Em um mês de guerra e cerco, habitantes de Gaza enfrentam dificuldades e sofrimento
O corpo de uma criança é carregado para fora de uma casa bombardeada. Uma mulher chora sobre uma fileira de cadáveres envoltos em pano branco. Vítimas chegam aos hospitais já lotados de feridos e desabrigados. Pessoas fazem fila por horas para conseguir alguns litros de água para compartilhar com dezenas de outras.
Um mês após o devastador ataque militar de Israel à Faixa de Gaza, governada pelo Hamas, os palestinos presos no enclave sitiado enfrentam sofrimento diário em uma escala, intensidade e repetição que levou alguns à fúria e ao desespero.
"Juro que estamos esperando pela morte. Será melhor do que viver. Estamos esperando a morte a cada momento. É uma morte suspensa", disse Abu Jihad, morador de meia-idade de Khan Younis, no sul do pequeno e densamente povoado território.
Ele estava em uma rua próxima a uma casa destruída por um ataque aéreo que acordou a vizinhança no meio da noite.
"Não estamos vivendo. Precisamos de uma solução. Ou nos matam todos ou nos deixam viver", afirmou ele, enfurecido com Israel e com o mundo em geral, que ele acusou de ser silencioso e impotente.
O objetivo militar declarado de Israel é destruir o Hamas, grupo islâmico palestino cujos combatentes romperam a cerca da fronteira de Gaza e invadiram as comunidades israelenses próximas em 7 de outubro, matando mais de 1.400 pessoas e sequestrando outras 240.
A subsequente investida aérea, marítima e terrestre de Israel contra o Hamas matou mais de 10.000 pessoas na faixa costeira, de acordo com as autoridades de saúde do local.
Israel disse aos moradores da parte norte do enclave, onde suas forças cercaram a Cidade de Gaza, que se mudassem para o sul para sua própria segurança, mas também tem bombardeado o sul, embora com menos intensidade do que o norte.
FILEIRA DE CORPOS
Em Khan Younis e Rafah, dois ataques separados contra residências mataram 23 pessoas durante a noite, informaram as autoridades de saúde na terça-feira.
No local do ataque em Khan Younis, um homem carregava o corpo sem vida de uma criança pequena, vestida com o que parecia ser um pijama rosa, tirado das ruínas destruídas de uma casa.
Uma menina sobreviveu, mas estava presa a uma placa de concreto que havia caído sobre suas pernas. Um grupo de homens estava usando as próprias mãos para tentar libertá-la, enquanto uma multidão ansiosa estava do lado de fora, incentivando os socorristas.
Ahmed Ayesh, um morador ferido no ataque, saiu do local com o rosto ensanguentado e sangue espalhado em sua camiseta e em um braço. Ele estava visivelmente irritado ao falar com os repórteres.
"Essa é a bravura do chamado Israel. Eles mostram sua força e poder contra civis. Bebês dentro de casa! Crianças dentro de casa!", disse ele, apontando o dedo para a ruína e elevando o tom de voz.
Israel afirma que tem como alvo apenas os militantes e acusa o Hamas de usar escudos humanos e esconder armas e postos de operação em bairros residenciais. O Hamas nega isso.
No Hospital Nasser, em Khan Younis, uma fileira de cadáveres envoltos em panos brancos foi colocada no chão do lado de fora da porta. Pelo comprimento dos corpos, ficou claro que alguns dos mortos eram adultos e outros eram crianças.
Uma mulher de vestido vermelho e lenço bege caiu em um choro incontrolável, com o corpo dobrado para a frente enquanto um homem tentava confortá-la. Um homem de camisa preta se agachou e chorou, com o rosto avermelhado e contorcido pela angústia.
Depois de algum tempo, um grupo de homens, incluindo a equipe médica, com jalecos cirúrgicos e aventais de plástico, ajoelhou-se para rezar ao lado dos corpos.