Após décadas de esquecimento, Baku usa "ouro negro" para se reerguer
- Farid Grajamanov
- Da reportagem da EFE
A cidade caucásica de Baku, capital do Azerbaijão, onde no final do século XIX e começo do XX os irmãos Nobel forjaram grande parte de sua fortuna, é hoje uma cidade moderna na qual se misturam o encantamento do Oriente com a potência de uma cidade que cresce de maneira impetuosa em função do petróleo. Com pouco mais de dois milhões de habitantes, Baku está ligada ao "ouro negro", uma das principais fontes de energia mundial das últimas décadas.
Nos subúrbios da cidade, os braços metálicos das bombas extratoras, algumas das quais datam dos anos 30, se movimentam compassados e incansáveis, extraindo a riqueza de jazidas que se encontram praticamente à flor do solo. E não só em terra: as torres de extração adentram profundamente nas águas do mar Cáspio, que banha a cidade e cujo leito abriga enormes reservas de petróleo, o combustível que permitiu ao Azerbaijão alcançar cotas incríveis de crescimento, como em 2007, quando seu Produto Interno Bruto aumentou 26%.
A presença dos irmãos Nobel na capital azerbaijana, jogada ao esquecimento em tempos soviéticos, foi resgatada pelas autoridades do Azerbaijão independente, que restauraram em todo seu esplendor a residência que ocupavam quando trabalhavam em Baku e que ficou conhecida como Vila Petrolea. Na última década, não só cresceram centenas de modernos prédios de apartamentos e escritórios, mas foram restaurados seus monumentos arquitetônicos, muitos deles erguidos durante o primeiro "boom" do ouro negro, quando Baku se tornou em um centro industrial.
Investimento no passado
Um destaque especial recebe a conservação da fortaleza Icheri Sheher (ou Cidade Antiga), atrás da qual vivia a Baku medieval. Dessa "semente" nasceu a grande cidade.
A fortaleza é coroada pela Torre da Moça, cuja silhueta é o símbolo eterno da cidade, o equivalente à catedral de Notre Dame para Paris. A torre, construída no século XII - embora há quem sustente que foi erguida muito antes - guarda muitos segredos: o principal deles é o fim para o qual foi construída. Para alguns, o singular monumento é um observatório astronômico; para outros, um templo. Há quem diga que se trata de uma mera fortificação e também não faltam as versões esotéricas, que alimentam inumeráveis lendas, tanto sobre a torre como sobre a origem de seu nome.
"Custa achar palavras para expressar o que alguém sente quando caminha pelas estreitas vielas de Icheri Sheher. Eu me criei aqui. Mas comecei a compreender a beleza destes lugares encantados só quando me tornei adulto", disse à Agência Efe, Fahri Agayev, um aposentado de 72 anos que viveu toda sua vida na capital azerbaijana. Para Fahri, passear por Icheri Sheher é "como penetrar nos segredos da história, pois cada pedra da Cidade Antiga foi polida pelos ventos Xazri e Gilavar (Norte e Sul)".
Vento e fogo
Baku é também conhecida como a cidade dos ventos. Alguns cientistas asseguram que a etimologia de seu nome provém do persa antigo "badkuve", que significa "golpe de vento". Outros consideram que o nome tem sua origem no zoroastrismo e que vem da palavra "baga", com a qual uma série de línguas antigas designa o sol.
Em tempos remotos, Baku foi um lugar de peregrinação para os adoradores do fogo. Até hoje, nos arredores da capital, junto à localidade de Surajana, continua ardendo a chama no templo dos adoradores do fogo "Ateshgiah". Também não faltam junto à cidade fenômenos naturais únicos em seu gênero, como ¿Yanar-dar¿, a montanha ardente que permanentemente cospe fogo.
O crescimento econômico dos últimos anos não só disparou o setor imobiliário, mas também ajudou a restaurar e embelezar a cidade. O bulevar da marinha, ao longo da baía de Baku, transformou-se, mas também conserva instalações e prédios que são parte da história do píer, como o Teatro de Bonecos, os restaurantes "Zhemhuzhina" e "Sahil", e a velha torre.
O governo local planeja estender o bulevar em ambas as direções da baía e muito em breve chegará até seu extremo sudeste, onde se estende a Praça da Bandeira. Ali ondeia a insígnia nacional azerbaijana na haste mais alta do mundo: 162 metros. A bandeira pesa 350 quilos, mede 35 metros de largura por 70 de comprimento.
A influência do Cáspio
O mar Cáspio não é só o tesouro de Baku e de todo o Azerbaijão devido às enormes reservas de gás, petróleo e recursos pesqueiros que abriga, mas também uma fonte de saúde para seus habitantes: as praias de areia da península de Apsheron, onde se encontra a capital, são o lugar de descanso predileto dos moradores locais. O mar também influi no espírito e na cultura de seus habitantes. As ondas do Cáspio, que se aproximam sigilosas da margem quando não há vento e que a castigam sem piedade durante as tempestades, inspiraram durante séculos poetas, pintores e músicos.
"Para mim, o Cáspio significa muito. Não somente é fonte de inspiração dos meus quadros, mas influi diretamente em meu estado de ânimo. A varanda do meu apartamento tem vista para o Cáspio. Quando o mar fica bravo, eu me inquieto. Quando há bom tempo, suas águas proporcionam uma sensação de placidez. Os reflexos dos raios do sol sobre a superfície do mar convidam ao romantismo", diz à Efe o pintor Faik Samedov, de 42 anos.
Não há morador que não seja apaixonado por sua cidade e pelo Cáspio, que junto com a parte antiga da capital imprimem a Baku seu colorido inigualável, fazendo o visitante voltar sem falta.
Outro atributo sem a qual Baku não seria Baku são as casas de chá. O chá é a bebida favorita dos habitantes da capital. No inverno, reconforta e ajuda a combater o frio; no verão, não há melhor refresco para matar a sede. O chá é servido em copos especiais chamados "armuda". Por terem a forma de pera, o chá esfria muito lentamente, o que permite desfrutar dele sem pressa. Os habitantes de Baku passam horas nas casas de chá, que são o lugar de reunião predileto. Geralmente, esta bebida é acompanhada de doces orientais.
Como toda cozinha oriental, a azerbaijana oferece uma grande variedade. Mas o "shah" (rei) de todos os pratos nacionais é o arroz com "Gara", que é carne, no geral, recheada com ervas ou com castanhas e frutos secos (abricós, uvas e ameixas passas).
O ritmo aprazível da cidade também é um atrativo. Além do bulevar da marinha, os pedestres são senhores da Praça das Fontes e da rua Nizami, que os habitantes continuam chamando de Comércio, nome que tinha até a instauração do poder dos sovietes, em 1920. Em sua reconstrução, os arquitetos cuidaram para que cada fonte, cada poste de luz, cada banco e cada novo detalhe fosse incorporado organicamente no conjunto que formam os magníficos prédios construídos no final do século XIX e começo do XX, monumentos arquitetônicos dos mais variados estilos.