Biógrafo destaca trabalho diário do rei Juan Carlos e seu papel neutro
O hispanista britânico Paul Preston destacou o trabalho diário do rei Juan Carlos e sua importância como figura "neutra" na política espanhola por ocasião da edição revisada de sua biografia do monarca.
A nova versão do livro "Juan Carlos. El rey de un pueblo" ("Juan Carlos. Um rei do povo", sem versão lançada no Brasil), cuja primeira edição foi publicada em 2003, atualiza a obra com os eventos ocorridos em torno do monarca neste tempo no qual "sua imagem mudou muito".
"É compreensível que as pessoas se incomodem com episódios como o caso Urdangarín (genro do rei envolvido em um caso de corrupção) e a caça a elefantes (neste ano, em Botsuana), mas sigo dizendo que, apesar de tudo isso, a contribuição da monarquia politicamente continua sendo fundamental", afirmou Preston neste sábado em entrevista à Agência Efe.
O estudioso, também autor de uma biografia de Franco e especializado na história da Espanha na década de 1930, disse que "ser monarca é um trabalho duro".
"Os britânicos são bastante conscientes disso, por isso Elizabeth II é tão popular, mas na Espanha embora tenha sido apreciado o papel heroico e de 'bombeiro da democracia' do rei durante a transição, não se avalia a horrível tarefa da rotina e representação que exerce diariamente", explicou o historiador em um perfeito espanhol.
Preston, que não se considera monárquico, mas um grande admirador do rei Juan Carlos I, repassa no último capítulo da biografia o período desde 2003 até a atualidade, intitulado "Os perigos da rotina ou o auge da Fênix".
O historiador, que explicou que o rei passou de ter um papel político a um meramente institucional, tem a impressão de que na Espanha "nunca se deu valor à contribuição da monarquia como uma chefia de Estado neutra em um país muito contraído".
"Além de toda a instabilidade que representaria a passagem a uma terceira república, uma Presidência nunca estaria nas mãos de alguém neutro", declarou o autor de "El Holocausto español" ("O Holocausto espanhol"), candidato neste ano ao prêmio Samuel Johnson no Reino Unido.
Com "Juan Carlos. El rey de un pueblo", Preston adentrou, ao longo de 600 páginas, na infância do rei no exílio, em sua adolescência no franquismo e "tudo o que o monarca passou para chegar ao trono", o que lhe rendeu pessoalmente "muita simpatia pelo personagem".
A biografia, cuja edição revisada é publicada agora na Espanha, analisa ainda o papel do rei, uma pessoa com um "altíssimo sentido do patriotismo", desde a morte de Franco até o golpe de Estado de 23 de fevereiro de 1981.
"Interesso-me muito na parte pessoal, acho que a história é feita por seres humanos, mas além disso queria fazer uma versão honesta de seu papel histórico na transição à democracia, período no qual teve um trabalho muito importante", disse.
Como britânico, Preston não pode evitar as comparações com a monarquia do Reino Unido, em níveis de popularidade recorde e que "conta com a vantagem de estar muito mais firmada graças a uma longa tradição", segundo o historiador.
Preston lembrou que quando fez a pesquisa para a biografia de Juan Carlos I, nos anos 90, no Reino Unido a monarquia era alvo da hostilidade da imprensa e "parecia antiquada e corrupta".
"No entanto, naquele momento a monarquia espanhola parecia intocável e moderna. Agora é o contrário", algo para o qual, segundo o hispanista, contribuiu muito a imprensa.
"Durante muito tempo na Espanha era um 'tabu' falar mal da família real e, quando finalmente isso acabou, havia uma fome acumulada de anos", explicou Preston, que prepara agora uma biografia sobre outra figura chave da transição, o líder comunista Santiago Carrillo.