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Doria descarta volta à vida pública, nega mágoa e diz que maior aprendizado da política foi ter "mais paciência para ouvir"

Ex-governador de São Paulo afirmou que gostaria 'muito que o País pudesse ter uma opção que não fosse dos extremos'

25 ago 2026 - 04h58
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Doria descarta volta à vida pública, nega mágoa e diz qual foi seu maior aprendizado na política:

Aos 68 anos, João Doria diz não ter planos de voltar à política. Com um vasto currículo entre a administração pública, os negócios e a política, ele diz que seu futuro não está nas urnas e que não pretende mudar de decisão, ao menos por enquanto, encerrando a possibilidade de um novo capítulo eleitoral para um dos personagens que mais movimentaram a política paulista e o PSDB na última década.

  • Momento da Decisão vai colocar frente a frente os principais candidatos à Presidência no dia 14 de setembro, às 22h, em debate promovido pelo Terra e outros 10 veículos

“Não tenho mágoa, não tenho ressentimento, mas não quero mais retornar à vida pública e nem disputar nenhum mandato”, afirmou Doria, que deixou o PSDB em 2022, após não conseguir concretizar sua candidatura à Presidência da República.

João Doria durante o 25º Fórum Lide Empresarial, realizado no Rio de Janeiro
João Doria durante o 25º Fórum Lide Empresarial, realizado no Rio de Janeiro
Foto: Evandro Macedo e Gabriel Okawa/LIDE

Na entrevista ao Terra, o ex-tucano fez um balanço da sua trajetória na política, que começou com a vitória para prefeito de São Paulo em 2016 e depois a eleição para o governo paulista em 2018. Na época, Doria se aproximou de Jair Bolsonaro (PL) e aderiu ao movimento “BolsoDoria”, defendendo o voto em Bolsonaro para a Presidência durante o segundo turno.

A aliança, porém, não resistiu à pandemia de covid-19. Doria e Bolsonaro passaram a adotar posições opostas sobre as medidas de combate à doença, as restrições e a vacinação. O embate também ganhou contornos pessoais, com troca de críticas públicas. O empresário chegou a chamar o ex-presidente de “louco” e afirmou que o Brasil enfrentava dois vírus, o coronavírus e o “Bolsonarovírus”. 

“Como governador: sempre você pode melhorar. Eu sempre tive um espírito crítico em relação a mim, e humildade para reconhecer os meus erros, meus equívocos, assim como para lembrar as qualidades”, argumentou.

Para ele, uma das principais lições dos anos no governo foi aprender a ouvir mais.

“Eu acho que eu podia ter ouvido mais. A política você aprende muito ouvindo. Eu vinha do setor privado, setor privado você está mais acostumado a agir. Então a grande lição foi: ouça mais. Tenha mais paciência para ouvir, sem perder o ímpeto de agir, tá? Essa foi a grande lição.”

Ainda ao falar sobre seu mandato, Doria também descreveu o que achou das falas recentes de Fernando Haddad (PT), que citou o ex-governador de forma elogiosa durante debate eleitoral da Band neste ano. “Eu fiquei sensibilizado porque eu disputei a eleição [para prefeito de São Paulo] com ele e o venci. Eu jamais esperaria que ele pudesse ter o gesto de fazer uma referência positiva a mim em um debate eleitoral em São Paulo, o que demonstra a qualidade também democrática de Haddad, e eu respeito isso.”

Apesar de estar afastado das disputas por cargos, sua trajetória empresarial e política mantém vínculos com diferentes nomes da política e de outras instituições. Ao longo dos anos, construiu relações com políticos e autoridades, inclusive integrantes do alto escalão do Judiciário, que ainda hoje aparecem em eventos empresariais promovidos por ele. No Fórum Lide Empresarial, na semana passada, Doria analisou a eleição presidencial de 2026 e defendeu que uma eventual disputa entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), caso os dois cheguem ao segundo turno, seja marcada pela apresentação de propostas, e não por ataques pessoais. Ele afirmou que gostaria "muito que o País pudesse ter uma opção que não fosse dos extremos, nem da extrema direita, nem da extrema esquerda", por acreditar que não se constrói "uma nação no radicalismo".

“Eu espero que eles possam fazer, sobretudo no segundo turno, uma campanha construtiva e não de ataques. O Brasil precisa conhecer as propostas, tanto do presidente Lula para um novo mandato, quanto de Flávio Bolsonaro, caso conquiste o seu mandato”, declarou à reportagem.

No papo com a reportagem, Doria lembrou a sua campanha à Prefeitura de São Paulo, em 2016, quando começou com apenas 1% das intenções de voto em uma pesquisa Datafolha realizada oito meses antes da eleição. O episódio serviu de exemplo para reforçar sua defesa de que os candidatos participem dos debates. “Eu aceitei todos os convites para participar de todos os debates. Foram vários, mais até do que neste presente momento. Hoje há um verdadeiro consórcio de veículos de comunicação; naquela época não, cada veículo fazia o seu debate.”

João Doria durante o 25º Fórum Lide Empresarial, realizado no Rio de Janeiro
João Doria durante o 25º Fórum Lide Empresarial, realizado no Rio de Janeiro
Foto: Evandro Macedo e Gabriel Okawa/LIDE

A estratégia foi mantida mesmo depois de assumir a liderança nas pesquisas. Nesse cenário, Doria terminou eleito no primeiro turno, com 53% dos votos, derrotando o então prefeito Fernando Haddad (PT), candidato à reeleição. Celso Russomanno (PRB) e Marta Suplicy (PMDB) ficaram na sequência.

A mesma postura, destaca Doria, foi adotada na disputa pelo governo de São Paulo, quando também participou de todos os debates para os quais foi convidado.

"Pessoalmente entendo que os candidatos deveriam participar dos debates e não temer o debate. O fato de você ter uma posição melhor ou de ter posições, vamos dizer, antagônicas, na minha opinião, não justifica a ausência em um debate. Eu acho desrespeitoso você não estar participando de um debate democrático, desde que as regras sejam claras e previamente discutidas entre os candidatos."

Um homem conhecido pela pontualidade e pelo perfeccionismo

Doria começou a circular pela administração pública ainda nos anos 1980. Em 1983, assumiu a Secretaria de Turismo de São Paulo e, em 1986, tornou-se presidente da Embratur e do Conselho Nacional de Turismo durante o governo de José Sarney.

A carreira empresarial, entretanto, seria fundamental para a imagem que levaria às urnas décadas depois. Doria fundou o Lide, grupo que reúne empresários e lideranças do setor privado, e tornou-se uma figura conhecida nacionalmente também por sua atuação na televisão. Foi apresentador do programa O Aprendiz, espaço que ajudou a consolidar sua imagem pública como um executivo rigoroso e voltado para resultados.

A imagem dele é, em boa medida, construída nos detalhes. A aparência sempre impecável, o tom de voz geralmente baixo e a maneira cuidadosa de se comunicar convivem com uma personalidade descrita como exigente e extremamente atenta à execução das tarefas.

A pontualidade é uma das características mais associadas a Doria -- e, como repórter, posso reforçar essa impressão. Cobrindo política há alguns anos, lembro que, quando ele era governador, os eventos que marcava começavam pontualmente. Foi um dos poucos políticos que acompanhei de perto que, de fato, cumpriam o horário previsto.

Ao longo da carreira política, Doria chegou a estabelecer punições para secretários que se atrasassem em compromissos oficiais. Quando era prefeito, anunciou uma multa de R$ 200 a cada 15 minutos de atraso para integrantes do primeiro escalão que não cumprissem os horários. O dinheiro arrecadado seria destinado a um fundo ligado à Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania e, posteriormente, doado a instituições de caridade.

A exigência também aparece na forma como organiza os próprios eventos. No 25º Fórum Lide Empresarial, essa característica voltou a chamar atenção. O senador Rodrigo Pacheco, do PSD, chegou depois do início de um dos painéis dos quais participaria e brincou sobre o atraso ao subir ao palco. Disse que estava com medo de se atrasar justamente por saber o quanto o ex-governador é pontual. Doria costuma defender que cumprir o horário é uma forma de respeito com quem participa de seus compromissos.

O perfeccionismo, segundo pessoas que acompanharam sua rotina, se soma à cobrança por resultados. A diferença é que essa exigência costuma vir acompanhada de uma postura controlada. Doria não eleva a voz ou perde a compostura ao orientar equipes, segundo seus funcionários, mesmo quando cobra mudanças na execução de uma atividade. 

*A repórter viajou ao Rio de Janeiro a convite da Lide Empresarial

Fonte: Portal Terra
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