Los Zetas usam vácuo de poder para aterrorizar Guatemala
- Carlos Arrazola
- Da agência EFE
As autoridades da Guatemala reconhecem que os Zetas assentaram nas zonas do norte e nordeste do país sua principal base de operações, como resultado da política de 'fumigação' impulsionada pelo governo do México contra os cartéis do narcotráfico que lá operam.
No entanto, os analistas locais apontam que, mais do que buscar refúgio na Guatemala, os Zetas se apoderaram dos territórios "com uma visão estratégica", para controlar as rotas terrestres do tráfico de drogas procedentes da América do Sul, cujo destino final é os Estados Unidos, maior consumidor mundial de entorpecentes.
Da mesma forma como fez no México, o cartel dos Zetas assumiu o controle de povoados inteiros na Guatemala. Eles subornam as forças de segurança e as autoridades locais, obrigam os camponeses e pescadores pobres a trabalharem para sua organização e, com ameaças, semeiam o medo nessas comunidades.
Este grupo de criminosos surgiu em meados dos anos 90 com cerca de 40 militares que desertaram do Grupo Aeromóvel de Forças Especiais (Gafe), uma unidade de elite do Exército mexicano treinada para realizar operações contrainsurgentes.
A organização foi incorporando jovens delinquentes mexicanos, que se profissionalizaram no crime, e se fortaleceu com antigos militares guatemaltecos, ex-integrantes da unidade de elite Kaibiles, responsável por inúmeros massacres cometidos contra tribos indígenas durante a guerra civil que atingiu a Guatemala entre 1960 e 1990.
Dois mil homens
Não se sabe com exatidão a quantidade de Zetas que atuam na Guatemala, mas, segundo o ministro do Interior do país, Carlos Menocal, eles superam os 2 mil homens. Embora seu principal objetivo tenha sido se apoderar do território nacional, relatórios do Departamento Antidrogas dos Estados Unidos (DEA) indicam que o cartel também está presente na Nicarágua, Honduras e El Salvador, países por onde transportam drogas em coordenação com os traficantes sul-americanos.
Fontes da Polícia Nacional Civil (PNC) reconhecem que, nos povoados onde o grupo está presente, "o crime diminuiu". Armados com modernos fuzis de assalto - muitos dos quais compraram de membros do Exército guatemalteco, que, por sua vez, roubaram dos arsenais oficiais -, os Zetas se locomovem em caminhonetes modernas, a maioria comprada - ou roubada - no México, e utilizam avançados meios de comunicações.
Desde o início deste ano, segundo denúncias publicadas na imprensa local, em várias comunidades do nordeste do país, os Zetas implementaram uma espécie de "toque de recolher" a partir das 21h. O controle das ruas dessas localidades fica nas mãos do Exército paralelo e clandestino em que se transformou esse cartel na Guatemala.
O Estado nega ter perdido o controle desses territórios, mas os prefeitos das localidades afetadas reconhecem à imprensa que quem manda nesses lugares são os Zetas.
O início
A ação que é considerada a estreia desse grupo na Guatemala ocorreu em 25 de março de 2008, quando assassinaram a tiros 11 membros de um grupo local que até então tinha sob seu controle as rotas de passagem de drogas no nordeste do país.
A partir desse fato, em que morreu o suposto narcotraficante guatemalteco Juan José León, conhecido como "Juancho", os Zetas assumiram o controle dessa área e deram repetidas demonstrações de seu poder sanguinário.
Um mês depois, aquele que era então considerado o segundo no comando do cartel, o mexicano Daniel Pérez Rojas, conhecido como "El Cachetes", junto a outros cinco membros da organização, foram capturados pelas forças de segurança da Guatemala.
No dia 11 de setembro do ano passado, um tribunal penal do país condenou "El Cachetes" a 43 anos de prisão pelos crimes de tráfico e armazenamento ilícito de drogas, transporte de munição de armas de fogo e associação criminosa. Com a mesma pena e pelos mesmos crimes foram condenados os mexicanos Pablo García, Arturo Catalán, Manuel Cárdenas e Mario Lima.
Estado de sítio
Segundo as forças de segurança, os Zetas têm presença em pelo menos dez dos 22 Departamentos da Guatemala, principalmente os que fazem fronteira com México, Belize e Honduras. Nestes dois últimos países, segundo relatórios do DEA, entram todo ano mais de 20 toneladas de cocaína provenientes da América do Sul, que depois é transferida ao México e, em seguida, aos Estados Unidos.
Com poder de fogo, eles conseguiram desarticular os grupos locais que controlavam as rotas do narcotráfico, ou se aliaram a eles. Embora seu principal negócio seja o tráfico de drogas, também investem no de armas e de pessoas, sequestros, extorsões e violações.
"Atuam com impunidade absoluta. Sequestram as mulheres que querem, estupram-nas e depois as abandonam pelas estradas. Eles obrigam os fazendeiros a venderem suas terras e os camponeses a trabalharem para eles", indicou uma fonte da Presidência guatemalteca.
Segundo a fonte, eles inclusive "compram" os policiais das áreas onde atuam para não serem impedidos de praticar os crimes que cometem.
Após aceitar o fato de o Estado ter perdido o controle no Departamento de Alta Verapaz, o presidente guatemalteco, Álvaro Colom, após vários meses de trabalho de inteligência das agências do governo, decretou em 19 de dezembro passado estado de sítio na região, considerada base de operações de Los Zetas.
Mais de 500 soldados e agentes da PNC foram destacados desde então para esse vasto território, pelo qual os narcotraficantes transportam a droga que chega de Honduras pelo mar do Caribe e é levada via terrestre ao México.
Como resposta a esta medida oficial, supostos membros do cartel ameaçaram na última semana de dezembro cometer ataques contra civis em Alta Verapaz caso o governo não suspendesse o estado de sítio.
Por emails e mensagens de texto enviadas aos jornalistas desse Departamento, os supostos criminosos disseram que fariam ataques a shoppings e lugares públicos se as forças de segurança mantivessem as operações contra os narcotraficantes.
O porta-voz do Ministério do Interior, Nery Morales, disse que as operações das forças de segurança para "recuperar a governabilidade" em Alta Verapaz continuarão durante o tempo que for necessário. Ele advertiu que "não será atendida" nenhuma ameaça dos grupos criminosos.
Embora a medida tenha sido considerada "necessária" inclusive pelos partidos de oposição, há analistas locais que duvidam que ela seja suficiente para ganhar a guerra contra esse sanguinário cartel.