'Empresas de IA não têm plano de negócios nem substância real para sustentar seu valor'
No seu recente livro sobre a IA, a jornalista Karen Hao descreve as empresas de inteligência artificial como sendo novo impérios. Ainda assim, ela se mostra otimista sobre a tecnologia, em entrevista à BBC.
A jornalista americana Karen Hao se considera otimista em relação à inteligência artificial (IA), mesmo acreditando que as empresas responsáveis pelo seu desenvolvimento se apropriam de recursos alheios, inflam o valor de suas ações e vendem narrativas enganosas.
"Se eu não fosse otimista, não pesquisaria nem criticaria essas companhias", afirma ela. "Acredito que o mundo pode ser melhor."
A jornalista é especializada em empresas de tecnologia. Hao trabalhou para o The Wall Street Journal e o Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT, na sigla em inglês), onde também estudou e conheceu alguns dos desenvolvedores mais prolíficos de companhias de IA.
Seu recente livro Empire of AI ("O império da IA", em tradução livre, aguardando lançamento em português) conta como práticas consideradas por ela imperialistas e preocupantes se escondem por trás das figuras que desenvolvem esta tecnologia.
Hao ganhou vários prêmios com suas investigações e seu livro é um sucesso de vendas, segundo o jornal The New York Times.
A jornalista conversou com a BBC News Mundo (o serviço em espanhol da BBC) sobre sua obra e seu trabalho, durante o Hay Festival Cartagena 2026, o festival de ideias e literatura realizado na Colômbia no final de janeiro.
BBC News Mundo: Por que você escolheu para o seu livro o título O Império da IA?
Karen Hao: Acredito que precisamos ter em mente que empresas como a OpenAI, de Sam Altman, são novas formas de império.
Eu queria que as pessoas, mesmo se não lessem o livro, compreendessem que existe um argumento mais profundo por trás desta frase e que ela despertasse a curiosidade sobre o que essas companhias realmente estão fazendo.
BBC: A questão, por acaso, é que essas empresas não querem que saibamos determinadas coisas?
Hao: Que não saibamos de nada, basicamente.
Elas deixam tudo extremamente opaco para que as pessoas não entendam como elas funcionam e treinam seus sistemas, onde constroem seus centros de dados, quanta água e energia elas usam e como vendem seus modelos para diferentes companhias e indústrias.
Um dos motivos por que elas impõem esta opacidade é porque quanto menos as pessoas souberem, mais elas poderão manipular suas narrativas sobre esta tecnologia, do que ela se trata, quais serão os seus impactos e como ela irá nos afetar.
Estas perguntas exigem transparência.
BBC: Comparar empresas de IA com impérios é algo forte. Quais semelhanças você observa?
Hao: Muitas.
Em primeiro lugar, elas reivindicam recursos que não são delas. Recolhem dados de pessoas comuns para treinar seus modelos e também a propriedade intelectual de artistas e criadores.
Elas também exploram trabalhadores. Os impérios são capazes de extrair muito valor de trabalhadores mal remunerados.
A IA faz o mesmo. Ela paga muito pouco a trabalhadores do Sul global por tarefas fundamentais para o desenvolvimento da IA.
Depois que a tecnologia foi desenvolvida, elas continuam prejudicando assalariados e seus empregos, com maior insegurança e precariedade.
Os impérios monopolizam a produção do conhecimento e é isso que fazem estas companhias.
Observamos na última década como os pesquisadores de IA são financiados pelas próprias empresas de IA.
Agora, imagine. Se a maioria dos cientistas climáticos fossem financiados por empresas de combustíveis fósseis, não teríamos uma perspectiva clara da crise climática.
O mesmo acontece com a IA. Não temos uma perspectiva precisa porque as pessoas que consultamos sobre esta tecnologia estão no bolso dessas companhias.
Aliás, os impérios sempre se envolvem nessas narrativas morais sobre sua existência. Eles se apresentam como bons, com uma missão civilizadora de trazer o progresso.
As empresas prometem acesso ao paraíso através da IA. Elas dizem que, se não permitirmos o acesso a recursos, trabalho ou conhecimento, perderemos para os impérios malignos que querem levar a humanidade para o inferno.
BBC: Este último ponto faz lembrar os argumentos de Donald Trump em relação à Groenlândia. Que, sem o controle dos Estados Unidos, a China ou a Rússia poderiam se intrometer.
Hao: Os Estados Unidos também são um império e se comportam como os impérios da IA. É uma retórica que os EUA vêm usando há muito tempo na sua construção imperialista.
A IA também usa esta retórica. Não é algo novo.
Mark Zuckerberg, durante a era das redes sociais, dizia que, se elas fossem regulamentadas, perderiam sua vantagem frente à China.
Eles vendem uma narrativa de "nós ou eles" muito eficiente entre o público americano, para oferecer a estas companhias ou ao governo o poder que permite a elas desenvolver atividades verdadeiramente horríveis.
BBC: Elon Musk costumava expressar sua preocupação sobre o desenvolvimento da IA e o que ela poderia significar para os seres humanos.
Agora, ele parece cada vez mais contra as regulamentações. Observamos isso na recente polêmica sobre sua ferramenta Grok e a possibilidade de criar imagens nuas falsas com fotografias de pessoas reais.
Hao: Acredito que Musk nunca tenha mudado. Sua perspectiva sobre a IA sempre foi a mesma.
Todos os medos que ele afirma ter, na realidade, se referiam ao fato de que, antes, não era ele quem controlava a tecnologia.
Isso é algo presente em todos esses multimilionários que constroem os sistemas de IA. Todos eles dizem que são bons e que os outros são maus.
Musk era extremamente agressivo sobre a promoção de regulamentações sobre a IA quando não fazia parte do jogo. Foi uma espécie de mecanismo para controlar o poder de concorrentes como o Google.
Agora que ele faz parte do jogo, quer proteger o controle da IA e da sua empresa.
BBC: Quais as semelhanças entre a visão de Musk e a de Sam Altman, que eram aliados e, agora, são rivais?
Hao: O discurso da OpenAI [a companhia de Altman] defendeu inicialmente o desenvolvimento sem fins lucrativos.
Eu acreditava que eles eram muito sinceros sobre este ponto e que, em algum momento de corrupção, perderam seu propósito.
Mas percebi que, como Musk, Altman sempre teve a mesma posição. Ele tratava de se manter no centro do poder. A OpenAI sempre foi a mesma.
Altman observava como o Google dominava a IA e procurou criar uma organização na qual ele pudesse controlar o desenvolvimento da tecnologia.
O Google foi e continua sendo mais rico que a OpenAI e o primeiro obstáculo para Altman foi a competição pela captação de talentos.
Por isso, a estratégia de Altman foi oferecer um salário menor em troca de trabalhar por um propósito melhor e fazer parte da história.
Mas, assim que eles captaram os talentos, o desenvolvimento sem fins lucrativos perdeu seu valor e a OpenAI, institucionalmente, é uma empresa totalmente focada nos lucros.
Altman pode dizer o que quiser sobre seus motivos humanitários, mas, com o passar dos anos, ficou demonstrado que ele joga o mesmo jogo de Musk.
BBC: O secretário da Defesa dos Estados Unidos, Pete Hegseth, anunciou recentemente que a ferramenta de IA de Elon Musk, Grok, será utilizada pelo Pentágono. Como você avalia isso?
Hao: O aumento do uso da IA na defesa ou em estruturas militares é extremamente preocupante. Esta tecnologia é imprecisa, não é confiável, sobretudo a IA generativa, como o Grok.
Ou seja, estamos falando em integrar uma tecnologia não confiável a sistemas envolvidos em situações de vida ou morte.
Existiu por muito tempo a norma internacional de que não deveríamos automatizar a tomada de decisões na guerra. Sempre deveria existir o julgamento humano.
Mas a invasão da Ucrânia pela Rússia e sua defesa enfraqueceram estas normas.
Grande parte do Ocidente se dispôs a flexibilizar algumas dessas regras rigorosas do passado. Eles começaram a automatizar cada vez mais a infraestrutura militar, o que é problemático.
Além disso, estes sistemas são criados por algumas poucas pessoas que decidem em seu benefício e conforme seu estado de saúde mental quando acordam pela manhã.
Eles são responsáveis por alterar sistemas de IA que afetam infraestruturas militares fundamentais. É alarmante.
BBC: Suas pesquisas e críticas não devem satisfazer essas companhias tão poderosas. Você já sofreu pressões, desafios, obstáculos no seu trabalho?
Hao: Quando comecei o livro, a OpenAI se mostrou muito interessada em participar. Isso logo mudou quando eles começaram a ser investigados pelo governo.
Eles se tornaram pouco cooperativos. Eu enviava pedidos de comentários e eles não respondiam a uma única pergunta. Eu dava até seis semanas para que eles respondessem e nada.
Isso ocorre muito com minhas pesquisas, embora algumas empresas tenham começado a perceber que é melhor entrar em contato comigo e esclarecer seus pontos de vista. Levo seus comentários e perspectivas muito a sério.
BBC: Você e outros analistas expressaram a preocupação de que existe uma bolha da IA que, se estourasse, traria consequências dramáticas. Quais seriam elas?
Hao: Os impactos poderiam ser enormes, como nas outras grandes crises, como na de 2008.
Grande parte do crescimento do mercado de bolsa de valores nos Estados Unidos está baseado em empresas de IA com valor zero.
Não houve um impulso econômico generalizado. Essas companhias simplesmente investiram umas nas outras para inflar o valor das suas ações.
Temos observado diversos sinais de que o grande valor econômico que elas prometem ainda não chegou.
Um relatório do ano passado demonstrou que a adoção de ferramentas de IA generativa em dezenas de empresas diminuiu. Elas não estavam tendo lucros que justificassem a aquisição desses serviços.
As companhias de IA não têm um plano de negócio. Não têm uma substância real para sustentar seu valor. Uma quebra das bolsas terá efeitos enormes para o mundo.
BBC: Ao cobrir a IA, encontrei otimistas e pessimistas. Você parece estar no segundo grupo, mas me corrija se eu estiver errado.
Hao: Eu diria que, na verdade, sou muito otimista. O motivo que me leva a pesquisar e criticar é porque acredito que o mundo pode ser melhor. Se não acreditasse, não faria meu trabalho.
Mas sou pessimista sobre a estrutura de poder corrupta existente no mundo.
Não acredito que seja sustentável, do ponto de vista financeiro, ambiental e de direitos humanos, permitir que um pequeno grupo de pessoas controle a infraestrutura mundial a partir da Califórnia [nos Estados Unidos].
A infraestrutura física que eles projetam transforma a terra, as redes elétricas e o abastecimento de água.
Por isso, sua infraestrutura intelectual e social oferece às pessoas ferramentas das quais elas ficam dependentes, prejudicando suas relações sociais e seu pensamento crítico.
Sobre isso, sou pessimista. Não acredito que a tecnologia projetada desta forma traga benefícios a longo prazo.
Penso que, de muitas formas, a IA, sem precisar de impérios, traz muitos benefícios para muitas pessoas.
Se conseguirmos resolver o problema atual e suas raízes, poderemos, como sociedade, encontrar um caminho mais humano e sustentável para todos.