Entenda por que vagões exclusivos para mulheres, criados para evitar assédio, dividem opiniões na França
Diante das agressões no transporte público, vagões exclusivos para mulheres seriam a solução? A medida, já adotada em alguns países, entre eles o Brasil, a Índia e o Japão, voltou à tona recentemente na França, após um caso de agressão e o lançamento de uma petição. O tema é um dos destaques neste 25 de novembro, Dia Internacional para a Eliminação da Violência contra as Mulheres.
Leila e Carolina são colegas de empresa que se deslocam diariamente para o trabalho utilizando o transporte público. "Sinceramente, não me sinto insegura na minha linha de trem. Diria que depende da linha em geral", diz Leila.
"Como mulheres, sempre nos sentimos inseguras nos trens, seja porque eles estão vazios e só tem uma pessoa em quem não confiamos, seja porque estão lotados e é mais fácil alguém nos tocar sem saber quem é", observa Carolina.
Segundo dados da Assembleia Nacional, a violência sexual nesses espaços aumentou 86% em 10 anos na região de Paris, chegando a 3.374 vítimas em 2024.
O ataque sofrido pela brasileira Jhordana, vítima de uma tentativa de estupro no transporte público parisiense recentemente chamou atenção da opinião pública no país. A jovem, de 26 anos, foi alvo de socos, mordidas e sexualmente agredida dentro do RER C, uma das linhas férreas que ligam a capital francesa às periferias, no dia 15 de outubro.
« Il m'a étranglée pour me faire taire » : le récit glaçant d'une femme victime d'une tentative de viol dans le RER C, par un homme actuellement en fuite https://t.co/a3E8fUYCWq pic.twitter.com/n3uhaD8odM
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De acordo com um estudo do Observatório Nacional da Violência contra a Mulher, publicado em março deste ano, mais da metade (56%) das mulheres entrevistadas afirmaram não se sentir seguras em espaços públicos dentro da rede ferroviária da Île-de-France, onde fica Paris, e 80% admitiram viver em constante estado de alerta.
A própria Leila já vivenciou isso: "Uma vez, havia um rapaz sentado à minha frente fingindo amarrar os cadarços. Mas eu estava de shorts, e ele se aproveitou da situação para me apalpar. Em outras ocasiões, homens se aproveitaram de lugares lotados para se encostarem em mim e colocarem as mãos nos meus seios e nádegas", relata.
Carolina, por sua vez, presenciou isso em primeira mão: "Já vi homens seguindo mulheres quando elas saem do metrô. Talvez eles já tenham olhado para elas, as assustado, e enquanto elas fogem, os homens as seguem com o olhar".
Ambas concordam com a proposta de criação de vagões de trem exclusivos para mulheres, como já existe, por exemplo, no Brasil.
"Sim, concordo, mas não sei se as pessoas na França gostariam disso", diz Leila. "Queremos nos sentir à vontade nos mesmos ambientes que os homens, mas, ao mesmo tempo, com o que está acontecendo, vemos que não é possível e precisamos de soluções temporárias. Mas acho que o principal é tentar educar os homens", acrescenta Carolina.
Na França, 32 mil pessoas já assinaram uma petição online lançada no dia 24 de outubro pela implementação dessa medida, enquanto as autoridades do metrô dizem estar buscando outras maneiras de evitar que esses ataques se repitam.
A eficácia de medidas desse tipo ainda precisa ser avaliada. Entre as justificativas dos que são contrários à adoção de vagões exclusivos para as mulheres, há quem acredite que a separação cria mais exclusão delas na sociedade, enquanto outros prezam pela igualdade entre os cidadãos.
Experiência brasileira
Desde abril de 2006, o metrô do Rio de Janeiro implementou a determinação estabelecida por lei estadual, destinando vagões de passageiros específicos às mulheres para evitar o assédio sexual.
Em trens com seis vagões, um deles é identificado com a cor rosa como exclusivo para mulheres, sendo essa restrição aplicada de segunda a sexta-feira, durante os horários de pico, entre 6h e 9h e entre 17h e 20h.
A polícia do metrô atua para impedir que homens embarquem no vagão reservado, e a plataforma exibe uma sinalização no piso indicando o ponto de embarque para os vagões exclusivos para mulheres.
Em abril do ano passado, a prefeitura do Rio de Janeiro ampliou a exclusividade para mulheres em vagões do VLT (veículo leve sobre trilhos), o equivalente ao tram francês.
O serviço também existe em Belo Horizonte e Recife.
A ideia do "vagão rosa" surge no contexto de violências sexuais contra as mulheres, funcionando como uma medida institucional com o objetivo de reduzir as ocorrências dentro do metrô. A polêmica, por sua vez, se pauta na forma como o projeto é pensado, planejado e proposto.
Uma política semelhante foi implementada no metrô de São Paulo, a maior cidade brasileira, entre outubro de 1995 e setembro de 1997. Porém, a Companhia de Trens Metropolitanos (CPTM) decidiu não dar continuidade ao serviço após reclamações de casais e para evitar qualquer possível violação do artigo 5º da Constituição Brasileira, que garante a igualdade entre os cidadãos.
Pesquisadores do tema apontam que, independentemente da implantação do vagão exclusivo, é fundamental existirem programas de conscientização voltados para o público masculino, que deixem claro que a importunação sexual é crime, com métodos ágeis e de fácil acesso para denúncias.
Com RFI