EUA podem perder a Copa do Mundo e a Olimpíada após prisão de Maduro? Entenda
Especialistas explicam possíveis consequências esportivas ao governo Trump após ação na Venezuela
Especialistas avaliam que a operação dos EUA na Venezuela, apesar de violar princípios do Direito Internacional, dificilmente resultará em sanções esportivas significativas, permitindo ao país seguir como sede da Copa de 2026 e das Olimpíadas de 2028.
A ação militar organizada pelos Estados Unidos e que resultou na captura do líder venezuelano Nicolás Maduro no último sábado, 3, levantou dúvidas sobre o futuro do país norte-americano como sede dos maiores eventos esportivos do planeta, como a Copa do Mundo de 2026 e os Jogos Olímpicos de 2028.
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Ainda que a Carta das Nações Unidas proíba ações armadas contra a integridade territorial ou a independência política de outro Estado, especialistas ouvidos pelo Terra apontam que a operação na Venezuela deverá resultar em poucas ou até mesmo nenhuma consequência ao governo de Donald Trump, especialmente no que diz respeito ao Mundial da Fifa e à Olimpíada.
Neste contexto de conflitos armados internacionais, é importante mencionar o caso da Rússia que, após a invasão ao território da Ucrânia em fevereiro de 2022, acabou suspensa de grandes competições esportivas: nos Jogos de Paris, em 2024, os russos puderam competir apenas como Atletas Neutros Independentes (ANI) após uma triagem rigorosa, e sem o uso de bandeiras e do hino.
Segundo Maristela Basso, advogada e professora de Direito Internacional da Universidade de São Paulo (USP), o contexto da invasão da Ucrânia e a diferença não só entre o poderio militar, mas também econômico e estratégico entre Rússia e Estados Unidos deve ser suficiente para inibir possíveis consequências esportivas ao país governado por Trump.
"Quando a Rússia invadiu a Ucrânia, houve uma unanimidade não só por parte dos chefes de Estado, mas também da comunidade internacional, no sentido de que a Rússia havia ferido princípios importantes do Direito Internacional, anexando territórios e matando pessoas", explica Maristela.
"No que diz respeito à Venezuela, não há essa unanimidade. Tem os que recriminam os atos dos EUA, pela perspectiva do Direito Internacional, e há os que dizem que fez o que tinha que fazer, no caso seria a retirada de um tirano do poder", acrescenta.
A especialista também questiona qual país ou entidade seria responsável por levantar possíveis punições contra os Estados Unidos que, por sua vez, não integram o Tribunal Penal Internacional. "Que país faria denúncia? De fato, os EUA violaram princípios do Direito Internacional, não respeitou território estrangeiro, se incluíram nos assuntos internos. Mas responderão perante a quem? Dessa forma, parece que o Direito Internacional perde efetividade", pondera.
A resistência de países ao cumprimento de normas e tratados internacionais é vista como justificativa para que os Estados Unidos não sofram consequências após a operação à Venezuela, conforme explica Vera Kanas, advogada e especialista em comércio internacional.
"O que acontece se um país não cumpre essas normas? Vale, no final, a lei do mais forte. A gente vê os Estados Unidos invadindo um país para capturar uma pessoa, nesse caso o próprio chefe de Estado, e não há muito o que se possa fazer, não existem regras ou alguma sanção prevista que possam ser impostas aos EUA."
"Teria a força, se alguém estiver disposto a bombardear os EUA. Pode até ser que funcione, mas sem ser isso não tem muito o que fazer. Não temos normas que estão sujeitas, sanções que você possa obrigar alguém a cumprir", complementa Vera.
Para a advogada, as punições no âmbito esportivo, como as aplicadas à Rússia em 2022, são medidas que os países impõem contra aqueles que 'não se comportam como gostariam que se comportassem'.
"As sanções à Rússia não são normas internacionais, são normas americanas e europeias. No final das contas, elas são impostas contra os países aos quais é possível se impor. Os EUA são muito mais poderosos do que a Rússia, que tem um poder militar muito grande, mas econômico muito pequeno. Dificilmente os países vão se insurgir contra os Estados Unidos", compara.
Vera aponta, também, o papel dos EUA como um dos principais financiadores das organizações mundiais, como as Nações Unidas, como impeditivo a uma possível reação da comunidade internacional.
"Além disso, os EUA são membros permanentes do Conselho de Segurança e têm poder de veto. Então, se há alguma sanção que outros queiram impor de forma colegiada, eles têm esse poder vetar, proibir que se coloque. E mesmo as organizações esportivas dificilmente vão impedir os EUA de participar por essa questão do poder econômico", argumenta a advogada.
"Claro que tudo pode acontecer amanhã ou depois, mas não vejo acontecendo uma sanção da Fifa, uma proibição em qualquer torneio. Alguma ação mais localizada talvez, mas eu não vejo, nesses eventos mais globais, nenhuma sanção sendo imposta contra os Estados Unidos", detalha.
Junto ao Canadá e ao México, os Estados Unidos sediarão a Copa do Mundo de 2026 com a participação recorde de países: 48. Na cerimônia que decidiu o sorteio do Mundial, Trump chegou a ser homenageado com o Prêmio da Paz da Fifa e foi elogiado por Gianni Infantino, presidente da entidade máxima do futebol.
"Nós queremos viver em um espaço seguro, por isso que nós estamos aqui. Você definitivamente merece o primeiro Prêmio de Paz da Fifa pelo que você conseguiu atingir, da sua forma", disse o italiano.

