França oficializa auxílio de R$ 300 para trabalhadores pobres afetados pela alta dos combustíveis
Pressionado pela disparada dos combustíveis em meio à crise no Oriente Médio, o governo francês lançou um auxílio de € 50 (cerca de R$ 292, no câmbio atual) para três milhões de trabalhadores de baixa renda que dependem do carro para trajetos longos. A medida, publicada neste sábado (2) no Diário Oficial, integra um pacote emergencial que também amplia subsídios a agricultores e pescadores, setores que denunciam risco de falência diante da alta no preço do diesel.
A nova disparada dos preços dos combustíveis na Europa, impulsionada pela instabilidade no Oriente Médio e pelas tensões no mercado global de energia, levou o governo francês a criar um auxílio específico para trabalhadores de baixa renda que percorrem longas distâncias diariamente. As regras do benefício foram publicadas neste sábado no Diário Oficial, formalizando uma promessa feita em 22 de abril.
O governo estima que três milhões de franceses se enquadram na categoria de "trabalhadores modestos que dependem do carro", grupo mais vulnerável ao impacto da alta dos combustíveis.
O valor da ajuda é fixo: € 50 por pessoa. Segundo o Ministério da Economia, a compensação é destinada a "limitar os efeitos do aumento dos custos do combustível para os lares que utilizam um veículo para fins profissionais".
Na prática, o governo tenta aliviar o orçamento de quem não tem alternativa ao carro — sobretudo moradores de áreas rurais ou periféricas, onde o transporte público é insuficiente ou inexistente.
Critérios de renda e distância definem quem terá acesso
O decreto estabelece dois critérios centrais para determinar quem poderá solicitar o benefício.
O primeiro é renda: o rendimento fiscal de referência por pessoa deve ser igual ou inferior a € 16.880 anuais.
O segundo é a distância percorrida: o trabalhador deve realizar mais de 15 km por trajeto diário entre casa e trabalho, ou mais de 8.000 km por ano no exercício da atividade profissional.
O governo informou que o sistema para solicitar o auxílio deve estar disponível até o fim de maio no site da administração fiscal francesa, mas a data exata ainda depende de uma portaria.
Pacote inclui apoio ampliado a pescadores, agricultores e transportadoras
A indenização de combustível integra um conjunto mais amplo de medidas emergenciais anunciadas pelo primeiro-ministro francês, Sébastien Lecornu, neste sábado.
Além dos trabalhadores de baixa renda, o governo prometeu reforçar o apoio a pescadores, agricultores, transportadoras, taxistas e motoristas de aplicativo.
As ajudas já existentes foram prorrogadas e ampliadas, alcançando também áreas como construção civil e transporte individual remunerado.
Segundo o ministro das Contas Públicas, David Amiel, o custo total dessas medidas para o mês de maio chega a € 180 milhões.
Diesel agrícola recebe isenção maior
Um segundo decreto publicado neste sábado confirma a ajuda destinada aos usuários de diesel agrícola — o GNR, combustível com tributação diferenciada para atividades rurais.
Para abril, o governo francês estabeleceu uma compensação de 3,86 centavos por litro, equivalente ao imposto incidente.
Essa isenção representa € 14 milhões em renúncia fiscal. O orçamento de 2026 já previa € 1,3 bilhão em alívio tributário sobre o GNR, mas a escalada recente dos preços tornou necessária uma intervenção adicional.
No fim de abril, o governo anunciou que a ajuda ao diesel agrícola deve subir de 3,86 para 15 centavos por litro, enquanto o auxílio ao combustível dos pescadores deve passar de 30 para 35 centavos.
Produtores denunciam risco de falência
Para abril, o teto da ajuda é de € 50 mil por propriedade agrícola, e os produtores podem solicitar o benefício durante dois meses, enviando notas fiscais e uma declaração formal por meio de um formulário no portal público francês (portail.chorus-pro.gouv.fr).
A tensão no campo e no setor pesqueiro, que já vinha crescendo desde o início do ano, voltou às ruas neste sábado.
Algumas dezenas de agricultores, pescadores e padeiros se reuniram diante do Domo dos Inválidos, em Paris, convocados pelo coletivo Réveil des Terroirs.
Os agricultores reivindicam que o diesel agrícola seja vendido a € 1 por litro, alegando risco de falência generalizada.
Pescadores afirmam não conseguir mais trabalhar
"É a única forma de evitar a quebra das nossas empresas", afirmou Christian Convers, ex-secretário-geral da Coordination Rurale, um dos principais sindicatos agrícolas da França.
Ele estava acompanhado de alguns militantes identificados pelos gorros amarelos do movimento, mas nenhuma grande organização profissional aderiu ao protesto.
Entre os pescadores, o clima é igualmente crítico. O preço do diesel marítimo, segundo David Le Quintrec, da UFPA, dobrou, passando de € 0,60 para mais de € 1,20 por litro.
Com esse nível de custo, afirma, já não é rentável sair ao mar; além disso, as ajudas prometidas para abril ainda não foram pagas, e "depois de maio, não temos nenhuma projeção".
Governo tenta conter desgaste social
A crise atual expõe um dilema recorrente na política francesa: como proteger trabalhadores e setores essenciais diante de choques internacionais que o governo não controla — neste caso, a guerra no Oriente Médio e seus efeitos sobre o petróleo.
Ao mesmo tempo, o Executivo tenta evitar que o descontentamento social se transforme em novos movimentos de protesto de grande escala. O auxílio de € 50 é uma resposta rápida, mas limitada.
Ele não resolve a dependência estrutural do automóvel em vastas regiões do país, nem a vulnerabilidade de setores como agricultura e pesca às flutuações do mercado global de energia.
Com AFP
Comentários
As opiniões expressas nos comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião do Terra.