Número de desaparecidos dispara no Nepal; famílias de estrangeiros se desesperam por informações
Oito dias depois das enchentes devastadoras que atingiram o Nepal e a China, a ONU destacou nesta quinta‑feira (3) as dificuldades para abastecer os dezenas de milhares de desabrigados. O balanço ainda provisório da catástrofe continuou a piorar: são 1.280 mortos, dos quais 1.259 em território nepalês e 21 no Tibete.
O número de desaparecidos após enchentes causadas pelo derretimento de uma geleira no Himalaia subiu para 5.624 no Nepal, incluindo cerca de 800 turistas e peregrinos estrangeiros. Diante do acesso bloqueado a vilarejos destruídos e do fim das esperanças de encontrar sobreviventes, famílias de diversas nacionalidades foram a Katmandu em busca de respostas. A polícia nepalesa já iniciou a coleta de amostras de DNA dos parentes para auxiliar na identificação dos corpos resgatados da catástrofe.
O número de desaparecidos disparou para 5.624, entre eles cerca de 800 estrangeiros, turistas, peregrinos ou trabalhadores. A alta é de mais de 1,1 mil pessoas a mais, em relação aos dados divulgados na véspera.
As famílias de centenas de turistas e peregrinos estrangeiros continuam sem notícias de seus parentes, uma semana após as enchentes no Himalaia. Muitas delas foram ao Nepal na esperança de obter informações sobre o destino de seus entes queridos.
Sanjeev Rai, um americano de 53 anos, aterrissou na sexta‑feira em Katmandu depois de saber do desaparecimento de sua esposa, Jiwan Jyoti, que havia partido para uma peregrinação no monte Kailash com a companhia Himalayan Glacier.
"No dia em que cheguei, eu disse: vamos encontrar um helicóptero, vou procurá‑la", contou ele à AFP em frente ao quartel‑general da polícia turística, onde foi buscar informações. Mas o vilarejo destruído de Timure, onde sua esposa estava no momento da catástrofe, é considerado perigoso e continua inacessível.
"Tenho um sentimento de desespero, já faz tantos dias", disse ele. Sua esposa, engenheira da Intel, havia dito que queria "se dar de presente, pelos seus 50 anos, um viagem espiritual e uma aventura indo ao monte Kailash", destacou.
O balanço da enchente gigantesca de 26 de agosto na fronteira entre o Nepal e a região chinesa do Tibete, provocada pelo derretimento de uma geleira, ainda é provisório, enquanto a esperança de encontrar sobreviventes praticamente acabou.
Segundo a polícia nepalesa, 294 estrangeiros foram resgatados, em grande maioria chineses e indianos, mas 800 ainda seguem desaparecidos.
Identificação
A maior parte desses estrangeiros eram peregrinos que haviam se preparado longamente para a caminhada espiritual no monte Kailash, sagrado para hindus e budistas.
Como a ascensão ao cume é proibida, os fiéis fazem o percurso ao redor da montanha durante três dias, em um trajeto de 52 quilômetros. Um grupo de 77 peregrinos estrangeiros conduzido pela fundação Isha, no qual estavam três franceses, além de outros europeus, norte‑americanos e australianos, foi levado pela catástrofe.
Voluntários da organização, cuja sede fica na Índia, auxiliam cerca de quinze parentes que foram a Katmandu em busca de respostas. Mas até agora "a situação de todos", incluindo três guias nepaleses, está "como desaparecidos", explicou um dos voluntários, Arun Mehta.
"Eles tinham terminado a peregrinação e realizavam os controles de imigração no posto‑fronteiriço chinês de Gyirong", prosseguiu ele.
"Vamos à polícia nepalesa todos os dias para obter informações sobre as pessoas resgatadas, voluntários examinam fotos de restos humanos", acrescentou o voluntário. Outros percorrem os hospitais.
A polícia começou na segunda‑feira a coletar amostras de DNA dos parentes dos desaparecidos para alimentar uma base de dados destinada à identificação dos corpos. Aqueles que não vieram ao Nepal poderão enviar seu perfil genético online.
"Já não espero sobreviventes", confia Sanjeev Rai, "espero que o DNA permita identificá‑la. Quero poder fazer meu luto".
Primeiro os hospitais
"Muita gente vem, indianos, chineses" e outras nacionalidades, em busca de informações, disse Prem Prasad Bhattarai, da agência de Turismo nepalesa, que montou um escritório de ajuda para estrangeiros.
Desde Iakutsk, no extremo oriente russo, o irmão do músico Kirill Tretiakov, desaparecido, informou à AFP que irá ao Nepal esta semana.
"Por enquanto, não temos nenhuma informação sobre Kirill", afirmou Dmitri Tretiakov. "Vamos começar as buscas pelos hospitais. Não importa quanto tempo isso levar, continuaremos procurando"
O jovem fazia parte de um grupo de várias dezenas de ucranianos e russos, muitos deles budistas, conduzidos pela agência Tashi Delek, segundo dados oficiais nepaleses.
O organizador da trilha Fishtail, por sua vez, está sem notícias de um grupo de 20 peregrinos, a maioria malaios, acompanhados de seus guias e motoristas.
Os colaboradores da agência em Katmandu estão em choque. "Ninguém conseguiu escapar, foi tão repentino", relatou à AFP Nimsang Gurung, funcionário comercial da agência.
"O setor do turismo vai sofrer com essa catástrofe", antecipa Sunil Sharma, responsável pelas relações públicas da Agência de Turismo, observando a importância do turismo para a economia do Nepal.
Com AFP
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