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Livro relata horrores sofridos por alemães após 2ª Guerra

8 mar 2009 - 14h38
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Lúcia Jardim

Direto de Paris

Jovens, idosas, casadas, doentes. Raras são as alemãs que conseguiram chegar ao final da Segunda Guerra Mundial sem ter de suportar aquele que, para a mente feminina, era um temor maior até mesmo do que bombas que destruíram a Alemanha: os estupros.

Agredidas repetidas vezes por membros do exército russo, a violência por que passaram as alemãs demorou longos anos para sair do tabu. Na Alemanha, o assunto era alvo de ridicularização, as mulheres tendo sofrido o desprezo dos próprios maridos quando estes retornaram, fracassados, do front de batalha.

Era melhor não se falar sobre, como se o silêncio tivesse o poder de apagar da memória as tantas noites em que as alemãs, sobrevivendo acuadas em porões sem água, luz ou comida, sabiam que era apenas uma questão de minutos até os grupos de russos entrarem porta adentro, sem pedir licença - em todos os sentidos.

Não foi à toa que o diário de uma dessas vítimas vivas da guerra demorou tanto para sair de três cadernos repletos de relatos íntimos e ir parar nas páginas de um livro, denunciando os abusos. A obra Uma mulher em Berlim, fruto destas confissões registradas na ponta do lápis de uma berlinense que preferiu manter o anonimato, foi publicada pela primeira vez em 1954 ¿ nos Estados Unidos, em inglês, e não na sua língua original.

O livro também foi difundido na Itália, na Dinamarca, na Suécia, na Holanda, na Espanha e até no Japão. Foram necessários mais cinco anos até que uma editora suíça germanófona se interessasse em publicar os relatos em alemão, e o livro provocou imediato escândalo.

Na sociedade alemã conservadora dos anos 1950 e tendo as feridas da guerra ainda recentes, a autora, de 34 anos, foi acusada de prostituição.Somente em 2003, dois anos após a sua morte, é que a identidade de Marta Hillers foi enfim revelada por um colega de profissão. A mulher era, na realidade, uma jornalista que falava francês e, ironicamente, russo.

A leitura das primeiras páginas da obra já permite rapidamente perceber o quanto a autora domina as palavras, ora com sarcasmo, ora com uma profunda tristeza. Tudo começa em 20 de abril de 1945, a precisos 18 dias do final do conflito. Naqueles dias, a expectativa era que os russos dominassem a capital alemã a qualquer momento. Entre a população civil, ninguém sabia o que estava por vir quando a sequência de bombardeios enfim terminasse.

"Eu luto contra a angústia da morte. São sempre os mesmos sintomas. Primeiro, o suor que brilha a testa, espasmos na coluna vertebral que é como tortura, cãibras na nuca, e depois a garganta que seca, os batimentos dessincronizados do coração", descreve.

O "dia da catástrofe", para Hillers, chega enfim uma semana depois, dia 27 de abril. Logo naquela sexta-feira, a autora é estuprada por três soldados ao mesmo tempo, assim como as outras mulheres que se escondiam com ela em um porão. Algumas tinham maridos ¿ que se mantinham calados e fingiam ignorar o que acontecia, conta a jornalista.

"Eu os escuto diversas vezes falando a expressão Ukas Stalina, o decreto stalinista, que parece precisar que 'este tipo de coisa' não poderia acontecer. Mas, é claro, isso acontece mesmo assim, como me diz um oficial, dando de ombros.¿

A cada dia que passa ¿ ou a cada noite ¿ as mulheres de Berlim têm cada vez mais medo de qualquer barulho, já pensam na estratégia para tentar dissipar os agressores, poucas vezes com sucesso. "Três dias se passaram, cheios até a borda de coisas loucas, de visões, de angústias, de emoções a tal ponto que eu nem sei por onde começar a escrever. Nós estamos no fundo do buraco, bem no fundo. Cada minuto de vida se paga tão caro", escreve. "Eles (os russos) são tão mais amáveis com seus cavalos em comparação a nós, eles lhes falam com uma voz doce e calorosa, um tom muito mais humano.¿

A escritora descreve detalhes como cheiros, expressões faciais e temperamentos dos agressores, tornando a leitura das cenas, reais, angustiantes. "O homem que me empurra é velho, os pêlos curtos e tortos da sua barba são grisalhos, e ele exala álcool e cavalo. Ele fecha cuidadosamente a porta atrás dele e, no escuro, parece não ver onde está a sua presa. A grossura com a qual ele a empurra na cama é assustadora. Fechar os olhos, serrar os dentes. Nenhum som deve sair da minha boca.¿

Algumas das vítimas, como Hillers, aos poucos vão se dando conta de que a melhor estratégia é se deixar "comprometer" com algum militar de mais alta patente, um tenente, um major. Este acabou sendo o escudo destas mulheres até que a situação voltasse ao normal.

Historiadores apontam que 100 mil estupros teriam sido cometidos na capital entre abril e setembro daquele ano. No total, 2 milhões de alemãs foram vítimas de agressões sexuais cometidas por russos.

O diário, de 387 páginas, se encerra em 22 de junho, quando o noivo da autora, Gerd, retorna da guerra e termina com qualquer ilusão de retomada da "vida em paz", como se as mulheres de Berlim não mais tivessem esse direito depois de tudo o que foram obrigadas a suportar. O companheiro, ao tomar consciência de como Hillers e as demais haviam vivido aquelas últimas semanas, despeja: "Vocês viraram tão impudicas como cadelas, deste jeito como vocês estão nesta casa. É assustador ter de voltar a ficar com vocês".

Em 2003, uma nova edição do livro fora publicada no país, depois do fracasso ocorrido em 1959. Mas, desta vez, a obra se tornou um best seller e abriu o caminho para a discussão do problema. No ano passado, a questão dos estupros massivos cometidos pelos russos em 1945 foi pela primeira vez abordada no cinema. O filme Anonyma, eine Frau in Berlin, dirigido por Max Färberböck , é baseado no livro e foi levado às telas alemãs em outubro.

Fonte: Especial para Terra
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