Madri: moradores relembram com "respeito" atentados de 2004
Brasileira que vive em Madri relembra o dia em que a Espanha sofreu o pior atentado terrorista de sua história, em 11 de março de 2004; governo mantém alerta máximo contra terrorismo
“Era um dia absolutamente normal. Eu estava trabalhando, bem no começo do dia, quando ouvi o noticiário no rádio e me assustei. A manchete do rádio estava, também, em outros meios de comunicação: televisão, jornais, internet... Havia especulação de todos os lados para saber quem eram os autores daquele horror; aliás, houve uma grande confusão em relação a isso e, a
princípio, ninguém podia dar uma versão clara e concreta dos fatos. Na Espanha, ataques suicidas eram cometidos, até 11 de março de 2004, pelo grupo [separatista basco] ETA – mas aquilo escapava completamente do tipo de violência cometida pelos bascos. O povo não acreditava na ideia de que o ETA era responsável. Mas o governo se aferrou a esta teoria. Era um dia normal que se transformou em um dia de tristeza e desespero, além da surpresa terrível dos ataques com tantas vítimas”. O depoimento da administradora brasileira que vive em Madri há 17 anos, Marília Santos, acontece no aniversário de 10 anos do ataque terrorista de 11 de março de 2004. A série de explosões de bombas no centro e no
subúrbio de Madri matou 191 e feriu 1900 pessoas.
Marília, que ainda mora na capital espanhola, diz que, apesar de o governo se manter em estado de alerta máximo em relação ao terrorismo islâmico, não se sente ameaçada. Marília Santos conta que não percebe “ressentimentos” dos madrilenos em relação ao atentado, apenas “uma recordação respeitosa”. “Acho que a maioria dos madrilenos não se sente ameaçada atualmente. Para mim, a pior ameaça em Madri é da classe de políticos que governa a cidade”, afirma Santos.
A bancária Elisa, que não quis ter sobrenome identificado, é de Madri e diz que relembra os atentados de 11 de março todos os anos. “Estava no ônibus, indo para meu trabalho, quando uma amiga me ligou e contou o que estava acontecendo. É impossível não pensar nas vítimas, principalmente quando passo em frente à estação Atocha”, conta. A bancária também diz que sentiu medo por muito tempo, mas que, atualmente, não se sente ameaçada pelo terrorismo islâmico.
As homenagens às vítimas de 11 de março de 2004 começaram nesta segunda-feira na Ópera em Madri, com a condecoração de 365 vítimas em cerimônia solene. Nesta terça-feira, uma missa foi reuniu quase mil pessoas, incluindo vítimas e funcionários do serviço de emergência que trabalharam no dia dos atentados, na Catedral de Almudena, em Madrid, presidida pela família real, e outras homenagens foram organizadas por associações de vítimas.
"Hoje se completam 10 anos do maior atentado terrorista da história da Europa", afirmou Angeles Pedraza, presidente da Associação de Vítimas do Terrorismo, que recordou as "191 vidas perdidas para a barbárie" durante uma cerimônia no Parque do Retiro.
"Os relógios de todos os que sofreram continuam parando a cada manhã, com o mesmo medo, com a mesma sensação de angústia e pânico", completou a mulher, que perdeu a filha Miryam, de 25 anos.
10 anos depois: o atentado e suas consequências
Às 7h40 da manhã, na hora do rush de Madri, do dia 11 de março de 2004, dez bombas explodiram, de forma coordenada, em quatro trens lotados que se dirigiam para a estação ferroviária de Atocha. Os atentados mataram 191 pessoas e feriram quase duas mil, tornando-se os mais sangrentos na Espanha.
Outras explosões aconteceram na estação de El Pozo del Tío Raimundo e a em Santa Eugenia, dois bairros operários da periferia da cidade.
Dez anos depois, Madri teve sua segurança ampliada, ainda se colocando em alerta máximo contra o terrorismo. Segundo declarações do ministro do Interior durante cerimônia nesta segunda-feira, o governo teme as ações dos "lobos solitários", jovens islâmicos recrutados via internet. Uma década depois, 472 jihadistas já foram presos na Espanha, enquanto as operações policiais se multiplicaram para desmantelar células islâmicas.
A política espanhola também recebeu modificações após os atentados. “Não podemos esquecer de que faltavam só dois dias para eleições gerais. As pessoas saíram às ruas no dia seguinte [aos atentados] numa grande manifestação. Houve uma reviravolta enorme na intenção do voto do povo, que culpou o então presidente, [José Maria] Aznar, por ter nos envolvido na guerra do Iraque. As pessoas consideraram os atentados como consequência da presença de tropas espanholas no país islâmico. Aznar perdeu as eleições, mesmo tendo sido considerado preferido por muito tempo”, lembra Santos.
A comoção foi imensa. Mais de 11 milhões de pessoas, 25% da população, saíram às ruas, na época, para protestar contra o terrorismo.
A insistência do governo conservador da época, de José Maria Aznar, em culpar o grupo terrorista ETA logo após os ataques estourarem, pode ter dado a vitória nas eleições parlamentares ao opositor, o socialista José Luis Rodríguez Zapatero.
Na noite dos atentados, o grupo terrorista islâmico Al-Qaeda assumiu a responsabilidade, sob a morte de quase duas centenas de pessoas.
Após assumir o governo, o socialista Zapatero ordenou a retirada das tropas espanholas do Iraque, atitude totalmente contrária ao seu antecessor, um dos principais apoiadores da operação militar conduzida pelos Estados Unidos.
Três semanas depois dos ataques, em 3 de abril de 2004, sete pessoas consideradas como os principais responsáveis cometeram suicídio coletivo com explosivos em um apartamento em Leganés, nos arredores de Madri, quando foram cercados pela polícia. Os explosivos utilizados no suicídio dos terroristas eram do mesmo tipo usado nos atentados, o que deu mais pistas sobre a responsabilidade do Al-Qaeda.
Em 2007, três anos depois, um processo resultou na condenação de 21 pessoas, incluindo dois marroquinos, condenados a quase 43 mil anos de prisão e um espanhol condenado a mais de 34 mil anos.