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Universidades europeias 'reconhecem dívida histórica' com povos originários do Brasil

Em meio ao debate internacional sobre memória histórica, reparação e diversidade, representantes de povos originários do Brasil estiveram na França para participar de programas de intercâmbio em pesquisa científica com a Universidade Paris 8. Para falar sobre essa parceria, a RFI conversou com Jones Dari Goettert, reitor da Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD), no Mato Grosso do Sul, que esteve na capital francesa para acompanhar esse intercâmbio intelectual entre os dois países.

16 jun 2026 - 13h43
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Maria Paula Carvalho, da RFI

A iniciativa franco-brasileira faz parte de uma cooperação acadêmica que busca ampliar a presença indígena no ensino superior e promover o diálogo entre saberes ancestrais e o conhecimento ocidental.

Uma parceria entre a embaixada da França no Brasil e a Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) tem permitido que indígenas participem não apenas da graduação, mas também de programas de doutorado e pós-doutorado — uma novidade da última década, segundo o reitor. Criada em 2005, com um programa ousado de inclusão, a UFGD criou internamente também uma faculdade específica para populações indígenas, do campo e quilombolas.

"É fundamental garantir aos povos indígenas o reconhecimento de sua trajetória, de sua luta e de sua resistência, após séculos de políticas de não inclusão", afirma Jones Goettert.

Há 20 anos, a UFGD tinha cerca de 20 indígenas formados na graduação. Hoje, esse número chega a quase 500, abrangendo os povos Guarani, Kaiowá e Terena. Anualmente, cerca de 10 a 15 doutorandos indígenas iniciam suas pesquisas na instituição, sendo que aproximadamente 50 já são doutores.

Entre os temas estudados estão, principalmente, História, Geografia, Sociologia, Antropologia, Educação e Letras. "As pesquisas tendem a se concentrar na compreensão e análise das realidades no interior das aldeias, mas também nas relações às vezes tensas e complicadas, assim como de reciprocidade, entre a aldeia e a não aldeia", continua o reitor. "Um olhar ancestral que vem contribuindo enormemente para o diálogo com os saberes ocidentais", completa.

'Virada antropológica'

Os indígenas, que antes eram objetos de estudo, agora são os autores de suas próprias teses. "Essa me parece ser a grande virada antropológica e cultural dessa participação dos indígenas nas universidades", destaca o reitor. "Agora, não é mais possível falar da realidade indígena no Brasil sem a participação e a autoria, sem o protagonismo de intelectuais indígenas, e o papel dos mestrados e doutorados é fundamental para isso", observa.

De acordo com o acadêmico, a universidade ganha com essa troca, ao motivar colegas indígenas e não indígenas a pensarem uma mobilidade internacional que, historicamente, esteve muito ligada à classe média-alta. Já nos territórios indígenas, mais estudo significa mais desenvolvimento. "Devemos citar também o progresso sociológico e cultural das comunidades, na medida em que há um reconhecimento desses alunos como lideranças indígenas e territoriais, possibilitando um diálogo ainda mais profundo com a sociedade", completa.

Indígenas do Mato Grosso do Sul participam de programa de intercâmbio intelectual na Universidade Paris 8, em Paris.
Indígenas do Mato Grosso do Sul participam de programa de intercâmbio intelectual na Universidade Paris 8, em Paris.
Foto: RFI

O futuro é ancestral

O professor destaca o interesse de acadêmicos da França pela presença de doutorandos indígenas. "Percebemos que as universidades europeias reconhecem essa dívida que não apenas o Brasil, mas o mundo inteiro tem com os povos originários ou ancestrais", disse em entrevista à RFI. "A vinda à França faz parte de uma reparação histórica fundamental", acrescenta.

"Há uma necessidade também de a Europa Ocidental começar a escutar e aceitar um diálogo profundo com outros modos de habitar o mundo, outras formas de viver os territórios, naquilo que chamamos de mundo comum", aponta Goettert. "Às vezes são experiências muito diferentes, algumas até antagônicas e contraditórias ao modelo hegemônico. Nesse sentido, os povos indígenas têm muito a contribuir ao apresentarem suas cosmologias, suas cosmografias e apontarem outros caminhos para questões emblemáticas da atualidade, como a questão ambiental e o aquecimento global", avalia.

Em outras palavras, enquanto o mundo moderno precisa desenvolver novos modos de produção e consumo, os povos indígenas podem apontar outras práticas e outros saberes nessa relação com o mundo. Ao fazerem o caminho inverso ao dos colonizadores e virem para o Velho Continente, os indígenas buscam também apoio para as suas causas. "O retorno desses indígenas possibilita um novo olhar e uma nova posição — não mais de subalternidade, mas, de fato, de protagonismo", conclui.

RFI A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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