Oxfam pede acesso irrestrito às ONGs à região norte do Mali
À medida que o norte do Mali é libertado das mãos de rebeldes islamitas, vão ficando mais evidentes as necessidades da população. Organizações humanitárias têm alertado a comunidade internacional sobre a dificuldade de trabalho junto às comunidades mais isoladas. Além disso, cresce o número de deslocados internos e de pessoas que cruzam a fronteira do país em busca de proteção nas nações vizinhas.
Em entrevista por email ao Terra, a representante da ONG Oxfam para a crise no Mali Ilaria Allegrozzi disse que a situação alimentar é grave porque o país já vinha enfrentando as consequências da falta de chuva da região do Sahel, pediu acesso irrestrito às organizações humanitárias ao norte do país e detalhou algumas das ações realizadas pelo órgão junto às comunidades pobres do Mali.
Com as forças francesas e do Mali ganhando terreno, qual é a principal dificuldade que a população do norte do país vai enfrentar?
A situação humanitária é a maior preocupação. As operações militares em andamento devem gerar consequências humanitárias significativas. As informações são limitadas, mas entre 11 e 27 de janeiro há uma estimativa de que 25 mil civis tiveram de sair de suas casas, tanto para dentro quanto para fora do país. Acredita-se que mais pessoas estão indo em direção à fronteira com a Mauritânia. Há um grande risco de que, continuando as operações militares, haja um número significativo de deslocados e um aumento das necessidades relacionadas a comida, água, abrigo e serviços sanitários. Ao mesmo tempo, uma maior dificuldade de ação das organizações humanitárias junto à população. Também é essencial que as forças militares respeitem as leis internacionais de direitos humanos, fazendo o necessário para evitar danos à população civil.
As rotas de alimentos estão bloqueadas. Há planos para o envio de comida para o norte do país?
De maneira geral, a situação alimentar vem em crescente degradação desde o começo de 2012 em função da crise alimentar na região do Sahel e do conflito no norte do Mali. Os eventos recentes devem impactar ainda mais a questão da segurança alimentar. Nós não acreditamos que o estabelecimento de um corredor humanitário é a solução para assegurar o acesso humanitário ao norte do Mali. Corredores são, por definição, limitados geograficamente e por um período de tempo, e esta não é a melhor solução. A Oxfam quer acesso ilimitado ao norte e ao centro, não apenas para oferecer assistência, mas também para saber qual é a real situação para que as pessoas que precisam de ajuda tenham acesso a ela.
Oxfam está baseada em Bamako? Vocês estão em outras cidades?
A Oxfam tem três escritórios no Mali: o principal em Bamako, um em Kayes e outro em Gao. Além de estar presente também nos países vizinhos. A Oxfam tem oferecido assistência humanitária na região de Gao, assim como aos refugiados do Mali no Níger, Burkina Faso e na Mauritânia. Nós estamos ajudando as populações em suas necessidades de água, comida e acesso à saúde básica. Os programas da Oxfam chegam a 59.250 pessoas em Gao, e mais de 147 mil refugiados no Níger, Mauritânia e Burkina Faso.
Quais são as principais ações humanitárias junto às comunidades do Mali?
No oeste do Mali, Oxfam atua em Kayes, onde comunidades vêm sendo muito afetadas pelas colheitas prejudicadas pelas chuvas escassas e pela queda do envio da ajuda de familiares que trabalham em outros países. A Oxfam trabalha junto ao comerciantes e fornece dinheiro e vales para que as pessoas possam comprar nos mercados locais. Isso não só permite o acesso à comida, mas também ajuda a manter o comércio local aberto. Nós também desenvolvemos projetos para que as pessoas tenham acesso à água potável, assim como projetos comunitários para aumentar a confiança das pessoas, promover a estocagem de cereais e ajudar as mulheres a plantar vegetais.
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