As casas inundadas diariamente em ilha que está afundando: 'Me sinto um humano anfíbio'
Vilarejos na costa da ilha de Java, na Indonésia, ficam alagadas todas as manhãs; é uma das regiões litorâneas que mais afundam no mundo.
Todas as manhãs, a água da enchente na casa de Suwandi começa em um nível baixo e passa a subir de forma constante. Por volta do meio-dia, atinge o pico, de cerca de 30 centímetros, encharcando móveis.
Há mais de uma década, Suwandi vê sua casa em Indramayu, na costa norte da ilha de Java, na Indonésia, ser inundada diariamente; resultado da combinação entre a elevação do nível do mar e o afundamento do solo.
"Meus pés nunca ficam secos durante 12 horas por dia. Sinto que sou um ser humano anfíbio", diz, com lágrimas nos olhos.
Suwandi se lembra de que, em meados dos anos 1990, o litoral ficava a mais de um quilômetro dali. Mas, em 2014, uma enxurrada destruiu os diques marítimos que protegiam a área.
Com a terra sem defesa, as marés passaram a avançar, erodindo lentamente a antiga linha da costa.
Hoje, do amanhecer até a meia-noite, o vilarejo de Suwandi, na região de Indramayu, permanece submerso.
O único acesso é um caminho estreito de pedra, de apenas um metro de largura e que fica intransitável, deixando a comunidade praticamente isolada.
Suwandi e vizinhos como Ningsih precisam recorrer a jangadas improvisadas para se deslocar pela vila alagada.
"É difícil levar meus filhos para a escola", diz Ningsih. "Se o nível da água está alto em um dia de aula, tenho de usar uma jangada de isopor para levá-los."
Do lado de fora, as enchentes destruíram tudo: a madeira apodrece rapidamente e as casas se desintegram.
Ningsih quer desesperadamente deixar o vilarejo, que considera inabitável. Mas a situação financeira precária da família não lhe deixa alternativa.
"Mesmo que eu queira me mudar, para onde eu iria?", questiona ela.
Terra transformada
Mais adiante ao longo da costa, o conservacionista Wasito acompanha de perto os manguezais que ele próprio plantou.
Assim como os moradores de Indramayu, Wasito e a comunidade de Kendal vêm enfrentando enchentes de maré cada vez mais intensas, que agora ocorrem todos os meses, e não mais uma vez por ano.
"Isto é o que sobrou da inundação de maré de ontem à tarde; a água só começou a baixar nesta manhã", diz ele, observando a água ainda acumulada na cozinha e na sala de estar.
Wasito suspeita que a destruição das áreas verdes costeiras de Kendal, antes cobertas por manguezais, seja uma das causas do problema. Os manguezais são conhecidos por atuar como barreiras naturais contra inundações causadas pelas marés.
"Algumas áreas foram transformadas em polos industriais, e outras, em fazendas modernas de criação de peixes", afirma.
A expansão industrial ao longo desse trecho do litoral é impulsionada principalmente pela Kendal Special Economic Zone (SEZ, na sigla em inglês), uma ampla iniciativa com apoio do governo, oficialmente lançada em 2016, para atrair investimentos e estimular a economia local por meio de incentivos fiscais.
Juliani Kusumaningrum, porta-voz da Kendal Special Economic Zone, nega de forma categórica que o complexo industrial tenha removido manguezais.
"O que está acontecendo, na verdade, é a subsidência [um tipo de afundamento] do solo. O terreno ao longo da costa norte de Java está afundando", argumenta. "Isso ocorre principalmente em áreas residenciais, não dentro da zona industrial."
Crise dupla
Java é a ilha mais populosa da Indonésia, abriga a capital Jacarta e mais da metade dos 284 milhões de habitantes do país. Responde por mais de 55% da economia nacional. Mas sua costa norte está desaparecendo rapidamente.
A Climate Central, organização independente de cientistas e jornalistas que pesquisa e divulga dados sobre as mudanças climáticas, desenvolve cenários globais de inundações e prevê que várias áreas ficarão submersas até 2050. Diante desse cenário, o governo planeja transferir a capital para outra ilha nas próximas décadas.
O litoral enfrenta uma crise dupla. Por ser naturalmente baixo, é especialmente vulnerável à elevação global do nível do mar causada pelas mudanças climáticas. Ao mesmo tempo, o solo está afundando a uma velocidade muito maior do que a do avanço do mar.
Esse processo é impulsionado, em grande parte, por décadas de extração excessiva de água subterrânea, resultado do rápido crescimento populacional e da urbanização.
Sem acesso amplo a redes de abastecimento, muitas comunidades recorrem ao bombeamento de água de aquíferos profundos. Isso faz com que o terreno acima ceda, como se estivesse sobre um balão esvaziando.
Especialistas alertam que grandes projetos industriais agora aceleram ainda mais esse afundamento.
Uma costa em afundamento
Ao longo do litoral, foi registrada uma subsidência média de 1 cm a 20 cm por ano.
O solo da região é naturalmente instável, assentado sobre depósitos moles e soltos, como areia e argila, que se compactam com facilidade.
O geólogo Heri Andreas, especialista em engenharia geodésica do Instituto de Tecnologia Bandung (Indonésia), afirma que essa compactação natural responde por cerca de 2 cm de afundamento anual. O restante, segundo ele, deve ser atribuído a outros fatores.
Java, já vulnerável do ponto de vista geográfico, enfrenta agora uma forte pressão industrial: 18.882 hectares foram destinados a zonas industriais, como a Kendal Special Economic Zone.
Mapeamentos por satélite mostram que as áreas com maior subsidência se sobrepõem de forma consistente aos limites de grandes parques industriais, zonas econômicas especiais e concentrações de prédios comerciais de grande porte, o que sugere uma correlação entre os fenômenos.
Andreas estima que outros 2 cm de afundamento anual possam ser atribuídos às obras industriais, já que o peso de infraestruturas pesadas, como fábricas, estradas e galpões, pressiona o solo macio.
A queda restante, segundo ele, decorre da extração de recursos como a água subterrânea. Embora essa prática ocorra há décadas, o especialista acredita que hoje ela é agravada pela atividade industrial.
"O processo de subsidência já estava em curso durante os períodos de desenvolvimento ao longo de toda a costa norte de Java", afirma. "A indústria apenas agrava o problema."
Mas Java não é um caso isolado.
Gilles Erkens, geólogo e especialista em subsidência do instituto de pesquisa Deltares, na Holanda, afirma que muitas áreas costeiras ao redor do mundo estão afundando a uma velocidade até dez vezes maior do que a elevação do nível do mar, principalmente por causa da extração excessiva de água subterrânea.
"Daqui a cerca de 100 anos, provavelmente será a elevação do nível do mar que vai dominar o problema", diz. "Mas, até lá, será a subsidência do solo que vai predominar no risco de inundações e ampliar os danos."
Na costa norte de Java, ele concorda que "é perfeitamente possível que novas fábricas provoquem o afundamento do terreno".
Muro marítimo gigante
O vice-ministro coordenador da Economia da Indonésia, Elen Setiadi, nega que projetos industriais sejam os responsáveis pela crise na costa norte de Java.
"O problema da subsidência do solo se estende por quase toda a costa norte [de Java] e já era uma grande preocupação antes mesmo da criação das zonas econômicas especiais", afirma.
Ele destaca que as empresas precisam cumprir exigências rigorosas, como a realização de estudos de impacto ambiental e a apresentação de planos de mitigação de enchentes. Segundo Setiadi, o governo também responde ativamente à crise por meio do projeto do Muro Marítimo Gigante.
Em setembro passado, durante a Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), o presidente da Indonésia, Prabowo Subianto, apresentou a proposta de construir um muro marítimo com cerca de 500 km de extensão.
"Pode levar 20 anos, mas não temos outra escolha. Precisamos começar agora", declarou.
Mais tarde, Prabowo disse que a gigantesca obra poderia proteger cerca de 50 milhões de pessoas que vivem ao longo da costa norte de Java. Apesar da dimensão do projeto, ele já enfrenta ceticismo.
"O muro pode, é claro, ajudar a reduzir o risco de enchentes… portanto, pode ajudar. Mas não em relação à subsidência do solo", diz Erkens, do instituto de pesquisa Deltares.
Na mesma linha, Heri Andreas, do Instituto de Tecnologia Bandung, argumenta que o muro chega tarde demais para resolver o afundamento da costa de Java. Ele defende que o governo enfrente o que considera o verdadeiro problema.
"Controlar a extração de água subterrânea é a solução", afirma.
Esta reportagem foi produzida em parceria com o Pulitzer Center