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América Latina

Recrutamento acelerado de perfis 'hooligans' e falhas de treinamento colocam ICE sob críticas nos EUA

Após a comoção provocada pela morte de Alex Pretti, em 24 de janeiro de 2026, e a de Renee Good, algumas semanas antes, surgem nos Estados Unidos questionamentos sobre o perfil, o recrutamento e a formação dos agentes da polícia de imigração (ICE). Os dois eram cidadãos norte-americanos mortos a tiros por agentes federais.

29 jan 2026 - 13h58
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Romain Philips, da RFI

Soldados federais de imigração detêm um homem durante uma operação conduzida pelo ICE (Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos) e pela polícia de fronteiras em St. Paul, Minnesota, em 27 de janeiro de 2026, no contexto de reforço de ações federais no estado.
Soldados federais de imigração detêm um homem durante uma operação conduzida pelo ICE (Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos) e pela polícia de fronteiras em St. Paul, Minnesota, em 27 de janeiro de 2026, no contexto de reforço de ações federais no estado.
Foto: AFP - OCTAVIO JONES / RFI

No sábado (24), as imagens de Alex Pretti, um norte-americano de 37 anos morto por agentes da Border Patrol enquanto filmava uma abordagem policial em Minneapolis, circularam pelo mundo. Pouco antes, na mesma cidade, em 7 de janeiro, a morte de Renee Good — baleada dentro do carro por um agente do ICE — também causou repercussão internacional. Os dois casos ocorreram durante operações federais vinculadas ao que Donald Trump anunciou como "o maior programa de deportações da história" dos Estados Unidos.

Para viabilizar esse plano, o presidente norte-americano reforçou de forma inédita o ICE, um órgão até então pouco conhecido das forças de segurança. Seu orçamento saltou de US$ 10 bilhões antes da chegada de Trump ao poder para US$ 85 bilhões, montante que poderá ser gasto ao longo de até quatro anos.

O volume de recursos permitiu ao órgão lançar a maior campanha de recrutamento de sua história. Em 3 de janeiro, o ICE — que tinha cerca de 10 mil funcionários — comemorou um "aumento histórico de 120% do efetivo" e a contratação de 12 mil oficiais e agentes. Com isso, a corporação passou a ter mais novatos do que agentes experientes.

"Eles recrutam qualquer um"

A ofensiva levanta dúvidas sobre os critérios de seleção e a qualificação dos candidatos. "Esse é o problema do ICE hoje. Há metas de deportação gigantescas, que não são realistas com o efetivo atual, então eles precisam recrutar. E recrutam de qualquer jeito, pessoas com disposição para o confronto, com um perfil meio hooligan, colocando armas nas mãos delas", resume Lauric Henneton, professor da Universidade de Versailles Saint-Quentin-en-Yvelines e especialista em Estados Unidos.

Embora não seja possível traçar um perfil preciso dos recrutados, a própria campanha do ICE dá pistas do tipo de agente buscado. Na página inicial do site da instituição, aparece o Tio Sam — símbolo clássico do recrutamento militar na Primeira Guerra Mundial — apontando para o leitor e convocando-o a defender uma América "invadida por criminosos e predadores". "Precisamos de VOCÊ para caçá-los", diz a mensagem.

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Segundo documento revelado pelo Washington Post, o ICE foi ainda mais longe ao adotar o que chama de estratégia de "recrutamento em tempo de guerra". De acordo com o jornal, a campanha se espalhou pelas redes sociais com apelos a pessoas dispostas a cumprir seu "dever sagrado" e "defender a pátria" contra "invasores estrangeiros".

Vídeos inspirados em jogos de tiro em primeira pessoa, como Call of Duty, também foram divulgados, assim como anúncios que retratam migrantes como pokémons a serem capturados.

Para alcançar a meta de recrutar mais de 10 mil pessoas, o ICE recorreu ao chamado georreferenciamento, técnica que permite veicular anúncios em celulares de usuários localizados perto de bases militares, corridas da Nascar, campi universitários ou feiras de armas, segundo o documento.

O plano previa ainda direcionar a publicidade a pessoas interessadas em "assuntos militares e veteranos", "treinamento físico" e "noticiário e política conservadora", além de perfis com estilo de vida "patriótico" ou "de inclinação conservadora".

Também estavam no alvo ouvintes de "programas de rádio conservadores, música country e podcasts ligados ao patriotismo, a interesses masculinos e a notícias policiais", assim como seguidores de líderes conservadores, entidades pró-armas e marcas de equipamentos táticos, afirma o jornal.

Ações de recrutamento também são realizadas em estádios e em eventos específicos, como corridas da Nascar, competições do UFC (MMA) e rodeios.

O governo Trump tenta ainda atrair agentes aposentados, oferecendo bônus de retorno e a possibilidade de acumular salário e aposentadoria. "Você serviu os Estados Unidos da América com distinção e honra. Hoje, seu país volta a chamá-lo", diz o site do ICE.

"Inexperiência e falta de treinamento"

Para facilitar o alistamento, o ICE promete bônus de contratação de até US$ 50 mil e reembolso de dívidas estudantis. Também eliminou o limite de idade, permitindo candidaturas a partir dos 18 anos. "Há pessoas experientes entre os recrutados, mas também jovens que podem ter o dedo fácil no gatilho", alerta a historiadora e especialista em Estados Unidos Nicole Bacharan.

A preocupação é compartilhada por John Sandweg, ex-diretor do ICE no governo Barack Obama, sobretudo porque o tempo de formação dos novos agentes foi reduzido de cerca de cinco meses para apenas 42 dias. "O problema não é só onde e como eles foram recrutados, mas o rebaixamento dos critérios de seleção. Os padrões de treinamento também foram reduzidos para colocar rapidamente esses agentes nas ruas, basicamente para aumentar o número de prisões", afirmou à emissora MS Now.

Sobre as mortes em Minneapolis, Sandweg avalia que os agentes "se viram em situações nas quais nunca deveriam ter estado. Não é para isso que são treinados". E conclui: "Cada caso é diferente, mas, no fundo, todos revelam um problema de inexperiência e de falta de treinamento".

Em nota, o governo Trump afirmou ter "otimizado a formação para eliminar redundâncias e incorporar avanços tecnológicos, sem sacrificar o conteúdo essencial do programa". Enquanto isso, cresce a indignação diante de uma polícia de imigração envolvida em episódios cada vez mais frequentes de uso excessivo da força.

"Resta saber se haverá algum controle sobre a qualificação dos membros do ICE. É possível imaginar que isso aconteça, mas por enquanto não há nenhum anúncio nesse sentido", conclui Nicole Bacharan.

RFI A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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