Script = https://s1.trrsf.com/update-1778180706/fe/zaz-ui-t360/_js/transition.min.js
PUBLICIDADE

As Principais Notícias da Europa

Publicidade

Moderação trabalhista impulsiona extrema direita e regionalismos na Grã-Bretanha

As eleições locais britânicas revelaram o colapso da estratégia moderada dos trabalhistas, o avanço da extrema direita de Nigel Farage e o fortalecimento de forças regionalistas que colocam em xeque a própria unidade do Reino Unido.

12 mai 2026 - 09h24
Compartilhar
Exibir comentários

Thomás Zicman de Barros, analista político

Funcionários eleitorais contam votos nas eleições locais, em Londres, Grã-Bretanha, em 8 de maio de 2026.
Funcionários eleitorais contam votos nas eleições locais, em Londres, Grã-Bretanha, em 8 de maio de 2026.
Foto: REUTERS - Chris J Ratcliffe / RFI

Menos de dois anos separam o momento de consagração de Keir Starmer, ainda primeiro-ministro trabalhista da Grã-Bretanha, daquele que pode marcar sua danação política. As eleições locais realizadas na última quinta-feira na Inglaterra, Escócia e País de Gales poderiam passar despercebidas fora desta ilha do norte, não fosse a dimensão da derrota trabalhista.

Já há vozes pedindo a renúncia do premiê. Se não mudar de rumo, Starmer pode entrar para a história como o homem que abriu as portas do poder para a extrema direita britânica, ao mesmo tempo em que fortaleceu forças regionalistas que ameaçam a própria unidade do Reino Unido.

Há menos de dois anos, os trabalhistas comemoravam uma vitória histórica. Após catorze anos na oposição, conquistaram uma supermaioria em Westminster, o parlamento britânico, e voltaram ao poder sob a liderança de Starmer. Na quinta-feira passada, porém, o partido perdeu mais de 1.400 conselheiros locais nas eleições regionais inglesas e sofreu graves reveses na Escócia e em Gales, em uma das piores derrotas desde a sua fundação.

Starmer chegou à liderança do Partido Trabalhista após derrubar Jeremy Corbyn do comando da legenda. Corbyn, representante da ala esquerda do partido, era um líder que mobilizava multidões, mas acusado pelos adversários internos de ser radical demais e, por isso, incapaz de reconduzir os trabalhistas ao poder.

Starmer representa o oposto. Muito mais moderado, entusiasmou menos eleitores, mas venceu graças ao desgaste dos conservadores e à fragmentação da direita britânica, já dividida pelo avanço do partido de extrema direita Reform UK, de Nigel Farage. Como não há segundo turno no sistema britânico, os trabalhistas colheram os frutos da cizânia direitista.

Uma vez no poder, porém, a extrema moderação de Starmer cobrou seu preço. Apesar da ampla maioria parlamentar, o governo manteve a austeridade herdada dos conservadores. Para tentar conter o crescimento da extrema direita, Starmer chegou a evocar discursos racistas contra imigrantes. A frustração não demorou a aparecer, e os trabalhistas passaram a despencar nas pesquisas.

A grande beneficiária desse processo não foi a direita conservadora tradicional, ela própria mergulhada em crises internas, mas sim a extrema direita do Reform UK. O partido de Farage conquistou 1.450 cadeiras locais na Inglaterra, além de tornar-se a segunda força na Escócia e sobretudo em Gales. Hoje, lidera com folga boa parte das pesquisas nacionais.

Farage já havia transformado a política britânica dez anos atrás ao impor a agenda do Brexit, mesmo quando tinha apenas um único deputado em Westminster. Agora, pela primeira vez, sua extrema direita parece próxima de açambarcar a política institucional do país.

Ao mesmo tempo, parte do eleitorado trabalhista parece buscar à esquerda a radicalidade perdida. O Partido Verde, frequentemente apresentado como uma esquerda mais radical e combativa, teve bons resultados e segue consolidando presença em regiões urbanas e universitárias. Ainda assim, talvez o aspecto mais impressionante das eleições locais da semana passada tenha sido o avanço das forças regionalistas e nacionalistas fora da Inglaterra.

Na Escócia, o independentista Partido Nacional Escocês, de centro-esquerda, continua sendo a principal força política local e permanece à frente do governo regional. A surpresa maior veio do País de Gales, antigo bastião trabalhista onde o nacionalismo galês historicamente teve menos força. Nas eleições da semana passada, o partido independentista Plaid Cymru, também de linha progressista, alcançou seu melhor desempenho eleitoral em um século, chegando às portas do poder.

Considerando que a Irlanda do Norte já é governada pelo Sinn Féin, defensor da reunificação da ilha sob a bandeira da República da Irlanda, o quadro que emerge é inédito: enquanto a Inglaterra parece cada vez mais dominada pelo nacionalismo inglês e pela extrema direita, Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte aprofundam movimentos centrífugos. A desunião parece se tornar o traço dominante da política britânica.

Os trabalhistas seguem com sua supermaioria em Westminster, o que lhes garante estabilidade para governar até 2029. A permanência de Starmer na liderança do partido e do governo, porém, já é menos evidente. Sem reatar com a radicalidade perdida, os trabalhistas correm o risco de assistir a um duplo desaparecimento: o seu, no horizonte político britânico, e o do próprio país que ainda governam.

RFI A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
Compartilhar

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.

Publicidade

Conheça nossos produtos

Seu Terra