Centros de dados da Rússia são atingidos em nova frente da guerra com a Ucrânia
Essa é uma nova dimensão da guerra entre a Rússia e a Ucrânia, com consequências sobre o território russo e o cotidiano dos habitantes. Depois das perturbações provocadas pelos ataques ucranianos contra refinarias e depósitos de armazenamento, são agora os grandes centros de dados que estão sendo alvo. Enquanto isso, o presidente Volodymyr Zelensky pediu nesta quarta-feira (21), o congelamento da frente de batalha antes das novas negociações de cessar-fogo.
Ataques ucranianos a centros de dados da Yandex causaram graves falhas em serviços públicos e privados na Rússia, expondo a vulnerabilidade de sua infraestrutura digital centralizada. Paralelamente, o presidente Volodymyr Zelensky propôs congelar a linha de frente para abrir negociações de cessar-fogo com garantias ocidentais, em meio a tensões com Washington por restrições ao sistema Starshield e a reuniões entre enviados dos EUA e o Kremlin sobre o conflito.
Thomas de Saint-Léger, correspondente em Moscou, e AFP
Desde o início de outubro, vários centros do gigante tecnológico Yandex foram atingidos, com múltiplas consequências para serviços públicos e privados da Rússia. Essa vulnerabilidade representa um imenso problema para Moscou.
Nas redes sociais, cada um relata seu próprio transtorno: uma conta bancária repentinamente bloqueada, fotos que desapareceram, um homem preso do lado de fora da entrada de sua casa conectada... Uma série de falhas está relacionada aos danos sofridos pelos centros de dados da Yandex, o Google russo.
"Quando pensamos na Yandex, a imaginamos simplesmente como a fornecedora de seus próprios aplicativos", explica Arthur Khachuyan, especialista em análise de dados digitais. "Mas a Yandex disponibiliza infraestrutura de servidores para outras empresas. Portanto, um número muito grande de serviços — sem qualquer relação com a Yandex — deixou de funcionar."
Alguns desses serviços ainda não foram restabelecidos. A vulnerabilidade do sistema digital russo está relacionada à sua arquitetura: uma lei de 2015 determina que os dados sejam armazenados exclusivamente em território nacional, em grandes centros concentrados no oeste do país. Sem proteger esses locais, é difícil imaginar, no curto prazo, uma forma de impedir novos ataques ucranianos.
"É preciso dispor de um centro de dados adicional de reserva e preparar antecipadamente a transferência dos serviços para outro centro, sem interromper seu funcionamento. Não existe outra solução técnica capaz de proteger totalmente contra um cenário desse tipo", prossegue Arthur Khachuyan.
As ameaças à infraestrutura digital foram o tema central de uma reunião presidida pelo presidente russo, Vladimir Putin, há alguns dias. O Kremlin afirma, no entanto, que a iniciativa não tinha relação com os recentes ataques contra os centros de dados.
Zelensky pede congelamento da frente de batalha
Enquanto os ataques atingem a infraestrutura digital russa, o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, pediu nesta quarta-feira (21) o congelamento da frente de batalha como primeiro passo para novas negociações de cessar-fogo.
"Agora precisamos congelar [a frente], e acho que este é o caminho real para acabar com esta guerra. Nós chamamos isso de cessar-fogo: congelar e parar", afirmou Zelensky em entrevista ao programa Fox and Friends, ao ser questionado se aceitaria um acordo de paz para paralisar as operações.
As declarações ocorreram enquanto o enviado dos Estados Unidos Steve Witkoff se reunia com Vladimir Putin para discutir o fim da guerra.
Zelensky afirmou que qualquer negociação de paz deve incluir a Ucrânia. "Sempre disse que estamos abertos a negociar em qualquer formato e sobre qualquer assunto. Mas, por favor, não falem sobre nós sem nós."
O presidente ucraniano ressaltou que qualquer acordo de paz deve incluir garantias de segurança dos parceiros da Ucrânia, incluindo os Estados Unidos e os aliados europeus.
Segundo Zelensky, essas garantias ajudariam a assegurar que os ucranianos não tenham "medo de que a ocupação volte, que a agressão volte, que os assassinatos voltem".
Trocas de acusações entre Kiev e Washington
As declarações ocorreram dias depois de Kiev acusar Washington de reduzir deliberadamente a velocidade do sistema de comunicações Starshield, operado pela SpaceX e considerado fundamental para as comunicações ucranianas no campo de batalha. A Ucrânia também utiliza o sistema civil de satélites Starlink, da SpaceX.
Os serviços Starlink e Starshield "ainda estão limitados", disse Zelensky. "Mas o secretário de Estado [Marco Rubio] me disse que trabalhará com sua equipe para resolver isso e desbloqueá-los."
O Wall Street Journal informou na terça-feira (20) que o proprietário da SpaceX, Elon Musk, havia ordenado a redução dos serviços do Starshield. O empresário havia afirmado anteriormente que eventuais restrições ao sistema teriam partido de Trump, acusação negada pelo presidente norte-americano.
Logo que o enviado americano Steve Witkoff chegou a São Petersburgo, nesta quarta-feira, a Rússia anunciou que começaria em breve a enviar diesel aos Estados Unidos, segundo um acordo com o presidente Donald Trump. Moscou também indicou que havia libertado um cidadão norte-americano detido pelo país desde o início da guerra com a Ucrânia.
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