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Pesselista foi ao Paraguai com chefes de firma alvo de CPI

Documentos revelam que Alexandre Giordano viajou três vezes ao país vizinho, apesar de ele afirmar que participou de apenas uma reunião

14 ago 2019
08h12
atualizado às 08h12
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O político e empresário Alexandre Giordano (PSL-SP), suplente do senador Major Olímpio (PSL-SP), esteve pelo menos três vezes no Paraguai ao lado de executivos da empresa Léros, interessada em comercializar energia de Itaipu, revelam registros de voo divulgados nesta terça-feira.

Segundo informações obtidas pelo jornal ABC Color em colaboração com o Estado, Giordano viajou duas vezes a Assunção em jatos particulares acompanhado de executivos da Léros, a primeira em 9 de abril juntamente com Adriano Tadeu Deguimerndjian Rosa, executivo da Léros e o advogado Cyro Dias Lage Neto, além de dois tripulantes. Eles voltaram a Foz do Iguaçu no mesmo dia.

Usina de Itaipu com o vertedouro aberto, em 2016
Usina de Itaipu com o vertedouro aberto, em 2016
Foto: Agência Brasil

A segunda viagem foi no dia 25 de junho, quando os governos de Brasil e Paraguai já haviam firmado a ata que repactuava a divisão da energia de Itaipu. Eles voltaram no dia seguinte ao País.

Até então, Giordano admitia ter participado de apenas uma reunião em Ciudad del Este (a terceira, à qual foi de carro), em que foi discutida a possibilidade de compra de energia paraguaia de Itaipu para revenda no mercado brasileiro. Participaram deste encontro representantes da Léros. Em 1º de agosto, o suplente de senador negou ao Estado ser representante formal da Léros.

"Não tenho nenhuma relação com esse acordo. A Léros me chamou e eu fui lá escutar a proposta da Ande sobre venda de energia. Existe uma licitação aberta, que é pública. Eu não comprei nada. A própria Léros não assinou nada", disse.

O jornal paraguaio publicou um documento que desmente Giordano. Trata-se de uma proposta formal feita pela Léros à Administração Nacional de Energia (Ande, a estatal energética do Paraguai) assinada pelo executivo Kleber Ferreira em São Paulo em 27 de julho. No documento, a Léros oferece US$ 31,50 KWh pela energia excedente de Itaipu. Segundo a proposta, a empresa pagaria 30% do valor em efetivo no ato da entrega da energia e o restante, também em efetivo, após 90 dias. A Léros oferece ainda dividir com a Ande o lucro obtido em caso de venda acima de US$ 35 Kwh.

A Léros está na mira de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) criada pelo Congresso Paraguaio, que deve começar a funcionar ainda nesta semana. Em entrevista à Telefuturo, o ex-presidente das Ande Pedro Ferreira disse que o nome da família Bolsonaro foi citado várias vezes durante reuniões com a Léros.

O advogado José "Joselo" Rodríguez, que se apresentava como assessor jurídico do vice-presidente do Paraguai, Hugo Velázquez, disse em mensagens a Ferreira que a Léros representava a "família presidencial" e o "governo brasileiro".

O Estado apurou que a sede do diretório estadual do PSL de São Paulo, cujo presidente é o deputado Eduardo Bolsonaro, funcionou no mesmo prédio onde ficam as empresas de Giordano até o final de julho, às vésperas do escândalo envolvendo a ata secreta de Itaipu vir à tona.

Procurado pelo Estado, Giordano disse que "não tinha nada a declarar" sobre o caso do avião. A Léros não respondeu aos telefonemas.

Presidente Jair Bolsonaro e presidente do Paraguai, Mario Abdo, na hidrelétrica de Itaipu, em Foz do Iguaçu
Presidente Jair Bolsonaro e presidente do Paraguai, Mario Abdo, na hidrelétrica de Itaipu, em Foz do Iguaçu
Foto: Alan Santos/Presidência da República/Divulgação / Reuters

Além de obrigar o governo paraguaio a aumentar o volume de aquisição de energia garantida de Itaipu (US$ 44 KWh), mais cara do que a energia excedente (US$ 6 KWh), o que implicaria o aumento da tarifa no país vizinho, o acordo entre os governos de Jair Bolsonaro e Mário Abdo Benítez suprimiu da ata o item 6, que permitia à Ande vender diretamente no mercado brasileiro a energia mais barata.

O item 6 impedia que empresas como a Léros pudessem comercializar a energia excedente do Paraguai. A revelação do acordo, considerado "entreguista" pela oposição, levou o país vizinho a uma crise política que pôs em risco os mandatos de Abdo Benítez e Velázquez. Bolsonaro aceitou o cancelamento do acordo pelo Paraguai após Benítez ser alvo de um processo de impeachment.

Audiência

Ainda nesta terça-feira, a Comissão de Relações Exteriores da Câmara aprovou requerimento do deputado Rubens Bueno (Cidadania-PR) para que os ministros Ernesto Araújo, das Relações Exteriores, e Bento Costa Lima Leite de Albuquerque Junior, de Minas e Energia, participem de audiência pública com o objetivo de esclarecer os termos e as implicações do recente acordo assinado, e posteriormente cancelado, entre o Brasil e o Paraguai.

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Estadão
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