Festival de Avignon chega aos 80 anos com Wagner Moura, Nobel coreana e perguntas sobre o futuro
A cidade de Avignon, no sul da França, volta a se transformar neste sábado (4) no epicentro mundial das artes cênicas. Sob a direção de Tiago Rodrigues, o maior festival de teatro do planeta traz em 2026 a Nobel sul-coreana Han Kang e amplia o espaço da dança contemporânea, apresentando uma programação com forte presença brasileira, marcada pela estreia de Wagner Moura no festival. A volta da premiada diretora carioca Christiane Jatahy também pontua esta edição, que consagra, da mesma forma, a trilogia "Cadela Força", da gaúcha Carolina Bianchi, além de um projeto inédito que reúne o talento da coreógrafa Lia Rodrigues e jovens artistas do mundo inteiro.
Márcia Bechara, da RFI em Paris
Há aniversários que convidam à celebração. Outros exigem balanços. O Festival de Avignon decidiu seguir um terceiro caminho ao completar 80 anos. Em vez de construir uma edição voltada para a própria história, o maior encontro internacional das artes cênicas escolheu olhar para frente.
Quem chega à cidade encontra essa intenção já no cartaz oficial. Sobre o fundo amarelo, um enorme ponto de interrogação sintetiza a proposta concebida por Tiago Rodrigues, diretor do festival desde 2023 e primeiro estrangeiro a ocupar o cargo desde a fundação do evento por Jean Vilar, em 1947. Segundo Rodrigues, o objetivo não era produzir uma edição voltada para a nostalgia ou para a celebração do passado, mas usar a marca dos 80 anos para interrogar o futuro das artes cênicas e do próprio festival.
"O questionamento foi uma forma bastante livre de nós darmos um tema a este festival", afirma Rodrigues. "Queria estar muito concentrado também no presente e no futuro, e perguntar, agora, o que é que vamos fazer nos próximos 80 anos de festival?"
A ideia atravessa toda a programação apresentada ao público. Em vez de organizar a edição em torno de uma tese política ou estética única, Avignon reúne espetáculos que tratam de memória histórica, violência, transmissão cultural, crise climática, transformação das sociedades e circulação global das culturas.
"Queremos fazer perguntas juntos, mas fazer perguntas através da arte", diz Rodrigues. "Num mundo onde estamos cheios de más respostas, poucas respostas, mas más na maioria dos casos, respostas violentas, respostas simplistas, respostas pouco informadas, queremos colocar as boas perguntas."
O diretor vê o festival como um espaço de elaboração coletiva em uma época marcada pela polarização do debate público. "Perguntas às vezes complexas, perguntas também com prazer, perguntas com dúvida, perguntas que permitam o debate em vez de respostas que criam a violência", afirma.
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Festa cultural convive com apreensões sobre o setor
A edição de 2026 ocorre em um contexto particularmente delicado para as artes cênicas francesas.
Nos últimos meses, profissionais do setor vêm alertando para os efeitos de cortes de orçamento promovidos por diferentes níveis do poder público, além da redução de mecanismos de financiamento à criação artística. Uma recente controvérsia envolvendo a retirada de cartaz da peça "Passeport", do diretor Alexis Michalik, por uma prefeitura administrada pela extrema direita francesa, também reabriu o debate sobre liberdade de programação e circulação de obras.
A dimensão política dessa proposta se articula também a uma reflexão sobre o acesso à cultura. Tiago Rodrigues afirma que "o acesso democrático às artes não é um exercício populista, uma flor que se põe na lapela nos dias de festa. É um trabalho quotidiano que deve permitir o acesso fácil à criação exigente, criação de grande qualidade, feita em liberdade e à qual todas e todos devem ter acesso". E conclui: "se fosse fácil, não era um serviço público, é um serviço público, a cultura, porque não é fácil de fazer. É preciso tempo, é preciso investimento e é preciso sonhar".
A preocupação aparece também nos bastidores do festival, especialmente entre as companhias independentes que integram o OFF, a gigantesca mostra paralela que transforma Avignon em um mercado global das artes cênicas.
Mesmo diante das dificuldades, a edição mantém proporções impressionantes. O Festival IN reúne 47 espetáculos, com cerca de 300 apresentações e 30 criações inéditas. Ao todo, mais de 136 mil ingressos foram colocados à venda. O OFF, que completa 60 anos, reúne cerca de 1.700 produções e continua sendo uma das maiores vitrines internacionais para companhias independentes de todo o planeta.
Wagner Moura retorna aos palcos em estreia histórica
Entre os acontecimentos mais aguardados da programação está a estreia de Wagner Moura no Festival de Avignon. O ator baiano chega ao principal encontro das artes cênicas do mundo num dos momentos mais destacados de sua carreira internacional, impulsionado pelo reconhecimento recente obtido no cinema.
A relevância do convite, no entanto, não se resume à projeção do artista. Depois de 16 anos dedicados principalmente ao audiovisual, Moura retorna ao teatro, linguagem em que iniciou sua trajetória profissional em Salvador. O reencontro acontece em "Um Julgamento - Depois de O Inimigo do Povo", criação assinada por Christiane Jatahy, Wagner Moura e Lucas Paraizo.
Jatahy descreve o projeto como "um desdobramento de [o texto original de Henrik Ibsen] O Inimigo do Povo, uma possibilidade de continuidade dessa peça", como se o personagem Thomas Stockmann "fosse à cena, fosse ao teatro, pedir a possibilidade de ter a sua defesa e de ter a sua reparação, e essa decisão vai caber ao público". Nesse movimento, a obra transforma o espectador em instância de julgamento, deslocando o eixo tradicional da representação teatral.
Para Tiago Rodrigues, há algo particularmente emocionante nesse movimento. Segundo ele, "a volta de Moura aos palcos representa uma volta à essência do trabalho de ator, dimensão que ajuda a explicar a expectativa criada em torno da montagem".
Protagonismo de encenadoras brasileiras
A peça marca também marca a volta da premiada diretora Christiane Jatahy ao festival. Poucos artistas brasileiros estabeleceram uma relação tão profunda com a cena europeia contemporânea quanto a carioca. Premiada com o Leão de Ouro da Bienal de Veneza em 2022, a diretora construiu uma trajetória marcada pelo cruzamento entre teatro e cinema e tornou-se presença recorrente em alguns dos principais festivais internacionais.
Seu retorno a Avignon ocorre num momento em que a influência de sua obra ultrapassa amplamente o circuito francófono. Ao comentar o retorno da diretora carioca ao festival, Rodrigues sublinhou a relação de longa data entre a artista e Avignon, bem como a força do novo projeto que ela apresenta ao lado de Wagner Moura. Segundo ele, "Christiane Jatahy é já uma artista muito amada pelo público do festival, muito conhecida em França, uma encenadora que também é muito conhecida do público lusófono, seja no Brasil, seja em Portugal, e uma artista que tem marcado as cenas europeias nos últimos anos com as suas adaptações do repertório".
A presença brasileira se estende ainda com a gaúcha Carolina Bianchi, premiada com o Leão de Prata na Bienal de Veneza de 2025, que volta ao festival após o impacto provocado em 2023 por "A Noiva e o Boa Noite Cinderela". Agora, ela apresenta "Uma Luz Cordial", encerrando a trilogia "Cadela Força", um dos projetos mais discutidos da cena europeia recente. A programação inclui ainda uma maratona de dez horas na prestigiosa cena da Ópera de Avignon, reunindo os três capítulos da obra.
"O retorno a Avignon é, de fato, emocionante, sobretudo por encerrar a trilogia", afirma Bianchi. "Essa apresentação celebra o encerramento da trilogia, mas também propõe uma nova desorganização", disse a encenadora à RFI.
Já a consagrada coreógrafa brasileira Lia Rodrigues ocupa outro espaço estratégico da edição. À frente do projeto internacional "Transmission Impossible", a coreógrafa coordena um grupo de 55 jovens artistas de diferentes nacionalidades, incluindo estudantes da Escola Livre de Dança da Maré, no Rio de Janeiro.
Coreia do Sul: soft power para além do K-pop
Depois do inglês, do espanhol e do árabe, o coreano torna-se a língua convidada da edição de 2026. A escolha se insere em uma política criada por Rodrigues para ampliar o mapa cultural de Avignon. A iniciativa procura apresentar ao público europeu tradições artísticas menos conhecidas fora de seus países de origem.
"Vimos emergir uma forma de soft power através da K-pop, das séries de televisão e de outros fenômenos culturais, mas as artes cênicas sul-coreanas permanecem muito pouco conhecidas da cena europeia, da cena francesa e do público do festival", observou o diretor ao apresentar a programação.
A presença mais prestigiosa será a da escritora Han Kang, vencedora do Nobel de Literatura de 2024, que permanecerá em Avignon entre 12 e 18 de julho. Sua obra tornou-se um dos eixos intelectuais da edição.
O romance "Impossíveis Adeuses" inspira duas montagens da programação oficial. A primeira é "Oiseau", leitura-performance dirigida por Julie Deliquet com Isabelle Huppert e Hyeyoung Lee na famosa Cour d'Honneur do Palácio dos Papas, a cena principal do festival. A segunda é "Che dolore terribile è l'amore", da dramaturga italiana Daria Deflorian. Ambas partem do mesmo episódio histórico: o massacre ocorrido na ilha de Jeju entre 1948 e 1949, quando milhares de civis foram mortos pelas forças sul-coreanas.
A memória de Jeju reaparece também em "Island Story", do encenador Kyung-Sung Lee, construído a partir de entrevistas com descendentes das vítimas e pesquisas arqueológicas realizadas na ilha. "Pergunto-me se o teatro pode ainda funcionar como uma forma de ritual ligando pessoas cuja história está distante", explica o diretor sul-coreano. A questão da transmissão histórica atravessa grande parte da presença coreana no festival.
Dança contemporânea ganha espaço estratégico
A edição de 2026 também confirma uma transformação observada há anos em Avignon: o avanço da dança contemporânea e das formas híbridas dentro de um festival historicamente associado ao teatro. O movimento aparece com força justamente na programação coreana.
A coreógrafa Sung Im Her apresenta "1 Degree Celsius", espetáculo dedicado ao aquecimento global. Já Inbo Lee revisita o Yeonhee, tradição cênica coreana que mistura dança, percussão, música e elementos circenses, reconstruindo-a para o século 21.
Outra presença importante é a da coreógrafa francesa Madeleine Fournier, uma das referências da nova geração da dança contemporânea, convidada com "Growing Piece". A programação também inclui o coletivo circense XY e diversas obras construídas na fronteira entre teatro, movimento, música e performance. O resultado é uma edição em que as categorias tradicionais parecem menos importantes do que a circulação entre linguagens.
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