O que está em jogo na cúpula entre Trump e Putin no Alasca?
A existência da Ucrânia, um cessar-fogo temporário e o início de conversas para um acordo de paz duradouro: tudo pode estar na mesa de negociação, mas resultados são imprevisíveis
O ucraniano Volodmir Zelenski estará acompanhando a distância quando Donald Trump e Vladimir Putin sentarem à mesa nesta sexta-feira, 15, para decidir o futuro de seu país. O encontro histórico no Alasca, que é território americano, tem o potencial de selar o futuro existencial da Ucrânia, ou pode terminar em um enorme nada.
Embora esteja "decepcionado" com Putin nos últimos dias, Trump é pessoalmente próximo do russo e pode acabar saindo do encontro repetindo os interesses do Kremlin, como já aconteceu no passado. Mas o republicano tem seus próprios interesses em trazer algum tipo de solução para o maior conflito global desde a 2º Guerra, seja ele um prêmio Nobel da Paz ou seja uma redefinição da ordem mundial.
"É tudo e nada. O que é sempre o problema com Trump: você nunca sabe ao certo o que ele realmente fará ou deixará de fazer", avalia Stefan Wolff, cientista político alemão especialista em segurança internacional e solução de conflitos.
Horas antes da reunião, na quinta-feira, Trump se mostrou confiante de um acordo poderia sair do encontro, mas não deu detalhes dos termos que espera.
Um cessar-fogo na Ucrânia
As chances de sair um acordo de paz nesta sexta-feira são praticamente nulas. Não apenas pelas disputas territoriais inegociáveis para Rússia e Ucrânia, mas também pela ausência de conversas produtivas nesse tema até agora. Praticamente todas as conversações de paz entre os dois países só levaram a trocas de prisioneiros.
O desejo maior da Ucrânia é por um cessar-fogo temporário, para só então iniciar as conversas sobre paz. Já Moscou acha que a ordem é contrária, primeiro um acordo para que se tenha o cessar-fogo. Nisso, o interesse de Trump será essencial para definir o desfecho e o americano já ameaçou Moscou com "sanções severas" caso não aceite uma trégua.
"É possível que a gente termine com um cessar-fogo hoje e isso poderia realmente levar a um fim do conflito no futuro, mas é muito improvável que se consiga algo como um acordo de paz", afirma Wolff. "E mesmo se o que eles concordarem for um processo que possivelmente nos levará a um acordo de paz, acho muito difícil ver isso se materializando."
"A 'paz' que seria talvez aceitável nesse momento seria uma trégua, semelhante ao que acontece na guerra das Coreias", concorda Angelo Segrillo, professor no Departamento de História da USP especializado na história da Rússia e União Soviética. "Isso vai congelar o campo de batalha nas linhas atuais".
Há quem argumente que o congelamento das linhas de frente ainda seria um ganho para Putin, já que praticamente cederia a península da Crimeia, ocupada por Moscou desde 2014, e grande parte do Donbas, no leste. Mas, sob as circunstâncias atuais, qualquer acordo que paralise os bombardeios seria vantajoso para Kiev que vive um conflito que se arrasta há três anos. Até hoje, os cessar-fogo desta guerra foram todos unilaterais e nem sempre cumpridos.
"O objetivo principal é fazer com que os russos parem de nos bombardear", afirma Oleksandr Slivchuk, coordenador no Transatlantic Dialogue Center, um think tank ucraniano com sede em Kiev. "Na Ucrânia, analisamos dessa forma que o mais importante é convencer a Rússia a um cessar-fogo."
Mas os ucranianos são desconfiados de que a Rússia respeitaria os termos do acordo. "A Rússia vai continuar violando isso com provocações constantes, porque já temos essa experiência desde 2014", diz o cientista político ucraniano.
Sem concessões territoriais no momento
Antes do encontro de hoje, Zelenski se reuniu com aliados europeus e todos conversaram em conjunto com Trump para traçar as linhas vermelhas das conversas com Putin. Uma das principais dela é a não discussão sobre concessões territoriais. Nesta quinta, Trump concordou que qualquer divisão do território ucraniano só poderia ser feita em uma cúpula tríplice.
Atualmente a Rússia ocupa quase 19% do território ucraniano, incluindo a Crimeia. Para Moscou, não existe a opção de se retirar dos territórios onde detém total controle. Para a Ucrânia, abrir mão de qualquer pedaço de terra é abrir um precedente perigoso para o mundo todo.
"Ceder uma parte do território não resulta em ter paz e também não nos traz garantia, porque em troca não recebemos nem a adesão à Otan, que é a garantia mais importante que existe no mundo", observa Slivchuk, "Os ucranianos não aceitam ceder território também por isso, não apenas por emoção de ser território ucraniano, mas também porque, se falamos de maneira prudente, não faz sentido."
"Fica muito difícil qualquer acordo de paz onde você não garanta a sobrevivência futura da Ucrânia. Essa é uma questão que tem que ser discutida e não me parece que está na mesa nesse momento", concorda Carlos Gustavo Poggio, internacionalista e professor associado do Berea College, no Kentucky
No entanto, como argumenta Wolff, Trump é imprevisível. Ele pode combinar com os europeus que não vai tocar na questão territorial e sair da reunião loteando a Ucrânia. Isso já aconteceu antes. O republicano assinou em seu primeiro mandato uma "Declaração da Crimeia", na qual prometia manter a política de não reconhecimento "até que a integridade territorial da Ucrânia fosse restaurada". Mas em abril ele chegou a sugerir que a Crimeia deveria ser entregue para a Rússia.
Uma nova ordem mundial
Quem quiser ir mais longe pode interpretar o encontro de hoje como uma nova definição da ordem mundial vigente desde o fim da Guerra Fria. Desde que voltou ao poder, Trump vem tentando reafirmar a sua área de influência frente a uma China cada vez mais ousada. A própria invasão da Ucrânia pode ser explicada pela ânsia russa de resgatar sua influência no leste.
"Ainda tenho uma leve suspeita de que o que Trump realmente quer é uma espécie de arranjo ao estilo do século 19, onde a Rússia controla algo, os EUA controlam algo e a China controla outro algo, e todos basicamente respeitam as esferas de influência dos outros", supõe Stefan Wolff.
"Mas, para chegar lá, Trump precisa fazer duas coisas: ele precisa equilibrar as coisas com a Rússia e precisa garantir que a Rússia e a China não estejam muito próximas uma da outra e depois se voltando contra ele. Nesse sentido, o que está em jogo é muito uma questão do que substituirá a ordem internacional que tivemos pelos últimos 30 anos", completa.
Um futuro encontro Putin-Zeleski
O presidente ucraniano pediu diversas vezes para ter um encontro pessoalmente com Putin, algo que o russo nunca aceitou. Mesmo nas negociações de paz na Turquia, Moscou enviava funcionários de menor escalão para conversar com os ucranianos. Mas é possível que a reunião de hoje abra as portas para essa cúpula histórica.
"Estou confiante em um possível encontro no futuro entre Zelenski e Trump e até mesmo entre Zelenski e Putin, mas um encontro com Putin só pode acontecer se algo for fechado, um acordo que já seja aceitável tanto para nós quanto para a Rússia. Por enquanto, não vejo um acordo aceitável. É quase impossível", desabafa Slivchuk.
Putin questiona a autoridade de Zelenski desde que o ucraniano foi eleito em 2019. No início do ano, o russo defendeu novas eleições e disse que o mandato do atual presidente era ilegítimo. "Houve uma mudança de tom nos últimos tempos, ele passou a aceitar a possibilidade de encontrar o Zelenski, mas numa situação em que está tudo bem mais arranjado antes", observa Angelo Segrillo.
Sanções à Rússia
O encontro desta sexta só está acontecendo porque Trump decidiu subir o tom com o russo, ameaçando impor sanções secundárias. Isso tornaria qualquer país que faz comércio com Moscou passível de sanções também, o que tornaria as transações com os russos uma atividade altamente perigosa.
A Rússia já é o país mais sancionado do mundo hoje por causa de sua invasão na Ucrânia. O país não participa mais do sistema financeiro internacional, atrapalhando as transações comerciais, e os ativos de indivíduos e do Estado russo no exterior estão congelados.
Com um economia se arrastando, ainda que sobrevivendo às sanções primárias dos americanos e europeus; com um campo de batalha congelado; falta de soldados a ponto de precisar da ajuda da Coreia do Norte e número na casa do milhão de baixa russas na guerra, segundo estimativas, Vladimir Putin não podia se dar ao luxo de confrontar o americano.
"Nesse sentido, o ultimato de Trump realmente funcionou", aponta Wolff. "Isso não significa necessariamente que Putin apresentará algo aceitável hoje, aceitável tanto para Trump quanto para os ucranianos e seus parceiros europeus."
"Além disso, Trump também enfrenta muitas pressões internas, ele não pode simplesmente se jogar completamente a favor da Rússia", acrescenta Angelo Segrillo. "Então, fica esse jogo meio de gato e rato, não só entre Trump e Putin, mas entre Trump e todo o resto dos americanos que tradicionalmente são contra a Rússia".
"Acho que a Rússia certamente pedirá algo inaceitável, algo maximalista, para demonstrar que a Ucrânia não está disposta a ceder. Um acordo nesse sentido é impossível", afirma Oleksandr Slivchuk. "Uma pequena coisa à qual poderíamos ceder é o relaxamento das sanções contra a Rússia porque isso não afeta diretamente a nossa segurança."
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