Livro de Leneide Duarte-Plon sobre general que exportou a tortura ao Cone Sul é publicado na França
Dez anos depois de sua publicação no Brasil, o livro "A tortura como arma de guerra - da Argélia ao Brasil", da jornalista e escritora brasileira Leneide Duarte‑Plon, acaba de ganhar edição em francês pela editora L'Harmattan. Lançada em 2016, a obra já havia sido traduzida para o árabe e publicada na Argélia no ano passado. Com base em documentos, entrevistas e investigação histórica, o livro demonstra que a tortura não foi um desvio, mas uma verdadeira doutrina de Estado, aplicada pela França durante a Guerra da Argélia (1954‑62) e posteriormente exportada para as ditaduras da América do Sul.
Leneide Duarte‑Plon viveu em Paris durante 24 anos, período em que trabalhou como jornalista e colaborou com diversos jornais e revistas brasileiros. Foi nesse contexto que escreveu, entre outros livros, "Um homem torturado - nos passos de Frei Tito de Alencar", publicado no Brasil em 2014, em coautoria com Clarisse Meireles, e "A tortura como arma de guerra", ambos dedicados à análise da tortura como instrumento de repressão estatal. A autora retornou ao Brasil no ano passado.
Em "A tortura como arma de guerra", Leneide Duarte‑Plon reúne, entre outras entrevistas, aquelas realizadas com o general francês Paul Aussaresses, figura central desse sistema repressivo. Então coronel, ele foi chefe da repressão francesa na Argélia e um dos principais teóricos e executores da tortura, das execuções sumárias e dos desaparecimentos forçados. Defensor da ocultação dos corpos após interrogatórios e assassinatos, Aussaresses reconheceu à autora o papel pioneiro da França na institucionalização dessas práticas e confirmou, entre outros pontos, a participação do governo brasileiro no golpe que derrubou o presidente chileno Salvador Allende.
Em entrevista à RFI, Leneide fala sobre essa circulação da violência, seus encontros com o general Aussaresses e a atualidade do tema no Brasil de hoje.
RFI - No seu livro, você demonstra que a tortura não foi um desvio, mas uma doutrina de Estado, aplicada primeiro na Indochina, depois na Guerra da Argélia, e mais tarde exportada para a América do Sul. Como essa transferência de métodos se deu concretamente?
Leneide Duarte-Plon - Foi um pacote completo. Tudo se baseia nos trabalhos do general francês Roger Trinquier, autor de "La Guerre moderne". Na Indochina, os franceses viram que enfrentavam uma guerra totalmente diferente: não era uma guerra convencional, com homens armados e um exército, mas uma guerra conduzida por guerrilheiros sem uniforme, disseminados na população civil, treinados na teoria da guerra revolucionária de Mao Tsé‑Tung.
A partir disso, os franceses teorizaram a guerra contra‑revolucionária, ou guerra antissubversiva, que depois foi aplicada na Argélia. Essa doutrina incluía a tortura, as execuções sumárias de prisioneiros, o desaparecimento de corpos e o interrogatório sob tortura, métodos que foram aperfeiçoados na Argélia e depois exportados.
RFI - No Brasil, após o golpe de 1964, essa doutrina foi apropriada em nome da luta anticomunista. Na prática, isso significou treinar as Forças Armadas para combater a própria população civil. Como essa lógica do "inimigo interno" se estruturou?
O inimigo deixou de ser um invasor estrangeiro e passou a ser o "subversivo". Um general que cito no livro define claramente quem era esse inimigo interno: padres progressistas, professores universitários, estudantes, militantes políticos e guerrilheiros urbanos. Mesmo pessoas que não usavam armas, como padres que acolhiam perseguidos políticos ou ajudavam feridos, passaram a ser tratadas como inimigas.
Quando entrevistei o general Paul Aussaresses, ele foi direto: o que houve no Brasil foi uma guerra civil, brasileiros combatendo e reprimindo brasileiros. Essa definição era uma novidade para mim, porque eu nunca tinha ouvido ninguém dizer ou escrever que, na realidade, o que houve nas ditaduras do Chile, da Argentina e do Brasil foi, no fundo, uma guerra civil.
RFI - Você foi a única jornalista brasileira a entrevistar longamente Paul Aussaresses, um dos principais teóricos e executores dessa doutrina, já no fim da vida. Como surgiu essa oportunidade e qual foi o peso desse testemunho para o livro?A primeira entrevista longa com ele foi publicada em 2008, na Folha de S.Paulo. Naquele momento, perguntei se estava disposto a continuar a dar entrevistas para um livro sobre a ditadura brasileira, a Guerra da Argélia e a influência da escola francesa na América do Sul. Ele aceitou.
Fui várias vezes à Alsácia para entrevistá‑lo. Ele assinou uma autorização para transformar aquelas entrevistas em livro e nunca pediu para reler ou controlar nada do que eu escreveria. O testemunho dele foi central para compreender como a tortura se tornou uma política de Estado institucionalizada.
RFI - E ele falava sem arrependimento. Pelo contrário, defendia o que fez.
Exatamente. Ele assumia tudo, inclusive a tortura, e dizia que tudo foi feito pela França. Mesmo reconhecendo que todo aquele massacre foi inútil, porque a Argélia se tornou independente, não demonstrava nenhum arrependimento. Ele queria deixar registrada a versão dele dos fatos.
RFI - Seu livro saiu no Brasil em 2016, foi traduzido e publicado na Argélia antes de chegar à França. O que explica essa demora francesa?
Em um primeiro momento, apresentei o livro a dois ou três editores que me disseram que o público francês não tinha interesse em reabrir a ferida da Guerra da Argélia.
Mas a França avançou muito nesse debate. Em 2018, o presidente Emmanuel Macron reconheceu, em entrevista a um jornalista argelino, que a colonização foi um crime contra a humanidade. Reconheceu também que a tortura, a morte e o desaparecimento do professor de matemática Maurice Audin, de 24 anos, na Argélia, foram crimes de Estado. Em setembro de 2018, Macron pediu perdão à viúva de Audin. Foi um ato de grande coragem política, uma evolução formidável na maneira como a França passou a olhar para o seu passado colonial. Macron teve a coragem que François Hollande não teve, nem Nicolas Sarkozy, nem mesmo François Mitterrand [ex‑presidentes franceses]. Os historiadores cobram isso: que a França encare o seu passado colonial com coragem e faça uma revisão histórica, reconhecendo que esse passado é uma vergonha, uma mancha na história francesa.
RFI - Seu livro é mais um tijolo na construção dessa consciência e também permite aos franceses saber o que aconteceu durante a ditadura brasileira.
O que mais me surpreendeu foi que os franceses mantiveram na capa do livro o mesmo título e subtítulo da edição brasileira, o que é bastante forte: "Como os militares franceses exportaram os esquadrões da morte e o terrorismo de Estado". É um ato de coragem da editora L'Harmattan.
RFI - No Brasil de hoje, em ano eleitoral, o papel político dos militares voltou ao centro do debate. Que riscos essas histórias não resolvidas ainda representam para a democracia?
A anistia perdoou crimes e criminosos, e isso nunca foi revisto. Isso faz com que os militares queiram sempre voltar a comandar ou a dar as cartas na história do Brasil, o que é inaceitável. Tivemos uma tentativa de golpe em 2022 e já se fala novamente em anistia.
Ao mesmo tempo, há uma evolução na sociedade brasileira. Cresce a compreensão de que a interferência militar no poder civil é inaceitável.
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