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Menos horas, mais vida: debate sobre escala 5x2 também envolve mudanças climáticas e desigualdade

Relatório elaborado por coalizão internacional de pesquisadores conclui que trabalhar menos pode ser parte da solução minimizar impactos da emergência climática, da desigualdade extrema e da perda de qualidade de vida

18 jun 2026 - 11h34
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A proposta de reduzir a jornada de trabalho voltou ao centro do debate público brasileiro. Mas, além das discussões sobre produtividade, custos e competitividade, existe uma pergunta que raramente aparece nesse debate: o que a jornada de trabalho tem a ver com a crise climática?

Nas últimas semanas, discussões sobre o fim da escala 6x1 e a adoção de modelos que garantam mais tempo de descanso mobilizaram sindicatos, empresários, parlamentares e milhões de trabalhadores. Grande parte das análises tem se concentrado nos impactos econômicos da medida: empresas conseguirão se adaptar? A produtividade cairá? Os custos aumentarão?

Mas reside aí um outro ponto pouco discutido, para além da questão da saúde e do bem estar dos trabalhadores: o que a jornada de trabalho tem a ver com a crise climática?

À primeira vista, nada. Afinal, trabalho, produtividade e mudança do clima costumam ser tratados como temas separados. No entanto, um relatório internacional lançado recentemente sugere exatamente o contrário.

O Global Justice Report, elaborado por uma coalizão internacional de pesquisadores ligados ao World Inequality Lab, de Thomas Piketty, propõe um caminho para enfrentar simultaneamente três dos maiores desafios do século XXI: a emergência climática, a desigualdade extrema e a perda de qualidade de vida. E uma das conclusões mais provocativas do estudo é que trabalhar menos pode ser parte da solução.

Isso porque vivemos em uma época de enorme capacidade produtiva. Hoje, a tecnologia permite produzir mais alimentos, mais bens e mais serviços do que em qualquer outro momento da história. Além da inteligência artificial que avança rapidamente e a automação com as máquinas que substitui tarefas repetitivas. Com isso, a produtividade cresce em diversos setores.

Diante desse cenário, seria razoável imaginar que, com esses avanços, as pessoas estariam trabalhando menos e desfrutando mais tempo livre. E essas novas variáveis deveriam entrar na equação de como estamos nos organizando economicamente. Mas não é isso que acontece.

Em muitos países, inclusive no Brasil, milhões de pessoas continuam enfrentando jornadas longas, deslocamentos exaustivos, dificuldade para conciliar trabalho e família e uma crescente sensação de falta de tempo. Paradoxalmente, quanto mais produtiva a economia se torna, mais escasso parece ser o tempo, e o relatório parte justamente dessa contradição.

Ele propõe que em vez de utilizar os ganhos de produtividade para ampliar continuamente a produção e o consumo, empregadores poderiam direcionar parte desses ganhos para algo cada vez mais raro: oferecer tempo livre. Tempo para cuidar dos filhos, dos pais idosos, da própria saúde, da participação comunitária, do aprendizado e do descanso.

Conceito de suficiência

Mas o que isso tem a ver com o clima? A resposta está no conceito de suficiência. Em termos simples, uma economia que depende menos da expansão contínua da produção e do consumo tende a exigir menos extração de recursos, menos energia e menos emissões para sustentar o bem-estar da população.

Durante décadas, as estratégias econômicas foram construídas em torno de uma lógica simples: crescer continuamente. O que significa: produzir mais, consumir mais, e extrair mais recursos. Expandir mais mercados. Essa lógica ajudou a gerar riqueza, mas também contribuiu para a crise climática, para a perda de biodiversidade e para o aumento das desigualdades.

O Global Justice Report propõe outra pergunta: quanto é suficiente para garantir uma vida boa para todos?

Por mais que a mudança de pergunta pareça pequena, ela altera profundamente a forma como entendemos desenvolvimento. Já que em vez de perseguir o crescimento material infinito, a proposta é garantir que todas as pessoas tenham acesso a condições dignas de vida dentro dos limites ecológicos do planeta.

Nesse cenário, prosperidade deixa de ser sinônimo de acumulação permanente e passa a ser medida pela capacidade de viver bem.

O relatório mostra que essa transição não depende apenas de energias renováveis ou tecnologias mais eficientes. Ela exige mudanças na forma como distribuímos renda, riqueza e também tempo.

The Conversation
The Conversation
Foto: The Conversation

Carol Tomaz não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.

The Conversation Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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