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Justiça romena é esperança de guarida para irmãos Tate

26 mar 2025 - 15h01
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Andrew e Tristan Tate respondem por sequestro, estupro e exploração sexual, entre outros crimes. Lentidão e corrupção do Judiciário da Romênia podem ser salvação para os dois machos tóxicos.Os influenciadores Andrew e Tristan Tate chegaram acompanhados por cinco guarda-costas; um dos irmãos vestia uma camiseta preta apertada, o outro, um pulôver de capuz com "TopG" - abreviatura para "Top Gangster" - estampado em dourado. Devido à ordem de registro compulsório emitida por um tribunal, tiveram que se apresentar na delegacia. Em seguida, com seu usual jeito prepotente, deram uma coletiva de imprensa.

"Estou contente de estar aqui, eu amo a Romênia", declarou Andrew Tate (esq.) em Voluntari, acompanhado pelo irmão Tristan
"Estou contente de estar aqui, eu amo a Romênia", declarou Andrew Tate (esq.) em Voluntari, acompanhado pelo irmão Tristan
Foto: DW / Deutsche Welle

O mais velho, Andrew, ameaçou ir embora imediatamente, caso os jornalistas não fizessem "perguntas respeitosas". O episódio se desenrolou na segunda-feira (24/03), em Voluntari, um subúrbio abastado de Bucareste, onde ambos mantêm sua luxuosa mansão.

Depois de passar várias semanas nos Estados Unidos, os ex-lutadores profissionais e misóginos declarados, estavam de volta à Europa para mais um episódio de seu reality show de masculinidade tóxica. "Eu sou uma das pessoas mais importantes do mundo", gabou-se Andrew Tate. "Por isso todas essas queixas contra mim." Mais tarde, posta um vídeo em que dispara num supercarro esporte pela capital romena, a 150 quilômetros por hora.

Os irmãos respondem a processo na Romênia, sob suspeita tanto de ter sequestrado, molestado e estuprado pelo menos 34 mulheres, em parte menores de idade, quanto de formação de organização criminosa. Desde 2022, Andrew, de 38 anos, e Tristan, de 36, estiveram diversas vezes sob prisão preventiva e ficaram em prisão domiciliar.

No fim de fevereiro de 2025, porém, um tribunal de Bucareste inesperadamente suspendeu a proibição de deixarem o país, e os irmãos puderam viajar para os EUA. Mas não perderam a oportunidade de postar nas mídias sociais um vídeo de sua partida noturna, num luxuoso jato particular - embora oficialmente os aeroportos da capital fiquem fechados à noite.

Fortuna à custa de exploração feminina e drogas

Interpelado por jornalistas, o ministro romeno da Justiça, Radu Marinescu, comentou sumariamente que "é no melhor interesse deles estar de volta". Afinal, asseguraram ser inocentes e, caso contrário, estariam sujeitos a um processo adicional. O chefe de pasta não foi capaz de explicar sobre que base legal que os Tate obtiveram permissão para ir aos EUA.

Segundo a Promotoria Extraordinária para Investigação de Criminalidade Organizada e Crimes de Terrorismo (Diicot), responsável pelo caso Tate, os anglo-americanos teriam apresentado um requerimento de viagem que um procurador deferiu. Não foram divulgados publicamente nem a justificativa do pedido, nem o nome do procurador.

Em 22 de março, ambos voltaram da Flórida para Bucareste, igualmente num jato particular. Andrew postou: "Pagar 185 mil dólares para um jato atravessar o Atlântico, por uma assinatura num pedaço de papel. Homens inocentes não fogem. Eles lavam seu nome no tribunal."

"Lavagem", neste caso, parece significar, antes, procrastinar e ludibriar a Justiça. Os Tate ficaram multimilionários com vídeos, cassinos e custosos cursos online de caráter misógino. Além disso, teriam lucrado com a exploração sexual de mulheres em chats de vídeo e plataformas pornô, e com o tráfico de drogas. Em 2016 mudaram-se para a Romênia. Antes, Andrew fora preso diversas vezes por suspeita de estupro no Reino Unido, seu país de origem.

Odisseia judicial

O Ministério Público romeno parte do princípio de que os irmãos Tate fundaram uma organização criminosa no início de 2021 com o fim de explorar sexualmente, em plataformas online, mulheres e meninas de diversos países. Segundo a Promotoria, as vítimas eram atraídas para a Romênia e lá "exploradas sexualmente pelos membros do grupo, através de violência física e pressão psicológica - intimidação, vigilância constante, controle e cobrança de supostas dívidas".

O caso logo se transformou numa odisseia judicial. Após as primeiras detenções, os influenciadores foram colocados sob prisão domiciliar; mais tarde, sob condição de se apresentar regularmente à polícia, tiveram permissão para mover-se livremente em Bucareste, e depois em todo o país.

Ao todo, os juízes adiaram seis vezes a decisão sobre o início de um processo, até finalmente enviá-lo de volta ao Ministério Público - uma tática de procrastinação comum na Justiça romena, que muitas vezes desperta a suspeita de influências externas.

Até o momento, não há provas de que a dupla tenha subornado políticos ou funcionários do Judiciário. Certo está que, em 2024 a Tribunal de Apelação da capital eliminou diversos elementos de prova do caso, e em dezembro o reenviou ao Ministério Público - portanto os inquéritos recomeçaram do zero.

Recepção fria na Flórida, "amor" pela Romênia

Os dois trumpistas declarados contavam originalmente que, após a posse de Donald Trump, poderiam se refugiar nos EUA. O ministro do Exterior da Romênia, Emil Hurezeanu, admitiu que durante a Conferência de Segurança de Munique, em fevereiro de 2025, o enviado especial da Casa Branca Richard Grenell abordara o caso, frisando que os EUA "continuam interessados no destino dos irmão Tate". Embora Hurezeanu negasse que dessa forma seu país tivesse sido pressionado, o fato é que pouco depois os influenciadores tiveram permissão para viajar.

Ao chegar na Flórida, contudo, Andrew e Tristan não foram recebidos com honras de heróis - como se queixaria o mais velho, irado. O governador Ron DeSantis, apesar de republicano como Trump, declarou que eles "não eram bem-vindos". Em 5 de março, o procurador-geral do estado, James Uthmeier, anunciou que fora aberto um inquérito penal contra os Tate, pois "a Flórida não tem tolerância com indivíduos que abusam de mulheres e meninas".

Trump tampouco expressou boa vontade com os investigados: numa coletiva de imprensa conjunta com o primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, no dia da chegada dos Tate nos EUA, declarou não saber de "nada" sobre o caso.

Assim, os irmãos calcularam que, no fim das contas, um processo na Romênia seria mais brando para eles do que um em solo americano. Além de seu óbvio sucesso em despistar a Justiça romena, há anos o país é o membro da União Europeia com mais vítimas de tráfico humano: segundo a Comissão Europeia, de 7 mil mulheres afetadas a cada ano, 3 mil são da Romênia.

Quando se trata de crimes contra mulheres, a polícia romena sabidamente tende a olhar para o outro lado. Assim, quando, em outubro de 2021, uma jovem conseguiu fugir do estúdio de videochat da mansão dos Tate e apresentou queixa na delegacia de Voluntari, os agentes tentaram convencê-la a voltar. Sua queixa acabou sendo registrada - mas sumiu numa gaveta.

Vista assim, a resposta de Andrew Tate a um jornalista na segunda-feira, diante da delegacia de Voluntari, em vez de respeitosa, soa cínica: "Estou contente de estar na Romênia. Eu vivo aqui, e eu amo a Romênia."

Deutsche Welle A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas.
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