Mais de 55% da vegetação nativa do Cerrado, um dos Ecodomínios mais ricos e ameaçados do mundo, já foi perdida
O Cerrado cobre 24% do território nacional e sustenta grande parte das principais bacias hidrográficas do país, mas historicamente tem sido deixado de lado nas discussões sobre conservação
Uma revisão detalhada, que sintetiza décadas de pesquisas, alerta que o Cerrado brasileiro, conhecido por suas vastas "florestas invertidas" e considerado um dos Ecodomínios mais ricos da Terra, está sob ameaça intensa.
Publicada na Nature Conservation, a revisão mostra que, apesar de o Cerrado sustentar as principais bacias hidrográficas do Brasil, mais de 55% de sua vegetação nativa já foi convertida, principalmente ao longo das últimas cinco décadas.
Ecodomínio ameaçado
Em nossa pesquisa, criamos o conceito de Ecodomínio. Do grego oikos = casa, e do latim dominium = domínio, autoridade), o termo é utilizado por nós para designar grandes unidades ecológicas caracterizadas por uma relativa uniformidade de condições climáticas, geomorfológicas e biológicas, abrangendo diversas ecorregiões, biomas e ecossistemas.
Frequentemente ofuscado pela Amazônia, o Cerrado é o segundo maior Ecodomínio da América do Sul, cobrindo 24% do território nacional e sustentando grande parte das principais bacias hidrográficas do país, mas historicamente tem sido deixado de lado nos diálogos globais sobre conservação.
Nossa revisão alerta que esse hotspot de biodiversidade enfrenta atualmente uma crise ecológica massiva e multifacetada. Apesar de sua importância, a região já teve mais de 55% de sua vegetação nativa convertida, uma área que excede 1 milhão de km², sendo que a grande maioria dessa destruição ocorreu nos últimos 50 anos.
Embora dados recentes sugiram uma leve redução nas taxas anuais de desmatamento, a perda acumulada continua a aumentar, tornando o Cerrado o Ecodomínio do Brasil com a maior perda de vegetação nativa. Essa expansão é impulsionada por uma combinação de crescimento agrícola e urbano, mineração e especulação fundiária, criando uma paisagem cada vez mais fragmentada e ecologicamente comprometida.
Floresta invertida e carbono oculto
Uma das características que tornam o Cerrado verdadeiramente único é sua "floresta invertida". Diferentemente das florestas tropicais úmidas, que armazenam a maior parte de sua biomassa em copas elevadas, o Cerrado alcançou um feito ecológico de sobrevivência ao armazenar aproximadamente 90% de seu carbono abaixo do solo, por meio de sistemas radiculares profundos e maciços. Essa rede subterrânea torna o Ecodomínio um sumidouro de carbono crítico e um regulador fundamental da água.
No entanto, esforços de restauração mal orientados, que se concentram exclusivamente no plantio de árvores exóticas em áreas naturalmente abertas, podem agravar ainda mais esse problema. Isso ressalta a necessidade de estratégias de restauração que priorizem a funcionalidade ecológica e os bancos de sementes nativos, em vez da simples aforestação (afforestation).
Diversidade de ecossistemas e desafios para a conservação
Não é apenas a vasta savana tropical do Cerrado que compõe essa floresta invertida, mas sim um mosaico complexo e interdependente de campos, savanas e florestas, cada um com estruturas, processos ecológicos e vulnerabilidades distintas. Tratá-lo como homogêneo invisibiliza tanto as formações campestres quanto as florestais, dificultando a formulação de políticas de conservação eficazes.
Por exemplo, os campos naturais, especialmente nos Campos Rupestres montanos, ocupam áreas limitadas, abrigam alto endemismo e enfrentam fortes pressões da mineração, de invasões biológicas e do aumento do fogo. Já as savanas, embora dominantes em extensão, têm sido amplamente convertidas em monoculturas, pastagens exóticas e silvicultura, comprometendo sua integridade ecológica.
Embora algumas espécies sejam adaptadas ao fogo natural, muitos ecossistemas - como as florestas, as formações alagadas Veredas e os Campos Rupestres montanos - são altamente vulneráveis. As invasões por espécies exóticas e o aumento da frequência e da intensidade dos incêndios agravam as perdas ecológicas mesmo sem desmatamento direto.
Constatamos que quase todos os incêndios no Cerrado são induzidos por atividades humanas e ocorrem fora dos regimes naturais, causando degradação cumulativa.
Biodiversidade ameaçada e lacunas na conservação
Nossa pesquisa evidencia um padrão preocupante de "extinções silenciosas" em todo o Cerrado. Embora este Ecodomínio abrigue milhares de plantas e animais únicos, identificamos uma enorme lacuna na forma como essas espécies são monitoradas.
Plantas e invertebrados são os grupos mais ameaçados, mas também os menos estudados. Isso significa que espécies estão desaparecendo antes mesmo de serem cientificamente documentadas. evo As políticas atuais falham porque se baseiam em dados incompletos: não podemos proteger o que ainda não foi catalogado. Para evitar um colapso total, é necessário expandir nossos critérios de conservação para proteger não apenas espécies individuais, mas também as complexas interações ecológicas que sustentam a água e o solo da região.
Crise hídrica do Cerrado
A crise ambiental no Cerrado também é uma "crise hídrica silenciosa", que ameaça a segurança nacional do Brasil. O Ecodomínio sustenta as principais bacias hidrográficas e grandes aquíferos do país, mas esse equilíbrio está sendo perturbado pela agricultura irrigada, contaminação por agroquímicos e construção de barragens.
A retirada excessiva de água superficial e subterrânea já está levando à redução do fluxo dos rios e à degradação das Veredas, essenciais para a regulação hídrica.
Paradoxalmente, os próprios setores que impulsionam essa degradação, como o agronegócio e a produção de energia, são os mais dependentes desses recursos hídricos, criando um ciclo de insegurança crescente. Proteger as áreas ripárias e os aquíferos do Cerrado deixou de ser apenas uma preocupação ambiental, tornando-se um pré-requisito para a sobrevivência da economia regional e para a resiliência climática.
Desconexão entre a lei e a realidade
O Cerrado enfrenta uma perigosa desconexão entre a legislação ambiental e a realidade ecológica. Nossa pesquisa revela que a proteção atual é surpreendentemente limitada: embora tenhamos catalogado 706 Unidades de Conservação, elas cobrem apenas 8% do Ecodomínio, com menos de 3% sob proteção integral.
Para auxiliar pesquisadores e formuladores de políticas, compilamos um conjunto de dados sem precedentes dessas unidades, incluindo as frequentemente negligenciadas Reservas Particulares do Patrimônio Natural (RPPNs) e ecótonos cruciais.
Ecótonos são zonas de transição entre ecossistemas, caracterizados pela sobreposição gradual ou abrupta de espécies e condições ambientais. Essas zonas apresentam alta heterogeneidade ecológica, podem abrigar espécies únicas e desempenham um papel fundamental na conectividade da paisagem.
No entanto, os dados por si só não são suficientes. O Código Florestal Brasileiro define limites — especificamente os 20% de Reserva Legal (RL) e as estreitas Áreas de Preservação Permanente (APPs) de 30 metros —, mas que são ecologicamente insuficientes. Esses limites deixam formações vitais, como Veredas e Campos Rupestres, como fragmentos isolados e vulneráveis.
Para prevenir o colapso dos ecossistemas e garantir o abastecimento hídrico do Brasil, defendemos reformas urgentes: aumentar os requisitos de Reserva Legal para pelo menos 35%, expandir as zonas de proteção para refletir a realidade biológica e implementar rastreabilidade rigorosa para desvincular a produção agrícola da perda de habitats.
Cássio Cardoso Pereira é afiliado à Programa de Pós Graduação em Ecologia - UFSJ.