional.
Do lado americano, porém, a eleição de Lula é percebida em Brasília como uma derrota política para a estratégia da administração Trump na região. O Brasil era considerado uma peça importante da política de Washington para ampliar sua influência no hemisfério em um contexto de avanço de forças políticas de direita na América Latina.
As primeiras declarações de Trump depois da eleição brasileira reforçaram essa percepção ambígua. O presidente americano afirmou que não havia apoiado nenhum dos candidatos e declarou que gosta de Lula, mas também mencionou a possibilidade de fraude eleitoral.
No Planalto, a avaliação foi a de que Trump tentou falar simultaneamente a públicos diferentes. Por isso, o governo decidiu não divulgar uma nota oficial nem orientar Lula a responder diretamente às declarações.
Coube ao vice-presidente Geraldo Alckmin fazer o contraponto público, preservando o canal de diálogo entre os dois chefes de Estado.
Casa Branca dá sinais contraditórios
Essa estratégia, de acordo com interlocutores do governo, vem sendo adotada desde o ano passado, quando a relação bilateral começou a se deteriorar de forma mais acentuada. Ao mesmo tempo, autoridades brasileiras afirmam perceber sinais de desgaste dentro do próprio governo americano em relação ao impasse com o Brasil.
A leitura em Brasília é que a Casa Branca estaria dividida entre uma ala mais ideológica, associada ao secretário de Estado Marco Rubio, e setores mais técnicos que defendem a manutenção de negociações com o governo brasileiro.
Mesmo diante dessas divergências, um canal formal de diálogo continua aberto entre os dois países. Após o último telefonema entre Lula e Trump, os governos criaram um grupo de trabalho para discutir modalidades de negociação que vão além da questão tarifária.
Os Estados Unidos ficaram de apresentar uma proposta para ampliar a pauta das conversas, mas o processo acabou ficando em suspenso durante o período eleitoral brasileiro.
Investimentos seguem na mesa de negociações
Segundo fontes do governo, Brasília está aberta a receber investimentos americanos, inclusive em áreas consideradas estratégicas, como o setor de minerais críticos.
O interesse brasileiro, contudo, vem acompanhado de uma condição: que sejam respeitados os interesses estratégicos do país. No governo, a disposição para negociar não significa abandonar a política externa de diversificação de parcerias construída nos últimos anos.
A orientação é preservar simultaneamente os vínculos com os Brics, a China, a Índia, os países europeus e outros parceiros internacionais. A mensagem transmitida por integrantes do Executivo é a de abertura ao diálogo com Washington, mas sem concessões consideradas incompatíveis com a autonomia da política externa brasileira.
O desafio para Brasília, portanto, vai muito além da disputa comercial. Mesmo que Trump saia politicamente enfraquecido das eleições de meio de mandato, continuará na Presidência até 2028. E será com ele que o governo Lula terá de negociar.
Pendências diplomáticas permanecem sem solução
A relação entre os dois países acumula ainda uma série de questões diplomáticas pendentes. O governo brasileiro adiou uma decisão sobre a indicação do deputado americano Daniel Perez para a Embaixada dos Estados Unidos em Brasília.
Ao mesmo tempo, continua sem solução a situação da embaixadora brasileira em Washington, Maria Luiza Viotti, cujo status migratório foi alterado há alguns meses, restringindo suas entradas em território americano.
Nos bastidores da diplomacia, o tratamento dado ao futuro embaixador dos Estados Unidos pode levar em consideração o princípio da reciprocidade. Caso a indicação de Perez seja confirmada, a concessão de um visto de entrada única ou múltipla poderá se tornar parte desse delicado jogo diplomático entre os dois governos.
Apesar das tensões acumuladas, não existem, por enquanto, pedidos formais para um encontro bilateral entre Lula e Trump. Uma oportunidade de contato poderá surgir em dezembro, durante a cúpula de líderes do G20, prevista para os dias 14 e 15 na Flórida.
Até lá, o governo brasileiro continuará observando atentamente o resultado das eleições legislativas americanas, consideradas em Brasília um teste importante para medir o espaço político de Trump e as perspectivas da relação entre os dois países nos próximos anos.
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