Militares tomam o controle na Guiné-Bissau na véspera da divulgação de resultados eleitorais
Um grupo de oficiais que se autodenomina "Alto Comando Militar para a Restauração da Ordem" afirmou ter assumido o controle da Guiné-Bissau até "segunda ordem" e ter fechado as fronteiras do país. A operação ocorre na véspera da divulgação dos resultados das eleições presidenciais e legislativas realizadas no domingo (23).
No início da tarde, o general Denis N'Canha, chefe da Casa Militar presidencial, sentado atrás de uma mesa e cercado por soldados armados, anunciou à imprensa, no quartel-general do Exército, que um "Alto Comando para a Restauração da Ordem, composto por todos os ramos das Forças Armadas", assumiria o "controle do país até segunda ordem", relataram jornalistas da AFP presentes no local.
"O que nos levou a fazer isso foi garantir a segurança nacional e também restaurar a ordem", acrescentou o general, referindo-se à descoberta, pela "Direção-Geral de Inteligência", de um "plano para desestabilizar o país com o envolvimento de narcotraficantes nacionais".
A Direção-Geral de Inteligência "confirmou a introdução de armas no país para alterar a ordem constitucional", acrescentou.
O general também anunciou a suspensão de "todo o processo eleitoral", o fechamento das "fronteiras terrestres, aéreas e marítimas" e a imposição de um "toque de recolher obrigatório".
"O exercício da autoridade do comando começa hoje. O comando faz um apelo à população para que mantenha a calma", acrescentou.
Situação calma
A situação está calma nas ruas, de acordo com uma fonte da RFI no país, e vários membros da Guarda Presidencial ocupam rotas estratégicas que levam ao palácio presidencial.
Ao meio-dia, um intenso tiroteio foi presenciado ao redor do palácio, e um oficial superior confirmou aos jornalistas que prisões foram efetuadas.
O presidente, Umaro Sissoco Embaló, considerado o favorito nas eleições, estaria em um prédio atrás do quartel-general do Exército, "com o Chefe do Estado-Maior e o ministro do Interior", afirmou um oficial, sob condição de anonimato. A informação ainda não foi confirmada oficialmente.
A Comissão Eleitoral Nacional (CNE) também foi atacada por homens armados não identificados na quarta-feira, segundo responsáveis pela comunicação do órgão.
Na terça-feira (25), tanto o grupo de Embaló quanto o do candidato da oposição, Fernando Dias da Costa, reivindicaram a vitória na eleição presidencial, embora os resultados provisórios oficiais fossem esperados na quinta-feira.
Eleição contestada
A eleição presidencial, que ocorreu pacificamente no domingo, foi realizada sem o principal partido da oposição, o PAIGC, e seu candidato, Domingos Simões Pereira.
O PAIGC, partido histórico que liderou o país à independência pela força em 1974, foi excluído — também devido ao atraso na apresentação de sua candidatura — das eleições legislativas, que visam eleger os 102 membros do Parlamento.
A oposição denunciou a exclusão do PAIGC das eleições presidenciais e legislativas como "manipulação". O anúncio dos resultados eleitorais frequentemente provoca protestos na Guiné-Bissau. A eleição presidencial anterior, em 2019, levou a vários meses de crise pós-eleitoral, com Embaló e seu oponente Pereira reivindicando a vitória.
Com quase 40% de sua população vivendo abaixo da linha da pobreza, a Guiné-Bissau está entre os países mais pobres do mundo. É conhecida por ser um centro de tráfico de drogas entre a América do Sul e a Europa, facilitado pela instabilidade política.
O país já sofreu quatro golpes de Estado e uma série de tentativas de golpe desde a sua independência.
A África Ocidental tem presenciado uma série de golpes militares desde 2020, no Mali, Burkina Faso, Níger e Guiné-Conacri.
RFI e AFP