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"Afegãs jovens estão apavoradas e não querem sair à rua"

Autora de livros sobre o Afeganistão, brasileira Adriana Carranca conta o que ouviu de afegãos desde que Talibã tomou o poder

20 ago 2021 06h40
| atualizado às 08h04
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Refugiadas afegãs no Irã
Refugiadas afegãs no Irã
Foto: Morteza Nikoubazl / Reuters

Quando todo o mundo olhava para o Afeganistão, no último domingo, com os talibãs consolidando a volta ao poder com a tomada da capital, Cabul, a jornalista e escritora Adriana Carranca, uma das maiores especialistas brasileiras na tumultuada história recente do país asiático, começou a trocar mensagens com diversas pessoas, sobretudo mulheres jovens, que conheceu em suas várias viagens para lá.

Carranca queria saber como elas estavam, mas também como eram as expectativas delas para o futuro. "Chorei quando conversei com uma das meninas, uma violoncelista considerada brilhante. Ela havia recebido um convite para estudar música numa universidade em Michigan, nos Estados Unidos, mas os talibãs chegaram primeiro. Ela não saiu a tempo de Cabul", conta Carranca à DW Brasil, referindo-se à musicista Meena Karimi.

Principalmente as jovens mulheres, segundo relata a jornalista, estão com muito receio de colocar os pés para fora de casa desde que o grupo fundamentalista islâmico voltou ao poder. "Tenho conversado com algumas pessoas em Cabul, e a maioria ainda está em casa, principalmente as meninas. Apavoradas, não querem sair às ruas."

E é justamente nessas novas gerações que os Estados Unidos, durante sua ocupação no Afeganistão, entre 2001 e agora, deveriam ter investido. "Se tivessem feito, poderiam agora entregar o país nas mãos dessas novas gerações que não querem o Talibã. Não fizeram e entregaram o país de mão beijada para os talibãs", afirma Carranca.

Ela conhece muito bem a realidade do país. Como repórter especializada na cobertura de conflitos internacionais, ela esteve quatro vezes no Afeganistão - e outras tantas em regiões fronteiriças, como o Vale do Suate, no Paquistão. Dessas viagens ela coleciona histórias: conviveu com afegãos de todos os tipos, entrevistou líderes talibãs, visitou hospitais e campos de refugiados.

Essas experiências foram transformadas em inúmeras reportagens. E livros, como O Afeganistão depois do Talibã e Malala, a menina que queria ir para a escola - um livro infantil que conta a história da ativista paquistanesa Malala Yousafzai, alvo de um atentado do Talibã por defender a educação para meninas.

A escritora se dedica agora à redação de seu novo livro, que deve ser lançado em 2022 pela editora Columbia Global Reports, nos Estados Unidos, sobre uma família que conheceu em 2011 no Afeganistão e acompanha desde então. Ela ressalta que seu viés é sempre de uma repórter com "um olhar feminino, um olhar especial sobre a condição das mulheres".

Como surgiu seu interesse pelo país?

Adriana Carranca: Na primeira vez que estive no Afeganistão, fui como repórter [do jornal O Estado de S. Paulo], logo após a eleição do presidente Barack Obama em 2008, prevendo que ali seria "a guerra do Obama". Os Estados Unidos já estavam lá havia sete anos e, no entanto, ainda não tinham encontrado Osama Bin Laden [executado em 2011], que havia sido abrigado pelos talibãs após o 11 de Setembro. Não sabíamos muito como Obama iria sair dessa guerra, porque as promessas de desenvolvimento, democracia, empoderamento feminino não haviam sido cumpridas pelos Estados Unidos e ele precisava dar uma resposta.

Depois dessa primeira viagem, eu passei a voltar porque no Afeganistão, quando você desembarca em Cabul, você tem a sensação de que viajou numa máquina do tempo e voltou 2 mil anos. É realmente um país muito tribal, que funciona sob um modelo tribal, com as coisas decididas por conselhos de anciãos e pessoas importantes de cada clã. Tem a questão das mulheres, do papel da mulher na sociedade. Eu vi alguns avanços em Cabul nas novas gerações, mas ainda havia muitas mulheres usando a burca, que para nós, ocidentais, era um sinal de opressão e retrocesso. Mas eu não tinha certeza se realmente era isso.

Voltei tantas vezes porque o Afeganistão é uma colcha de retalhos de etnias. E no início foi difícil entender essas dinâmicas da sociedade tribal dividida por linhas étnicas. É um povo que de certa forma conseguiu manter sua tradição, manter fora dali vários conquistadores. Era intrigante. Me intrigava muito. Voltei tantas vezes porque eu não consegui entender o Afeganistão e também o interesse internacional pelo Afeganistão. Toda vez que eu ia ao Afeganistão, na volta eu trazia comigo novas perguntas. Quanto mais eu conhecia, mais perguntas eu tinha. E eu queria também acompanhar o que acontecia na vida das pessoas. Eu costumo entrevistar pessoas por longo período de tempo para ver como a vida delas avança ou retrocede.

Nesta sua primeira viagem, em 2008, o que mais a surpreendeu?

Foi justamente essa sensação de voltar 2 mil anos no tempo. De haver, ali mesmo em Cabul, pessoas vivendo em tendas, um mercado de escambo onde se trocam mercadorias e não dinheiro, 80% da população sem energia elétrica, essa questão de eles serem muito tribais. Eu também imaginava encontrar maior oposição aos Estados Unidos, mas não havia. Principalmente em Cabul, as novas gerações viram nos estrangeiros os empregos: tradutores, motoristas, seguranças. Muitos jovens foram para Cabul. E eu via essas novas gerações agarrando todas as oportunidades que lhes eram dadas porque eram jovens que nasceram em outra época, cresceram com a revolução da internet, passaram a ter acesso ao mundo por meio dos telefones celulares, dos computadores.

Com a invasão americana em 2001, passaram a ter muito mais contato com o restante do mundo. Eles queriam transformar o país e acreditavam que os Estados Unidos, de fato, ajudariam a desenvolver o país a longo prazo, com desenvolvimento sustentável, reforço das instituições democráticas e investimentos nessas novas gerações. E acho que os Estados Unidos deveriam ter feito isso. Se tivessem feito, poderiam agora entregar o país nas mãos dessas novas gerações que não queriam o Talibã, não querem o Talibã. Mas não fizeram e entregaram o país de mão beijada para os talibãs.

E sobre o dia a dia das mulheres, houve alguma surpresa?

Na imprensa ocidental se falava muito das mulheres, da burca. Como se aquilo fosse o maior símbolo de opressão das mulheres. Falavam do absurdo dos talibãs obrigando as mulheres a se cobrir. Quando cheguei, sete anos após o fim da ocupação talibã [o grupo havia controlado o Afeganistão entre 1996 e 2001], a maioria das mulheres usava burca. Mesmo em Cabul, com essas novas gerações, elas se cobriam, ao menos com o hijab, o véu, usavam roupas discretas, mesmo que não fosse a burca. Já as mulheres que não fossem jovens, a maioria usava realmente a burca. Saindo de Cabul, então, praticamente todas as mulheres usavam burca.

Só mais tarde eu entendi que na verdade a burca não veio com o Talibã, não foi criada com o Talibã. É muito mais antiga, anterior também ao islã. É um item da tradição pachtum [etnia afegã]. O Talibã obrigou as mulheres a usarem, mas de fato elas já usavam antes, e muitas delas seguiram usando depois da ocupação americana, porque era algo que fazia parte da tradição. Elas se sentem nuas sem a burca, não querem atrair os olhares por conta de sua religião e por conta de sua tradição.

Lembro-me de certa vez entrevistar enfermeiras em uma clínica. O marido de uma delas, que também trabalhava ali, me puxou para o lado e me pediu para que eu tentasse convencer a mulher dele a não usar burca, porque ele queria que a mulher se modernizasse. É uma outra forma de olhar para a questão.

Como mulher, quais dificuldades você experimentou nessas viagens?

Sendo brasileira eu não estava acostumada a ter de me cobrir assim, usar véus. No fim, até comprei uma burca porque achava mais fácil colocá-la sobre minha roupa e pronto. E como jornalista era até positivo, porque eu conseguia me infiltrar melhor para observar a sociedade, sem chamar atenção. Entrevistei dois comandantes do Talibã, do alto escalão, em uma de minhas viagens. Um deles não olhava para mim porque achava desrespeitoso olhar para uma mulher. Ele só olhava para o tradutor.

Mas há também um benefício: o acesso à ala feminina das casas. Porque lá, principalmente nas zonas tribais, as casas são divididas em espaços para homens e para mulheres. Geralmente os homens têm uma antessala para receber convidados sem que estes vejam as mulheres da casa, porque eles consideram isso um desrespeito. É muito difícil um repórter homem conseguir entrevistar uma mulher afegã. Tive acesso às mulheres, visitei escolas de meninas, nas casas pude ir e ficar na cozinha com as mulheres. Isso acabou facilitando.

Em algum momento você se sentiu ameaçada?

O risco que enfrentei não foi por ser mulher, mas foi por estar mesmo nessas regiões. Em 2012, o Talibã fez uma investida, tentou tomar Cabul. E eu estava lá em uma base militar afegã fazendo uma entrevista com mulheres do primeiro batalhão feminino do exército local. Os talibãs entraram em Cabul e começaram um ataque. Ouvimos a primeira bomba, soou um alarme na base. Levaram-me para um lugar, depois para um bunker. A ofensiva durou 18 horas. Eles eram todos suicidas, lutando até morrer. Atacaram o Parlamento, a zona verde onde ficam as embaixadas, toda a área mais segura de Cabul.

A volta do Talibã ao poder do país representa um retrocesso na participação feminina na sociedade. Notícias internacionais já dão conta de que os professores se despediram das alunas, por exemplo, e imagens de mulheres nas ruas já estão sendo apagadas. Em suas viagens ao Afeganistão, você ouviu muitos relatos de mulheres sobre como era a época do domínio anterior talibã? Na vida prática, quais as principais queixas?

Representa retrocesso para as mulheres, provavelmente, sim. Se a gente tem como base o primeiro regime do Talibã, eles fecharam escolas de mulheres, impediram mulheres de estudar, impediram mulheres de trabalhar, a não ser em funções que não podiam ser exercidas por homens. As meninas não podiam sair de casa sem serem acompanhadas por um homem da família, responsável. Elas tinham de se cobrir.

Obviamente que as novas gerações, das áreas urbanas, se beneficiaram da ocupação americana. Para elas, é o fim de um sonho. Elas tinham ambições e sonhos além das fronteiras do Afeganistão, além da tradição pachtum. [No domingo] chorei quando conversei com uma das meninas, uma violoncelista considerada brilhante. Ela havia recebido um convite para estudar música numa universidade em Michigan, nos Estados Unidos, mas os talibãs chegaram primeiro. Ela não saiu a tempo de Cabul. Ela me disse que ela e a família estão sitiadas em casa. Têm comida para poucos dias, mas têm medo de sair às ruas. Não sabem quem são esses homens [do Talibã] e o que eles podem fazer. Para elas, é trágico.

[Em uma das minhas viagens] entrevistei um grupo de meninas boxeadoras que treinavam para os Jogos Olímpicos. Elas treinavam num estádio onde, na época do regime, eles executavam mulheres por adultério, por exemplo. Elas faziam questão de treinar ali, como uma forma de resistência. Isso também acabou. Mas a gente ainda não sabe, no entanto, quem são esses talibãs [de agora]. A nova liderança aprendeu a negociar com a comunidade internacional, passou a ter ambição de investimentos no país, a querer negociar. O poder agora pode ser um pouco mais inteligente e querer garantir dinheiro de organizações internacionais e investimentos no país. Como contrapartida, pode ser um regime mais moderado, ou nenhum país vai querer investir no Afeganistão.

De que maneira a história de Malala, que você conheceu e acabou transformando em um livro infantil de sucesso, pode inspirar outras meninas de hoje, neste novo cenário com o Talibã?

É uma pena que os Estados Unidos tenham subestimado as novas gerações. Há meninas muito parecidas com a Malala, com muito desejo, com ativismo. Meninas que se formaram, agarraram as oportunidades que foram dadas a elas, com unhas e dentes, tornaram-se as melhores em tudo o que fazem, justamente porque sabiam que a presença estrangeira ali não iria durar para sempre. A história de Malala dá esperança a essas meninas. Mas, ao mesmo tempo, é muito difícil para elas, vivendo ali - se os talibãs realmente se fecharem para a comunidade internacional e adotarem um regime como o anterior -, que elas consigam se reerguer e realmente fazer alguma coisa.

A Malala foi um caso um pouco diferente porque o pai dela era uma liderança no Vale do Suate e a apoiava muito. Ele até era muito criticado porque permitia que sua filha falasse, emitisse opinião. E felizmente ela sobreviveu e pode levar a questão das meninas daquela região e de outras regiões ao mundo, tornando essa pauta [da educação] importante. Ao mesmo tempo, muitas outras Malalas foram assassinadas. Acho que nesses 20 anos de ocupação americana, o mundo desenvolvido poderia ter apostado e investido mais nas novas gerações, nessas mulheres, para poder entregar nas mãos delas o país, e não deixar para as mãos do Talibã.

Um porta-voz do Talibã chegou a anunciar que o novo regime irá respeitar as mulheres e que, desta vez, elas terão acesso à educação. Acredita que isso realmente vá ocorrer?

É possível, sim, que façam isso, que tenham se modernizado até pela convivência com estrangeiros. E que tenham maior ambição do que tinha mulá Omar [que comandou o regime talibã anterior], de que o país seja integrado, faca parte do mundo globalizado, tenha relações com outros países. É possível, sim. E torcemos para que seja assim. Temos de aguardar. Tenho conversado com algumas pessoas em Cabul, e a maioria ainda está em casa, principalmente as meninas. Apavoradas, não querem sair às ruas.

Desde que o Talibã foi expulso do poder, as mulheres voltaram a ocupar as esferas do poder. Dados atuais mostram que chegaram a ocupar um quarto do Parlamento. Com a volta do Talibã, elas voltarão a ser relegadas dos cargos públicos? Em sua opinião, como essas mulheres políticas podem articular-se, utilizando da visibilidade inerente ao seu trabalho no Legislativo, para denunciar o regime e, principalmente, lutar pelos direitos das mulheres?

Eu entrevistei Fawzia Koofi, que é deputada, e Massouda [Jalal], que foi a primeira mulher a ser candidata a presidente no Afeganistão. De fato, são mulheres extremamente corajosas e que tomaram espaço durante a ocupação americana, agarraram qualquer espaço que lhes foi dado. Mas não sabemos [como vai ser agora], vai depender muito dessa nova liderança do Talibã querer ou não fazer parte do mundo globalizado. Aí sim, essas mulheres podem se articular para pressionar, para pedir a países que investiriam no Afeganistão para que pressionem o Talibã, condicionem os investimentos e as relações internacionais a avanços nesses sentidos. Difícil saber se vai funcionar, porque durante 20 anos de ocupação, os Estados Unidos também apoiaram milícias de outras etnias que não eram muito melhores do que o Talibã, se aliaram a parceiros tão tradicionais, conservadores, corruptos e violentos quanto os talibãs. Não dá para saber [como vai ficar], mas elas [as mulheres políticas] seriam as que mais perderiam porque, de fato, lutaram muito e fizeram suas vozes serem ouvidas.

Deutsche Welle A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas.
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