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Do revólver ao Boeing 747, os presentes que constrangem líderes da Otan

O avião oferecido pelo Catar ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, já havia provocado desconforto e questionamentos sobre segurança e influência diplomática durante a cúpula da Otan encerrada ontem em Ancara, na Turquia. Nesta quinta-feira (9), foi a vez de um revólver personalizado, acompanhado de seis balas, oferecido pelo presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, aos líderes da aliança, levantar novas interrogações sobre os limites do simbolismo na diplomacia contemporânea.

9 jul 2026 - 12h52
(atualizado às 13h13)
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Revólver dado por Erdogan ao líder lituano; Gitanas Nauseda; na cúpula da Otan, fotografado em Vilnius em 9 de julho de 2026.
Revólver dado por Erdogan ao líder lituano; Gitanas Nauseda; na cúpula da Otan, fotografado em Vilnius em 9 de julho de 2026.
Foto: © via REUTERS - Gabinete do presidente da Lituânia/Divulgação via REUTERS / RFI

A surpresa não se limitou ao revólver personalizado. Ao abrir a caixa vermelha com revestimento preto entregue pelo presidente turco, os líderes encontraram também seis balas reais e um documento informando que a arma estava isenta dos controles de exportação, um detalhe que contrastou com as dificuldades enfrentadas posteriormente para transportar o presente para fora da Turquia.

A revelação foi feita pelo primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, durante o voo de retorno de Ancara, onde os chefes de Estado e de governo da Otan estiveram reunidos durante dois dias. Segundo ele, o revólver, identificado pela imprensa como um Magnum 357, trazia o nome de cada destinatário gravado na arma.

Em alguns casos, o presente desencadeou imediatamente procedimentos de segurança. O gabinete do primeiro-ministro belga, Bart De Wever, informou que ele entregou sua arma à polícia aeroportuária para que fosse guardada em um cofre e tratada de acordo com a legislação vigente. As equipes de segurança belgas também assumiram a custódia dos revólveres recebidos pela presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e pelo presidente do Conselho Europeu, António Costa.

Por meio de um porta-voz, Von der Leyen declarou ter agradecido o gesto de Erdogan, mas pretende doar a arma a um museu militar após sua inutilização. Outros exemplares, como os destinados a Starmer e ao chanceler alemão Friedrich Merz, permaneciam na capital turca devido às restrições que regulam o transporte internacional de armas de fogo operacionais.

O Magnum oferecido ao presidente polonês, Karol Nawrocki, chegou ao destino sem incidentes, mas cercado de precauções. A prudência tinha uma explicação: em dezembro de 2022, o então chefe da polícia polonesa trouxe da Ucrânia um lançador de granadas recebido como presente. A arma explodiu posteriormente em seu gabinete, ferindo-o levemente e causando danos consideráveis à sede da corporação em Varsóvia.

Desta vez, não há risco de um incidente semelhante. "É certo que ninguém vai dispará-lo", afirmou à imprensa local um integrante da equipe de Nawrocki.

O Palácio do Eliseu não comentou o presente recebido pelo presidente Emmanuel Macron.

Procurada pela AFP, a presidência turca não respondeu aos pedidos de esclarecimento sobre a escolha do presente.

O Boeing do Catar

O episódio ocorreu apenas um dia após outro presente recebido por um líder da Otan dominar as conversas nos corredores da cúpula.

Na quarta-feira (8), o presidente americano Donald Trump anunciou que não utilizaria para retornar a Washington o Boeing 747 oferecido pelo Catar e adaptado para servir como novo Air Force One. Embora tenha chegado a Ancara a bordo da aeronave, ele decidiu voltar aos Estados Unidos em outro avião presidencial.

"Ele voará pela Europa, passando por duas ou três grandes bases militares, onde poderemos mostrá-lo ao povo. É realmente magnífico", declarou Trump, sem detalhar os motivos da mudança de planos.

Segundo o jornal The New York Times, a decisão foi tomada após recomendações do Serviço Secreto americano, responsável pela proteção do presidente. A aeronave, originalmente pertencente ao governo do Catar, não contaria com todos os sistemas de segurança e comunicação presentes no Air Force One tradicional.

Avaliado em centenas de milhões de dólares, o Boeing também levantou questionamentos sobre os limites dos presentes recebidos por chefes de Estado de governos estrangeiros. Além das implicações diplomáticas, especialistas e autoridades americanas manifestaram preocupações relacionadas à segurança de uma aeronave destinada a transportar o presidente dos Estados Unidos em missões oficiais.

Já os revólveres distribuídos por Erdogan continuavam gerando dificuldades práticas.

Com AFP

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