Script = https://s1.trrsf.com/update-1768488324/fe/zaz-ui-t360/_js/transition.min.js
PUBLICIDADE

Estados Unidos

Em condomínio da Califórnia, é proibido fumar até em casa

27 jan 2009 - 13h36
(atualizado às 13h38)
Compartilhar

Jesse McKinley

Em seus 50 anos como fumante, Edith Frederickson diz que acendeu cigarros em restaurantes e bares, aviões e trens, dentro e fora de edificações ¿tudo isso como resultado de um vício da ordem dos dois maços diários, pelo qual não se arrepende em nada. Mas há duas semanas ela está proibida de fumar no seu lugar predileto para isso: sua casa.

Edith Frederickson fuma um cigarro em área designada para fumantes no asilo em que mora, em Belmont
Edith Frederickson fuma um cigarro em área designada para fumantes no asilo em que mora, em Belmont
Foto: The New York Times

Frederickson vive em um apartamento em Belmont, Califórnia, uma cidade silenciosa no Vale do Silício que agora tem em vigor talvez a mais severa lei de restrição ao fumo dos Estados Unidos, com normas que na prática proíbem o fumo em qualquer edifício de apartamentos.

"Estou completamente indignada", diz Frederickson, 72 anos, baforando um Winston em uma laje de concreto do lado de fora de seu apartamento de um quarto. "Eles querem nos dizer como viver e o que fazer, e bem aqui na América."

E que a proibição tenha se originado no edifício em que ela mesma vive ¿ uma sonolenta comunidade para aposentados chamada Bonnie Brae Terrace - só serve para irritá-la ainda mais. De fato, funcionários do governo municipal dizem que uma das forças propulsoras por trás da aprovação da lei foi um grupo de aposentados moradores do edifício que pressionou a cidade a adotar medidas que impedissem o fumo passivo a que estavam sujeitos em seus apartamentos por obra dos cigarros de seus vizinhos.

"Eles decidiram fazer alguma coisa a respeito", disse Valerie Harnish, diretora de serviços de informação em Belmont. "E fizeram."

Os defensores da saúde pública estão observando com atenção os acontecimentos em Belmont, e consideram a cidade como uma nova frente em sua batalha nacional contra o tabaco, cujo objetivo é limitar o fumo em edificações cujos ocupantes compartilhem de paredes, tetos e da atmosfera. Não surpreende que a Califórnia, onde questões de saúde são dominantes, tenha se adiantado ao país quanto a isso. Diversas outras cidades do Estado já aprovaram proibições ao fumo na maioria das unidades de edifícios residenciais privados, mas nenhuma foi tão longe quanto Belmont, que proíbe o fumo em qualquer apartamento que tenha paredes ou teto em comum com outras unidades.

"Creio que Belmont derrubou essa barreira invisível, no sentido de que decidiu tratar a fumaça de cigarro que flutua pelo ar como uma questão de saúde pública", disse Serena Chen, diretora regional de programas de política de tabaco da Associação Pulmonar Americana, na Califórnia. "Eles simplesmente dizem que o fumo passivo é tão perigoso na moradia de alguém quanto em seu local de trabalho."

No nível local, o debate sobre a lei dividiu os moradores do Bonnie Brae em dois partidos, opondo a animada Frederickson, que nasceu na Alemanha, de um lado, a Ray Goodrich, 84 anos, um homem magro que sofre de uma doença pulmonar e lutou contra alergias durante toda a vida, no campo oposto.

E, como no caso de todos os combatentes, existe uma mistura de respeito e animosidade entre eles.

"Ela é uma velhinha dura na queda", disse Goodrich.

Frederickson é menos afetuosa.

"Eu não reconheceria a existência daquele homem por nada no mundo", disse. "Foi ele que começou essa vendeta contra os demais moradores."

Goodrich, um homem de fala mansa e sotaque da Carolina do Norte que passou a infância em um bairro que abrigava armazéns de tabaco, não parece ser o tipo de pessoa que promoveria uma vendeta, mas diz que percebeu que a fumaça dos cigarros dos vizinhos se infiltrava em seu apartamento desde que se mudou para o Bonnie Brae, em 1998.

"Eu ficava imediatamente com dor de cabeça, como se uma faixa de ferro estivesse comprimindo minha testa", conta Goodrich. "Mesmo sentado e com o filtro de ar ativo, o que eliminava a fumaça visível, eu sentia sua presença."

Ele decidiu dar o basta depois que um incêndio irrompeu no apartamento de um fumante no condomínio, alimentado pelo tanque de oxigênio que o morador utilizava.

Determinado a erradicar os fumantes, Goodrich iniciou uma campanha de cartas, com petições a todo tipo de autoridade, das locais ao Departamento da Habitação e Desenvolvimento Urbano Federal, que fornece alguns subsídios ao Bonnie Brae, um condomínio privado para idosos de renda baixa e média.

As cartas de Goodrich atraíram a atenção de membros do Legislativo municipal de Belmont, principalmente quando ele conseguiu a adesão de outros moradores do complexo. Mas o Legislativo também começou a receber queixas, entre as quais mensagens de e-mail ameaçadoras. Goodrich disse que a hostilidade era perceptível entre os fumantes do condomínio, que não falam com ele e o olham feio.

A lei foi aprovada depois de mais de um ano de deliberação e consultas, e proíbe o fumo em toda a cidade exceto casas isoladas, quintais, nas ruas e em algumas calçadas e áreas externas designadas para fumo.

A nova regra entrou em vigor em 9 de janeiro, depois de um período de carência de 14 meses para permitir que os edifícios residenciais se adaptassem às suas disposições - por exemplo, por meio de alterações de regulamento que proibissem o fumo - e para que os moradores que desaprovam as regras se mudassem. A lei prevê multas de US$ 100 por quaisquer violações, ainda que funcionários municipais tenham declarado que nenhuma multa foi imposta até agora.

Goodrich diz que sua carreira política está encerrada.

"Estou preparando minha segunda aposentadoria", ele diz. "A proibição ao fumo foi minha despedida."

Ele diz suspeitar que alguns moradores continuem fumando em segredo, de noite, enquanto outros lotam as pequenas áreas externas em que o fumo ainda é permitido.

Frederickson está entre eles, ao menos por enquanto, mas planeja se mudar de Belmont, se encontrar uma opção com preço atraente.

Até lá, apesar de agora se sentir como uma criminosa em sua cidade, ela continua desafiadora.

"Vou continuar sendo criminosa, pode ter certeza", ela disse.

Tradução: Paulo Eduardo Migliacci ME

The New York Times
Compartilhar
Publicidade

Conheça nossos produtos

Seu Terra