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Relatório aponta décadas de violência extrema em escola religiosa na França

"Crimes em massa", "sadismo" e "tortura": entre 700 e 1.500 alunos podem ter sido vítimas de "violências de gravidade excepcional" na instituição religiosa Notre-Dame-de-Bétharram, na França, segundo relatório de uma ONG especializada divulgado neste sábado (20). O caso ganhou grande repercussão no país após ser revelado que os filhos do ex-primeiro-ministro François Bayrou estudaram na escola.

20 jun 2026 - 10h01
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Essa "ordem de grandeza", baseada em projeções estatísticas que os próprios autores pedem que sejam interpretadas com cautela, aponta para décadas de "violências sistêmicas" e "institucionais" entre 1950 e 2000, segundo o Instituto Louis Joinet (IFDJ), responsável pela investigação realizada ao longo de mais de um ano a pedido da própria congregação.

A identificação de 37 autores, entre religiosos e leigos, afasta a hipótese de uma simples "soma de atos individuais" e sugere a existência de uma dinâmica organizada de "crimes em massa", segundo a ONG, especializada em justiça transicional em contextos de conflito.

Falhas sistêmicas de controle

"Dentro destes muros ocorreram violências de gravidade excepcional, que podem ser assimiladas a sadismo e tortura", afirmou Jean-Pierre Massias, presidente da comissão de investigação composta por magistrados, juristas e psicólogos, em declaração feita dentro da própria escola, localizada nas proximidades de Lourdes.

A hipótese de uma suposta tolerância histórica à violência na instituição, por muito tempo valorizada por sua disciplina rigorosa, também deve ser descartada, segundo os investigadores. Eles entrevistaram cerca de 140 ex-alunos e membros da congregação, que administrava estabelecimentos escolares na França e na África.

O superior geral dos irmãos de Bétharram, Gustavo Eduardo Agin, pediu neste sábado "perdão a todas as vítimas", à Igreja e à sociedade, em nome da congregação, e condenou os fatos "com a maior firmeza".

Segundo o relatório, práticas como jatos de água, abusos sexuais, agressões físicas e humilhações, incluindo crianças expostas nuas em ambientes gelados, faziam parte de um "sistema institucional de violência" sustentado ao longo de décadas. Esse sistema teria se mantido por meio de mecanismos de silêncio baseados no medo, na vergonha e na dominação.

Os investigadores afirmam ainda que alertas "dispersos" e "fragmentados" de vítimas e familiares foram frequentemente desconsiderados diante da reputação da instituição, reforçada pelo prestígio religioso e pela autoridade atribuída ao estabelecimento. O IFDJ aponta, nesse contexto, uma "falha geral dos mecanismos de controle", tanto da Igreja quanto do Estado.

O ex-primeiro-ministro François Bayrou, cujo filhos estudaram em Bétharram, foi acusado por setores políticos de ter conhecimento de denúncias sem agir, acusação que ele nega.

Segundo os investigadores, a congregação "não é a única responsável", havendo também uma "falha por omissão" das autoridades públicas.

Reconstrução e reparação

Para a reconstrução das vítimas, cujas experiências são descritas como tendo "efeito de bomba de fragmentação" ao longo da vida, a comissão recomenda a criação de um "tribunal cidadão", já que a maioria dos crimes denunciados nas cerca de 250 queixas está prescrita devido ao tempo decorrido. Até o momento, apenas dois homens foram formalmente indiciados.

O IFDJ também defende a criação de um mecanismo de reparação financeira, em complemento aos € 1,4 milhão já pagos pela congregação a 48 vítimas de abusos sexuais, para incluir também pessoas que sofreram violência física ou psicológica.

No entanto, vítimas e representantes criticaram a condução do processo. Alain Esquerre, porta-voz de um coletivo de ex-alunos, que deixou a comissão no ano passado em desacordo com sua composição, afirmou que as vítimas foram "relegadas a um papel secundário" e que não se deixariam convencer por "organizações paralelas".

Em vídeo enviado à imprensa, ele declarou que os responsáveis "não conseguirão calar as vítimas" e que "os crimes não ficarão impunes".

Revelado em 2023 a partir de depoimentos publicados por ex-alunos nas redes sociais, o caso Bétharram é descrito no relatório como mais do que uma "anomalia", evidenciando falhas estruturais na proteção de crianças. O documento conclui com um apelo para que a sociedade "escute" as crianças quando suas denúncias "perturbam a ordem estabelecida".

O investigador Jean-Pierre Rosenczveig afirmou que, após a liberação dos relatos de violência sexual infantil nos anos 1980, esperava-se um aumento gradual das denúncias: "foi um rio; será um tsunami se todas as vítimas falarem".

Segundo a Comissão Independente sobre Incesto e Violência Sexual contra Crianças (Ciivise), cerca de 160 mil crianças são vítimas de violência sexual todos os anos na França.

Com AFP

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