Confrontos na Síria: minoria drusa está dividida entre proteção de Israel e apoio ao novo governo sírio
O Exército israelense realizou um bombardeio nesta sexta-feira (2) nas proximidades do palácio presidencial de Damasco, após ter ameaçado o governo do presidente sírio, Ahmed al Sharaa, com represálias, caso não protegesse a minoria drusa do país. Em nota oficial, a presidência síria "condena nos termos mais fortes o ataque ao palácio, realizado pela ocupação israelense", acrescentando que o incidente constitui "uma escalada perigosa contra as instituições do Estado (sírio) e sua soberania".
O Exército israelense realizou um bombardeio nesta sexta-feira (2) nas proximidades do palácio presidencial de Damasco, após ter ameaçado o governo do presidente sírio, Ahmed al Sharaa, com represálias, caso não protegesse a minoria drusa do país. Em nota oficial, a presidência síria "condena nos termos mais fortes o ataque ao palácio, realizado pela ocupação israelense", acrescentando que o incidente constitui "uma escalada perigosa contra as instituições do Estado (sírio) e sua soberania".
Confrontos de cunho sectário entre combatentes drusos e grupos armados vinculados ao novo governo sunita sírio, no poder desde dezembro do ano passado, deixaram mais de 100 mortos nesta semana nos arredores de Damasco, de acordo com a ONG Observatório Sírio dos Direitos Humanos. A violência armada teria começado após a transmissão de uma mensagem de áudio atribuída a um druso, que foi considerada uma blasfemia contra o profeta Maomé por extremistas sunitas. A agência AFP não conseguiu verificar a autenticidade dessa mensagem.
Quem são os drusos?
A minoria drusa pratica uma doutrina eclética, dissidente do islamismo xiita mesclada com influências do esoterismo. Os drusos vivem principalmente na Síria, onde formam uma comunidade de cerca de 700 mil pessoas, no Líbano e em Israel. Durante a guerra civil síria, eles permaneceram afastados da oposição ao ex-ditador Bashar Al Assad. Por essa razão, foram considerados hereges pelos muçulmanos sunitas que compõem grupos armados ligados ao novo governo sírio.
Na quinta-feira (1º), o líder religioso druso mais influente da Síria, xeque Hikmat al Hajri, denunciou uma "campanha genocida injustificada" contra "civis" e exigiu "uma intervenção imediata de forças internacionais", diante dos confrontos sangrentos.
"Não confiamos mais em uma entidade que pretende ser um governo (...) Um governo não mata seu povo usando suas próprias milícias extremistas para depois, após os massacres, dizer que a culpa é de elementos descontrolados", declarou o líder religioso. "Um governo protege seu povo", enfatizou.
O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, e seu ministro da Defesa, Israel Katz, disseram, por sua vez, que não "permitirão que forças (sírias) sejam enviadas ao sul de Damasco ou ameacem a comunidade drusa de forma alguma". Estima-se que 150 mil drusos tenham cidadania israelense e vivam em Israel. Eles servem regularmente no Exército e são vistos como ferozes defensores do Estado de Israel.
Minoria dividida
Desde terça-feira (29), as autoridades sírias reafirmaram seu "firme compromisso em proteger todas as comunidades que compõem a população síria, incluindo os drusos". O governo responsabilizou "elementos fora de seu controle" para justificar os confrontos letais.
Durante a semana, em uma reunião ocorrida na província de Sueida, líderes drusos, que beneficiam da proteção de Israel, e representantes do governo sírio reafirmaram sua rejeição a "qualquer divisão" do país.
Onda de violência enfraquece projeto presidencial
Esses confrontos enfraquecem a autoridade do jovem presidente sírio, Ahmed Al Sharaa, por desafiar o processo de transição baseado na aposta política de integração das diferentes comunidades sírias, às quais foi prometida uma autonomia significativa.
Desde a queda de Assad, o novo dirigente sírio enfrenta tanto dificuldades para impor sua autoridade sobre certas facções do Exército, como problemas de desorganização das forças de segurança, criadas às pressas, em um contexto caótico.
A Síria tem hoje um número expressivo de brigadas rebeldes e organizações de segurança locais. Muitos desses grupos foram integrados ao Exército ou à polícia, mas se mostram difíceis de administrar. A própria minoria drusa está dividida entre aqueles que querem participar da transição política e aqueles que apoiam uma retirada da comunidade sob a proteção de Israel.
Israel tem desempenhado um papel central no atual caos na Síria, com repetidas incursões de seu exército nas Colinas de Golã e centenas de bombardeios no país nos últimos cinco meses. O governo israelense quer eliminar todas as ameaças restantes em um país que serviu de ponte entre o Irã e o Hezbollah libanês. Segundo especialistas na região, está claro que o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu não quer permitir que um ex-líder jihadista governe a Síria vizinha.
RFI e AFP