Abstenção elevada nas eleições municipais na França reflete 'desinteresse na política'
A eleição municipal francesa do domingo (15) confirmou uma tendência que vem se aprofundando ao longo da última década: a erosão contínua da participação eleitoral no país. Embora o nível de abstenção tenha sido levemente menor do que o registrado em 2020 — ano excepcional, marcado pela pandemia de Covid-19 e por um recorde histórico de 55,3% de abstenção —, os números de 2026 ainda representam um sinal de alerta.
Maria Paula Carvalho, da RFI
Em toda a França, incluindo os territórios ultramarinos, os franceses foram às urnas em 34.875 cidades. Quase 49 milhões de eleitores foram convocados ao primeiro turno das eleições municipais no domingo. Com 42,84% de abstenção após a apuração de 99% das urnas, a participação alcançou cerca de 57%, um patamar considerado muito baixo para uma eleição local tradicionalmente associada à proximidade entre eleitores e representantes.
Nas eleições municipais, eles votam em listas de partidos ou coligações para eleger os membros do Conselho Municipal, que podem ser comparados aos vereadores no Brasil, que elegem o prefeito entre si, geralmente o "cabeça de lista".
Mais do que uma fotografia pontual, o índice de abstenção de 2026 reflete um padrão de afastamento cada vez mais consolidado entre a população e a vida política institucional.
Esse fenômeno não atinge todos os grupos sociais da mesma forma: segundo levantamentos sociológicos, a abstenção é significativamente mais alta entre jovens, pessoas de baixa renda, desempregados e operários, e consideravelmente mais baixa entre idosos e camadas de renda mais alta.
Entre todos os grupos, o mais propenso a não comparecer às urnas é o dos adultos jovens de 25 a 34 anos, com 60% de abstenção, revelando um descolamento particularmente acentuado entre esse segmento e o sistema político.
Esse afastamento é objeto de estudo do especialista Philippe Moreau Chevrolet, professor de política na Sciences-Po, para quem o "grande perdedor deste pleito é a participação". Em entrevista à RFI, ele observa que taxas de abstenção superiores a 40% são raras na história recente francesa e só encontram paralelo no traumático ano de 2020.
Para Moreau Chevrolet, o fenômeno deve ser compreendido em múltiplas camadas. Primeiro, porque os números incluem todas as cidades, inclusive aquelas com apenas uma lista concorrendo. O professor lembra que há cada vez menos candidatos dispostos a assumir responsabilidades municipais, o que leva a disputas eleitorais inexistentes em muitos municípios. Assim, ele sugere separar a análise para entender se, nos locais onde houve concorrência real, o desinteresse dos eleitores se manteve no mesmo nível.
Política longe do cotidiano
No entanto, a questão vai além das circunstâncias eleitorais. Segundo pesquisas realizadas por Sciences-Po e Ipof, muitos franceses passaram a considerar a política como algo distante de suas experiências cotidianas.
Esse estranhamento profundo, segundo o professor, se intensificou nos últimos anos. A crise da Covid‑19 teria desempenhado um papel importante nesse afastamento: durante os longos períodos de confinamento, "as pessoas voltaram-se para dentro de si e reorganizaram suas prioridades afetivas, psicológicas e sociais", diz Moreau Chevrolet. Para o analista, essa reconfiguração gerou um "buraco" entre a vida cotidiana e o discurso político, acentuando uma sensação de desconexão com as narrativas institucionais.
Custo político da pandemia
Moreau Chevrolet observa ainda que as mensagens políticas durante a pandemia foram, em grande parte, angustiantes, e que a sociedade ainda não compreendeu totalmente o "custo político" desse período.
Além disso, a abstenção elevada assume também um caráter de mensagem política. A um ano das eleições presidenciais, o volume de não-votantes pode ser interpretado como um sinal de exasperação enviado por uma parte considerável da população aos partidos e às lideranças nacionais. A abstenção, nesse sentido, não expressa apenas desinteresse, mas também descontentamento, descrença e "cansaço democrático".
O segundo turno, no próximo domingo (22), refletirá a dinâmica de alianças possíveis, um ano antes da eleição presidencial, que deverá eleger o sucessor de Emmanuel Macron.
A maioria dos eleitores vota com base em suas preocupações locais, em uma eleição menos polarizada do que a nacional, mesmo que algumas prioridades — o combate ao narcotráfico, o acesso à saúde ou à moradia — sejam as mesmas.