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África

Ruanda: presidente ataca França após 20 anos de genocídio

Ato oficial do aniversário da tragédia que matou mais de 800 mil pessoas foi marcado por críticas de presidente do país africano à França e da ONU que assumiu que podia ter "feito mais"

7 abr 2014 - 10h47
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Presidente da Ruanda, Paul Kagame, e o Secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon depois de cerimônia para recordar 20 anos do genocídio
Presidente da Ruanda, Paul Kagame, e o Secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon depois de cerimônia para recordar 20 anos do genocídio
Foto: Reuters

O presidente de Ruanda, Paul Kagame, atacou a França nesta segunda-feira, ao declarar que é impossível "mudar os fatos" sobre o genocídio ocorrido há 20 anos em seu país.

"A passagem do tempo não deve obscurecer os fatos, diminuir a responsabilidade ou transformar as vítimas em vilões", disse em um discurso durante um ato oficial do aniversário da tragédia.

"As pessoas não podem ser subornadas ou forçadas a mudar sua história e não há nenhum país suficientemente poderoso, inclusive quando acreditam que são, para mudar os fatos. Afinal de contas, 'les faits sont tetus' (os fatos são teimosos)", completou, com a última frase falada em francês, o que provocou muitos aplausos no estádio nacional de Kigali.

O aniversário é marcado por uma polêmica a respeito da suposta cumplicidade da França no genocídio, que matou 800.000 pessoas em 100 dias, em sua maioria da etnia tutsi minoritária.

Paris anulou a participação de um ministro nos atos oficiais em resposta às novas acusações de Kagame e o embaixador da França foi excluído nesta segunda-feira das cerimônias.

O presidente ruandês acusou a França, em uma entrevista publicada durante o fim de semana, de ter desempenhado um "papel direto na preparação do genocídio" e de ter "participado de sua execução".

A França, aliada do governo nacionalista hutu antes de 1994, sempre negou qualquer cumplicidade no genocídio.

ONU: genocídio é uma vergonha

A Organização das Nações Unidas (ONU) continua sentindo, 20 anos depois, "vergonha" por não ter conseguido impedir o genocídio em Ruanda, afirmou nesta segunda-feira em Kigali o secretário-geral Ban Ki-moon, no início das cerimônias oficiais de recordação do aniversário da tragédia.

Secretário Geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon, presidente de Ruanda, Paul Kagame e sua esposa Jeannette Kagame, e presidente da Comissão Nkosazana, Dlamini Zuma Africano, acendem chama em celebração do 20 º aniversário do genocídio de Ruanda. Estima-se que 800 mil pessoas foram mortas em 100 dias durante o genocídio.
Secretário Geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon, presidente de Ruanda, Paul Kagame e sua esposa Jeannette Kagame, e presidente da Comissão Nkosazana, Dlamini Zuma Africano, acendem chama em celebração do 20 º aniversário do genocídio de Ruanda. Estima-se que 800 mil pessoas foram mortas em 100 dias durante o genocídio.
Foto: Reuters

"Nós deveríamos ter conseguido fazer muito mais. Deveríamos ter feito muito mais. Em Ruanda, as tropas foram retiradas quando eram mais necessárias. A vergonha ainda existe, uma geração depois dos eventos".

O secretário-geral também afirmou que ONU "poderia" e "deveria" ter feito "muito mais" em Ruanda para impedir as 800 mil mortes no genocídio de 1994.

"Muitos membros da ONU mostraram uma coragem extraordinária, mas poderíamos ter feito muito mais. Deveríamos ter feito muito mais", admitiu Ban, na cerimônia realizada hoje em Kigali em memória das vítimas para comemorar o vigésimo aniversário do massacre.

O secretário-geral se felicitou, no entanto, de que Ruanda tenha "demonstrado ao mundo que a transformação é possível", em seu discurso a milhares de ruandeses reunidos no Tutsi Amahoro Stadium da capital ruandesa, onde 12 mil pessoas se refugiaram durante o massacre ocorrido há 20 anos.

"Quando virem pessoas em risco e vítimas de atrocidades, não esperem instruções de longe", disse Ban, em alusão aos funcionários da ONU.

AFP Todos os direitos de reprodução e representação reservados. 
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