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Vitrine de brasileiros, maior festival de quadrinhos do mundo é cancelado na França com denúncias e boicote

Desde 1974, o Festival de Quadrinhos de Angoulême atrai criadores do mundo inteiro — inclusive brasileiros. Marcello Quintanilha já venceu duas vezes, com Tungstênio e Escuta, formosa Márcia, e em 2025 o potiguar Luckas Iohanathan teve a HQ Como Pedra selecionada. Agora, com o cancelamento da edição 2026, o maior evento da nona arte ameaça uma tradição em que talentos do Brasil sempre brilharam.

1 dez 2025 - 16h54
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Maior evento de quadrinhos do mundo, que atrai cerca de 200 mil visitantes a cada edição, o Festival Internacional de Quadrinhos de Angoulême (FIBD) foi oficialmente cancelado pela primeira vez em sua história, anunciou nesta segunda-feira (1°) a sociedade organizadora 9e Art+, que atribuiu a responsabilidade à gestão pública do evento. A decisão, inédita, ocorre após semanas de incerteza sobre a 53ª edição, programada entre 29 de janeiro e 1º de fevereiro.

"Escuta, Formosa Márcia”, do brasileiro Marcello Quintanilha, obra premiada no Festival de Angoulême, na França.
"Escuta, Formosa Márcia”, do brasileiro Marcello Quintanilha, obra premiada no Festival de Angoulême, na França.
Foto: © DR / RFI

O cancelamento vem na sequência de um boicote de autores, incluindo a vencedora do Grande Prêmio de Quadrinhos de 2025, Anouk Ricard, que criticaram a opacidade e a comercialização crescente do festival. Revelações do jornal L'Humanité apontaram ainda que 9e Art+ havia demitido uma funcionária que havia registrado denúncia de estupro ocorrida em 2024, gerando forte reação na comunidade.

Edição "comprometida"

Grandes editoras de quadrinhos já consideravam a edição de 2026 "comprometida" e alegaram que a confiança com os organizadores estava rompida, antes que os financiadores públicos, responsáveis por metade do orçamento do evento de cerca de € 6 milhões, pedissem a anulação completa em 20 de novembro.

Segundo os advogados da 9e Art+, a decisão não foi voluntária da organização, mas sim uma ação unilateral dos financiadores públicos, que teriam se imiscuído na gestão privada do festival com a intenção de afastar a 9e Art+, responsável pelo evento desde 2007. A entidade destacou ainda a preocupação com os impactos humanos e econômicos do cancelamento e a incerteza sobre a edição de 2027, cuja organização ainda lhe cabe legalmente.

A acusação foi rejeitada pelas autoridades da região da Nova-Aquitaine, uma das principais financiadoras, que afirmou se tratar de uma "manobra". Frédéric Vilcocq, conselheiro de cultura da região, afirmou que a crise foi causada pelo próprio organizador, devido ao boicote de quase 100% dos autores e da maioria das editoras.

O prefeito de Angoulême, Xavier Bonnefont, e o Ministério da Cultura não comentaram o caso. Para o setor de turismo e hotelaria local, o cancelamento é considerado catastrófico, e há apelos para que o precedente não comprometa o futuro do festival.

Brasileiros que se lançaram a partir de Angoulême

Marcello Quintanilha é hoje o nome brasileiro mais premiado e reconhecido em Angoulême: além do Fauve d'Or (prêmio de melhor álbum) atribuído a Escuta, formosa Márcia em 2022, ele já havia sido premiado na categoria polar por Tungstênio em 2016, consolidando uma presença contínua no festival e abrindo espaço para a visibilidade da nova cena brasileira na Europa. 

Outra conquista significativa foi a de João Pinheiro e Sirlene Barbosa, cuja HQ Carolina — biografia em quadrinhos de Carolina Maria de Jesus — premiada pelo júri ecumênico em Angoulême em 2019, reconhecimento que levou a obra a circular internacionalmente e a fortalecer a presença das narrativas brasileiras no circuito europeu. 

Mais recentemente, nomes de gerações diferentes reforçam essa tradição: o potiguar Luckas Iohanathan teve Como Pedra selecionada na programação oficial do festival em 2025, sinal de que novas vozes brasileiras seguem sendo convidadas ao evento; e o franco-brasileiro Matthias Lehmann, autor de Chumbo — uma grande saga ambientada na ditadura militar brasileira — também entrou na seleção oficial de Angoulême (edição 2024/2025), mostrando que a ligação cultural entre Brasil e cena franco-belga continua produtiva e reconhecida pela curadoria do FIBD. 

RFI A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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