Para palestino-brasileiro, ter vida calma é o que importa
Akram Affaneh é oficial de projetos da Comissão Eleitoral Central (CEC) e porta-voz do Conselho de Cidadãos Brasileiros de Ramalá, na Cisjordânia
Neto de refugiados palestinos, Akram Affaneh cresceu no Mato Grosso do Sul e voltou à Palestina aos 17 anos, quando os pais entreveram o acercamento de uma solução para o conflito. Hoje com 36 anos, Akram vive em Ramalá, é casado e tem dois filhos. O palestino-brasileiro Akram Affaneh é oficial de projetos da Comissão Eleitoral Central (CEC) e porta-voz do Conselho de Cidadãos Brasileiros de Ramalá, na Cisjordânia. Ele foi o representante na IV Conferência da Comunidade de Brasileiros no Exterior no ano passado, realizada em Fortaleza. Nesta entrevista exclusiva ao Terra, ele fala sobre os recentes protestos na Cisjordânia em apoio aos palestinos de Gaza e sobre o interrompido processo de organização das eleições palestinas.
Como está a situação na Cisjordânia com as manifestações?
Na última semana, as coisas pioraram muito por causa da situação em Gaza. Estão morrendo centenas de palestinos. Então, protestos de solidariedade na Cisjordânia estão acontecendo de uma forma com que os israelenses não estão sabendo lidar. (Na semana passada) morreram em torno de uns dez palestinos e mais de 200 ficaram feridos. E isto vai custar um pouco caro e pode causar outros problemas no futuro para os israelenses.
Este apoio poderia levar a uma Terceira Intifada (revolta)?
É uma pergunta difícil, mas aqui na Cisjordânia o povo palestino se acomodou, pois o poder aquisitivo deles melhorou. Eles conseguem comprar casas, carros e isso pode ser um obstáculo para que uma pessoa pense em guerrilhar em protestos contra os israelenses.
Então a situação poderia se acalmar?
Se o número de palestinos mortos na Faixa de Gaza continuar, vai ser difícil até mesmo para os que estão se sentindo mais confortáveis ou não querem guerrilhar. Se esse massacre continuar, poderá abrir uma oportunidade de Terceira Intifada, sim. Mas, para isso acontecer, será preciso uma garantia politica também. Se o Fatah (partido do presidente palestino Mahmud Abbas) não quiser que haja intifada, isso vai afetar muito, pois é preciso apoio político. Quando um senhor morre num protesto, por exemplo, a família dele vai precisar de apoio. Então, tem que ter uma garantia material.
Ramalá tem crescido nos últimos anos como uma cidade multicultural, com funcionários de instituições de governo e ONGs estrangeiras e boas opções para o turismo. O conflito em Gaza modificou a vida em Ramalá?
Modificou um pouco. Diminuíram as festas, essas saídas à noite… Tudo se volta para a solidariedade, para o que está acontecendo em Gaza.
Em 2009, o presidente da Comissão Eleitoral Central (CEC) da Palestina, Hanan Nasser, afirmou que as eleições enfrentavam obstáculos na Faixa de Gaza e em Jerusalém Oriental. Como andam os preparativos para novas eleições?
Antes de começar o conflito em Gaza, eles (Hamas e Fatah) entraram em acordo de reconciliação, o que ajudou muito a CEC a trabalhar lá. Agora é praticamente o governo da Cisjordânia que está governando Gaza em termos de administração. Mas, no chão, o pessoal do Hamas tem mais força, tem mais poder. O único problema que ficou foi em Jerusalém, onde os israelenses não permitem o trabalho da CEC, por motivos políticos.
E agora com o conflito em Gaza?
Agora não tem nenhuma entidade pública trabalhando em Gaza. Está tudo fechado, praticamente ninguém sai de casa.
As eleições palestinas estavam previstas para quando?
Eles não fecharam uma data. No acordo de reconciliação, decidiram que em seis meses deveriam indicar uma data. Esse processo não se deu até o momento e aconteceu esta guerra agora, o que vai adiar ainda mais.
Em 1947, o Brasil do governo Getúlio Vargas aceitou a proposta da ONU de partição do antigo mandato britânico em Israel e Palestina. Em 2010, o Brasil do governo Lula da Silva reconheceu o Estado da Palestina nas fronteiras de 1967. Ainda há espaço para a construção de dois Estados vivendo lado a lado, com a Palestina estabelecida em Gaza e Cisjordânia? Você aceitaria esta opção?
Eu sou descendente de refugiados. Meu avô viveu em um vilarejo ao redor de Jerusalém e foi expulso. E como muitos refugiados, a gente pensa que a única opção é chegar a um acordo de paz para que possa seguir vivendo uma vida boa, uma vida calma. Para o nosso bem e o bem dos israelenses. Eu, pessoalmente, aceitaria. Vai ter pessoas que não vão aceitar… Mas ter uma vida calma e de qualidade, num Estado soberano, sem ser humilhado, isso é o mais importante.
Quem não aceitaria? O Hamas?
O Hamas sempre anuncia que, se Israel aceitar tirar suas tropas da Cisjordânia e da Faixa de Gaza, eles terminariam a resistência armada. Mas não reconheceriam Israel como um Estado, querem ainda denominá-los como ocupadores, algo do tipo. Nas últimas eleições, eles ganharam não porque a maioria do povo palestino seja de militantes adeptos do Hamas, mas porque viram que depois de 13 anos de negociação à época e nenhum resultado resolveram tentar outra opção.
O Fatah poderia ter outra chance nas próximas eleições?
Depois de 20 anos de negociação e nada conseguido, acho que vai ser mais difícil ainda. Mas a culpa não é do Fatah. É culpa dos israelenses que não deram nada.
E o que você espera para o futuro e para os seus filhos?
Espero que esse conflito tenha fim para que a nova geração tenha uma vida de qualidade, pacífica, sem esse sofrimento, angústia e depressão. Acabando o conflito seria bem melhor para os meus filhos e não só para eles, mas também para os filhos dos israelenses, que também querem viver em paz.
