Em Deir al-Balah, área para refugiados em Gaza, milhares de pessoas dividem dois banheiros
Com mais de 3 mil tendas e apenas dois banheiros disponíveis no campo de refugiados da cidade de Deir al-Balah, famílias de palestinos deslocados pela ofensiva militar israelense na Faixa de Gaza improvisam soluções para sobreviver em meio ao abandono e ao risco de doenças.
Com mais de 3 mil tendas e apenas dois banheiros disponíveis no campo de refugiados da cidade de Deir al-Balah, famílias de palestinos deslocados pela ofensiva militar israelense na Faixa de Gaza improvisam soluções para sobreviver em meio ao abandono e ao risco de doenças.
Ferial Abdou e Frédérique Misslin, correspondentes da RFI em Gaza e Jerusalém
Na área destinada aos refugiados de Deir al-Balah, no centro da Faixa de Gaza, a situação é de emergência sanitária. Além da superlotação e dos abrigos improvisados, faltam banheiros adequados, como descreve Fathi, de 72 anos, que sofre de dores nos joelhos e dificuldade de locomoção. "Não consigo descrever o quanto é difícil achar um banheiro. Passo a manhã inteira procurando um canto afastado, mas não tem nenhum. Não tenho banheiro na minha tenda."
Saadyeh, mãe de cinco filhos, pediu ajuda aos cunhados, que cavaram um buraco profundo dentro da área da tenda onde estão acampados. Ela trouxe barras de ferro para reforçar a estrutura, uma chapa de metal para cobrir a fossa rudimentar e improvisou uma abertura no tamanho de um vaso sanitário. Com cortinas, cobertores e uma tela contra insetos, a palestina construiu um banheiro próprio. "Aqui, cada família tenta montar o seu. As duas instalações do campo ficam inutilizáveis após uma hora de uso", explica.
Focos de contaminação
Sem água suficiente e produtos de limpeza, os banheiros coletivos se tornam focos de propagação de doenças, que se espalham rapidamente. A situação é agravada pela falta de higiene, e famílias recorrem a soluções improvisadas, mas o risco permanece. A crise humanitária em Gaza se revela, dessa forma, nos detalhes mais íntimos da sobrevivência.
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o sistema hospitalar em Gaza está em colapso. Em Deir al-Balah, o principal depósito da OMS foi destruído por ataques recentes, e postos de atendimento ou outras estruturas de saúde pública foram saqueados por multidões desesperadas.
O Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA), órgão encarregado de organizar respostas emergenciais em zonas de conflito, estima que entre 50 mil e 80 mil pessoas estavam na área durante as ordens de retirada divulgadas pelas forças israelenses, sem acesso a locais seguros.
A escassez de água potável, produtos de limpeza e medicamentos compromete a capacidade de resposta humanitária. A falta de saneamento básico também acelera a disseminação de doenças contagiosas, especialmente entre crianças e idosos.