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Meio ano após início da guerra, EUA trocam impasse militar por ofensiva econômica contra o Irã

28 ago 2026 - 06h35
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Resumo
Seis meses após o início da guerra, os EUA trocaram o impasse militar por uma ofensiva econômica para forçar o Irã a negociar. Apesar dos danos e da morte de Khamenei, o regime iraniano mantém capacidade bélica e ameaça o Estreito de Ormuz. Diante do desgaste militar mútuo e da queda de popularidade de Donald Trump pelo impacto da inflação, Washington aposta em sanções severas na tentativa de encerrar um conflito desgastante que permanece sem previsão de término.

Guerra que duraria apenas quatro semanas, segundo Donald Trump, completa seis meses e sem um sinal de estar próxima do fim.Quando os primeiros caças americanos e israelenses cruzaram o céu do Irã em 28 de fevereiro, a promessa da Casa Branca era de um conflito resolvido em quatro semanas. Seis meses depois, não há um acordo de paz à vista: o Irã continua contra-atacando, o Estreito de Ormuz permanece no centro do impasse e os Estados Unidos passaram a apostar em pressão econômica para tentar forçar Teerã a ceder.

Apesar das sucessivas declarações de Donald Trump alegando ter "derrotado" o adversário, Teerã mantém a capacidade de contra-atacar. Nem mesmo a morte do líder supremo Ali Khamenei - que governou o Irã por mais de 35 anos -, logo na fase inicial da ofensiva, foi suficiente para provocar o colapso do regime.

Militarmente, segundo analistas, Washington conseguiu causar danos severos à infraestrutura iraniana. Mas os objetivos estratégicos originaisapresentados pelo governo americano continuam incertos ou distantes, como impedir que o Irã desenvolva uma arma nuclear e limitar o apoio de Teerã a grupos armados aliados na região.

A mudança mais significativa dos últimos meses está justamente na estratégia americana: depois de uma campanha militar que não produziu o efeito esperado de vitória para a Casa Branca, Washington tenta agora pressionar a economia iraniana até que o governo de Teerã aceite negociar.

Programa nuclear iraniano

Impedir que o Irã obtenha uma arma nuclear é um dos principais objetivo declarados por Trump para a guerra. Mas, seis meses depois, ainda não é possível determinar com certeza quanto da capacidade nuclear iraniana foi destruída.

Segundo a agência de notícias Reuters, avaliações da inteligência dos EUA em maio estimavam que o chamado "tempo de ruptura nuclear" (breakout time) do Irã - o período necessário para produzir material físsil suficiente para uma bomba - havia aumentado para até um ano, ante até seis meses antes da guerra.

O problema, diz a agência, é que o verdadeiro estado do programa nuclear iraniano permanece incerto já que os inspetores da ONU ainda não retornaram aos locais nucleares do país. "A Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) não consegue verificar a localização de aproximadamente 440 quilos de urânio enriquecido a até 60% desde os ataques de 2025", diz a Reuters.

O Irã há muito tempo nega que esteja buscando desenvolver uma bomba nuclear.

O Estreito de Ormuz

Um dos pontos centrais de pressão durante todo o conflito é o Estreito de Ormuz. A via, por onde transita cerca de 20% do petróleo global, não era um dos alvos originais de Trump, mas foi, e segue sendo, utilizada por Teerã como arma de retaliação econômica e política.

A interrupção do tráfego fez os preços de energia dispararem e aumentou os temores de inflação e desaceleração econômica. Ao mesmo tempo, o impacto sobre a economia mundial foi menor do que alguns dos cenários mais pessimistas previam.

Mundialmente, o Fundo Monetário Internacional (FMI) reduziu sua previsão de crescimento global duas vezes desde o início da guerra e agora espera que a economia mundial cresça 3% este ano, em comparação com sua previsão de 3,3% para janeiro.

O impacto na economia global, porém, foi menor do que o esperado por alguns analistas, com a economia mostrando maior resiliência, menor dependência energética e com a tecnologia ajudando a mitigar os impactos da interrupção em comparação a outros choques de petróleo.

Agora, porém, segue um novo capítulo do conflito: a disputa sobre o local, já que Trump afirmou na última semana que planeja declarar Ormuz um "território dos EUA" depois de derrotar o Irã. A declaração não veio acompanhada de detalhes sobre como isso poderia ocorrer e aumenta a tensão em torno do futuro da via marítima.

Enfraquecimento de ambos os lados

Após seis meses de hostilidades, tanto o Irã quanto os Estados Unidos também enfrentam desgaste da estrutura militar.

Se por um lado o exército e a economia do Irã sofreram danos severos, por outro, pressionado pelo estoque cada vez mais limitado de armamentos, o Pentágono passou a buscar ideias "criativas e não convencionais" para tentar mover o front, segundo uma reportagem da CNN.

Do lado americano, de acordo com relatório do Serviço de Pesquisa do Congresso, a guerra entre EUA e Irã resultou na perda de 42 aeronaves militares americanas.

A guerra também consumiu grandes quantidades de mísseis interceptadores e outras armas de precisão, aumentando a preocupação com a capacidade dos EUA de sustentar uma campanha prolongada e, ao mesmo tempo, manter recursos disponíveis para outras regiões do mundo, como no caso noticiado no início deste mês pelo jornal Washington Post.

Do lado iraniano, o principal comandante militar dos EUA para o Oriente Médio, almirante Brad Cooper, declarou ao Congresso em maio que a capacidade do Irã de fabricar e estocar mísseis e drones de longo alcance havia sofrido um retrocesso de anos, afirmando que mais de 1.500 mísseis e 6 mil drones foram interceptados.

Avaliações de serviços de inteligência ocidentais, no entanto, indicam que nem os estoques nem a indústria de mísseis de Teerã foram "aniquilados".

Vale lembrar que, ao atacar o Irã em fevereiro, Trump havia delineado objetivos como a troca de regime, o fim do programa nuclear e acabar com o apoio iraniano aos houthis no Iêmen e ao Hezbollah, no Líbano. Até agora, contudo, bilhões de dólares foram gastos, milhares morreram e pouco do plano inicial foi alcançado.

O custo político para Trump

A guerra também se tornou um problema doméstico para Trump. A disparada no valor dos combustíveis repercutiu diretamente na economia americana, corroendo a popularidade de Trump, que recuou de 40% para 33% desde o início do conflito, segundo pesquisas Reuters/Ipsos.

O encarecimento enfraqueceu a principal promessa eleitoral do republicano em 2024: reduzir o custo de vida para os americanos.

O conflito também conta com baixo apoio popular: apenas 31% dos americanos aprovam a intervenção militar, segundo a pesquisa - patamar inferior ao de conflitos recentes, como a guerra no Afeganistão, que manteve aprovação acima de 50% por anos.

O problema é agravado pela proximidade das eleições legislativas de meio de mandato, as chamadas midterms, em novembro, quando Trump defenderá maiorias no Congresso em meio ao desgaste político de uma guerra sem prazo para terminar.

A nova rota: guerra de asfixia financeira

Diante do desgaste no campo de batalha e da pressão interna, o governo americano anunciou uma recalibragem estratégica: a "Operação Pária Econômico".

Apresentada pelo secretário do Tesouro, Scott Bessent, nesta segunda-feira (24/08), a nova cartada visa cortar o fluxo de dinheiro para o país. O plano mira cinco setores estratégicos: criptomoedas, tecnologias militares, reservas de ouro, aviação do país e rotas de transporte de componentes de armas e petróleo. Washington também ameaça impor sanções secundárias a países que continuem a negociar com os iranianos.

A Casa Branca classifica a medida como uma "campanha sem precedentes para cortar todas as fontes de sustentação econômica remanescentes" do regime, afirmando que o país entra na "reta final com a maior ofensiva financeira já lançada contra um adversário".

Mas a eficácia do plano foi recebida com ceticismo por especialistas, visto que Washington não estabeleceu prazos nem detalhes de como pretende punir parceiros comerciais estratégicos do Irã, como China e Rússia. Além disso, trata-se de mais uma das sucessivas alegações de que a guerra estaria próxima do fim.

Em Teerã, o ministro da Economia, Ali Madanizadeh, afirmou à televisão estatal que o país já previa a ofensiva. "Já esperávamos por esses planos há muito tempo; o governo está, e sempre esteve, preparado e conta com um plano de dois anos para lidar com essas situações", disse o chefe da pasta.

Com o regime de pé, estoques militares sob pressão e o eleitor americano sentindo o impacto no bolso, a tentativa de Trump de fechar o conflito via sufocamento financeiro expõe as limitações de uma guerra que segue sem prazo para acabar.

lm/cn (EFE, Reuters)

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