Script = https://s1.trrsf.com/update-1770314720/fe/zaz-ui-t360/_js/transition.min.js
PUBLICIDADE

As Principais Notícias da Europa

Depois de 29 anos, vítima de abuso processa padre pedófilo

4 abr 2010 - 16h12
(atualizado às 16h27)
Compartilhar
Nicholas Kulish
De New York Times, de Essen, Alemanha

O caso que gerou controvérsia sobre as medidas tomadas pelo futuro papa em relação a um padre pedófilo na Alemanha veio à tona três décadas após o fato ter ocorrido, e quase por acaso. Tudo começou quando Wilfried Fesselmann, uma vítima do passado, encontrou na internet fotografias do padre que abusou sexualmente dele ainda trabalhando com crianças.

Wilfried Fesselmann encontrou fotos do padre pedófilo que abusou sexualmente dele quando era criança
Wilfried Fesselmann encontrou fotos do padre pedófilo que abusou sexualmente dele quando era criança
Foto: The New York Times

Fesselmann, que por muito tempo manteve silêncio sobre o abuso que sofrera em 1979, afirma que as imagens o impressionaram e o incitaram a contatar seu molestador. Assim começou o intrincado processo, que envolveu uma investigação de extorsão contra Fesselmann pelas mensagens de e-mail emocionalmente cruas que enviou à Igreja exigindo compensação em 2008, num caso que acabou deixando o papa Bento XVI em situação desconfortável.

Após ser investigado por chantagem pela polícia, Fesselmann não discutiu mais as acusações publicamente até o mês passado. Na época, o abuso de crianças por outros padres havia explodido na opinião pública da Alemanha, com inúmeras investigações sobre casos novos e antigos dominando as manchetes da nação.

O fato de a Igreja Católica Romana ter demorado tanto tempo para agir contra o padre molestador e de a vítima ter precisado inicialmente se defender mostra que a Igreja alemã - assim como a polícia, os tribunais e a sociedade alemã em geral - está ainda nos estágios iniciais de acerto de contas de um assunto psicologicamente tenso que muitos alemães consideravam apenas um problema americano.

Fesselmann também não tinha como saber que seu caso criaria repercussões na Igreja que transcenderiam seu próprio sofrimento. O caso de abuso de Fesselmann e outros fizeram a Igreja transferir o padre molestador, reverendo Peter Hullermann, para Munique em 1980, uma decisão que exigiu a aprovação do cardeal Joseph Ratzinger, o então arcebispo de Munique e Freising, hoje o papa. Hullermann foi submetido à terapia em Munique, mas teve permissão para prosseguir com seus deveres pastorais quase imediatamente.

Hullermann continuou a molestar outros meninos e não foi formalmente suspenso até o mês passado, após a Igreja alemã reconhecer que "erros terríveis" foram cometidos no caso. A Igreja anunciou que a decisão que permitiu que o padre prosseguisse com suas obrigações em 1980 foi feita apenas pelo principal assistente de Ratzinger na época, embora o futuro papa tenha recebido um memorando sobre a transferência.

Embora a Igreja tenha reconhecido o extenso histórico de abuso sexual de Hullermann, as alegações de Fesselmann ainda não foram ouvidas num tribunal.

Três décadas após Fesselmann denunciar Hullermann por tê-lo forçado, aos 11 anos, a realizar sexo oral, ele viu imagens do clérigo - mais velho e agora robusto, mas ainda reconhecível - trabalhando com crianças na Bavária, do outro lado do país.

Fesselmann passou a enviar e-mails intermitentes a Hullermann no ano e meio seguinte. As mensagens não foram assinadas, mas enviadas de sua conta pessoal. Em suas mensagens, ele ameaçava vir a público e perguntava sobre compensação das vítimas. O e-mail foi respondido não por Hullermann, mas por autoridades diocesanas em Munique, que pediram a Fesselmann que lhes desse seu nome completo para que pudessem averiguar as acusações.

Ele não se identificou, mas na manhã de 24 de abril de 2008, enquanto ainda se correspondia com a arquidiocese, seis homens apareceram sem aviso em sua casa em Essen: dois policiais da Bavária, dois policiais de Essen, um funcionário municipal e um representante da Igreja.

"Eles disseram que chegaram lá às 10h por consideração, porque meus filhos estavam na escola no horário", disse Fesselmann, hoje com 41 anos, um pai desempregado de três.

Promotores em Traunstein, cidade da profundamente católica Bavária onde Bento cresceu, estavam investigando Fesselmann por chantagem.

Representantes da Igreja afirmam que fizeram nesse caso exatamente aquilo que em muitas outras ocasiões são acusados de não fazer: eles entregaram o caso a promotores, ao invés de cuidar dele internamente. A partir daí, foram os promotores que optaram por abrir uma investigação por chantagem.

"É nosso dever determinar se houve crime, sem partir de uma direção pré-definida", disse Guenther Hammerdinger, porta-voz da promotoria de Traunstein. "Já que os possíveis crimes sexuais haviam claramente passado do prazo de prescrição, nenhum procedimento investigativo contra o padre foi iniciado."

As pressões sobre Fesselman começaram bem antes de ele considerar ir a público. Ele disse que foi atacado por outros membros do grupo jovem de sua Igreja, que o culparam pela suspensão de Hullermann, um jovem e popular capelão, em 1979 e por sua transferência para Munique posteriormente. Os pais devotamente religiosos de Fesselmann não estavam entre os três grupos de pais que acusaram o padre responsável pela Igreja de St. Andreas na época, acusações que Hullermann não nega, de acordo com a diocese de Essen.

"Nada que fosse contra a Igreja poderia ser dito", disse Fresselmann sobre sua criação. No leito de morte em 2000, sua mãe lhe pediu para "esquecer tudo e não fazer nada a respeito", disse Fesselmann. Ele contou sobre os abusos aos amigos, cujos pais então reclamaram com a Igreja.

Relativamente poucas vítimas vêm a público na Alemanha para contar histórias de abuso sexual nas mãos de padres, como fez Fesselmann no diário Sueddeutsche Zeitung no mês passado. Culturalmente, a Alemanha é mais reservada, e seu povo é menos explícito e aberto do que nos Estados Unidos.

A atmosfera para as vítimas de abuso sexual na Europa de hoje é semelhante à de aproximadamente uma década atrás nos Estados Unidos, quando vítimas achavam que eram casos isolados e não viam razão para denunciar, explica Barbara Blaine, presidente do grupo militante Rede de Sobreviventes dos Abusados por Padres.

"Não parece haver um ambiente no qual as vítimas se sintam seguras para se manifestar", disse Blaine.

E essas vítimas na Alemanha não podem esperar o tipo de indenização milionária que algumas vítimas americanas receberam. Manuela Groll, advogada em Berlim que representa 15 alunos que afirmam terem sido abusados em escolas jesuítas na Alemanha, conta que a mais alta decisão civil para um caso de severo abuso sexual de menor que conseguiu encontrar foi de menos de US$ 70 mil e uma pequena quantia mensal.

Fesselmann, que desenvolveu ataques de pânico quando adulto, algo que seu terapeuta disse ser resultado de um trauma infantil, afirma que quer que Hullermann confesse o que fez e pare de trabalhar com crianças.

Um homem grande de jeito gentil, Fesselmann não era um estranho aos olhos do público. Ele escreveu dois livros sobre viver confortavelmente fora do sistema de bem-estar social alemão e apareceu diversas vezes na televisão.

Fesselmann originalmente pediu que seu nome fosse mantido fora das reportagens e foi citado apenas como Wilfried F. pelo New York Times em um artigo anterior. Mas seu nome completo foi publicado no mês passado - contra sua vontade, diz - no jornal de maior circulação da Alemanha, o tabloide Bild.

Após seus e-mails iniciais em 2006, um ano e meio se passou até que ele novamente se correspondesse com Hullerman e mais uma vez recebesse uma resposta de um representante da arquidiocese responsável por casos de abuso infantil, monsenhor Siegfried Kneissl.

Em cópias impressas das mensagens de e-mail de abril de 2008, fornecidas por Fesselmann, Kneissl encoraja-o a se identificar para que representantes da Igreja chequem sua história.

Em resposta, enviada em 18 de abril, Fesselmann parece nervoso e impaciente, repreendendo Kneissl por escrever errado o nome do padre pedófilo e escrevendo que ele tinha até 30 de abril para responder com "sua oferta de dotação financeira". De acordo com a promotoria de Traunstein, a investigação contra Fesselmann já havia começado em 15 de abril de 2008.

Oficiais da polícia criminal, da cidade vizinha bavariana de Muehldorf, visitaram Fesselmann em 24 de abril, confirma a promotoria de Traunstein. Os promotores também questionaram Hullermann, mas ele não foi investigado na época ou desde então.

Mas o padre foi reavaliado pela Igreja. Ele foi afastado de suas funções na cidade de Garching an der Alz, em 6 de maio de 2008, e mais tarde foi enviado para trabalhar na cidade-balneário de Bad Toelz, sob a condição de que não trabalharia mais com crianças. Hullermann foi suspenso no mês passado, três dias após seu caso se tornar público, depois da mídia noticiar que ele ainda trabalhava com crianças em sua nova posição. Na semana passada, novas acusações de abuso sexual surgiram, tanto de seus trabalhos nas proximidades de Essen nos anos 1970, quanto de 1998 em Garching.

Três semanas depois de a polícia visitar sua casa, Fesselmann recebeu uma carta pelo correio dos promotores, afirmando que a investigação havia sido arquivada em 14 de maio de 2008. "Não pode ser refutada a defesa do acusado, na qual ele não tinha intenção de pedir dinheiro ou ser compensado, mas, ao invés disso, pretendia obter provas dos incidentes entre ele e a testemunha Hullermann", dizia a carta.

Tradução: Amy Traduções

The New York Times
Compartilhar
Publicidade

Conheça nossos produtos

Seu Terra