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Joseph Fiennes adorou a catarse do final de 'Handmaid's Tale'

O ator gravou as cenas finais da série em março e desde então vem meditando sobre 'perder os resíduos de Fred Waterfront'; confira a entrevista; texto com spoiler

22 jun 2021 10h10
| atualizado às 17h20
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* ESTA ENTREVISTA INCLUI SPOILERS PARA O FINAL DA TEMPORADA DE 'THE HANDMAID'S TALE'.

Graças a Deus, finalmente Fred Waterford, o sádico comandante do centro de Handmaid's Tale encontrou o seu fim. E Joseph Fiennes, ator que o interpreta, ansiava para se livrar do personagem.

"Encerramos a gravação às seis horas da manhã. Fui direto para o trailer de maquiagem para tirar a barba de Fred e assim começar o processo de eliminar o horror", disse ele, referindo-se às gravações do final da quarta temporada em que uma June (Elizabeth Moss) enraivecida reage com a mesma moeda.

Depois de saber que seu estuprador e torturador se salvou da prisão se tornando um informante do governo, June convence suas aliadas a armarem um plano para caçá-lo. Fred, que acha que vai para uma vida de liberdade retorna a Gilead e seu sistema de justiça draconiana - que ajudou a construir e infligir às mulheres do centro.

Mas quando parece que as coisas não poderiam ser piores para Fred, ele cai nas mãos dela.

"Corra", June ordena a um Fred algemado para correr por um território desabitado entre o Canadá e os Estados Unidos. E repentinamente as mulheres saem da mata densa, quando June e seu grupo de refugiadas de Gilead colocam em prática as próprias execuções públicas ritualísticas que as aias foram forçadas a presenciar. Quando vemos Fred pela última vez ele está pendurado num muro, enforcado, seu dedo cortado num envelope endereçado à sua mulher, Serena (Yvonne Strahovski).

Fiennes já vinha prevendo a morte de Fred desde que o cineasta Bruce Miller deu a entender que a terceira temporada seria a sua última. "Estou feliz com o que tive até agora", disse ele na época. Mas então a terceira temporada chegou e Miller disse a ele que talvez seu desaparecimento ocorresse na quarta temporada.

"Achei ótimo que ocorresse no final. Acho que é excelente para o público ter essa catarse".

Joseph Fiennes falou conosco pelo Zoom da sua casa em Maiorca, rosto barbeado e vestindo uma camisa nas cores do Mediterrâneo. Ele gravou as cenas finais da série em março e desde então vem meditando sobre "perder os resíduos de Fred Waterford". E admitiu ter se sentido um pouco deprimido ao gravar seu canto do cisne em meio à inquietação com a pandemia e sua família tão distante.

Abaixo trechos da entrevista:

E então Fred finalmente teve o que merecia. O que acha que ele estava pensando nos seus momentos finais?

Gosto que, quando ele chega na mata, está acorrentado no pescoço e algemado. Acho que naquele momento ele sentiu na carne o que é ter medo e sentiu medo por todas as pessoas que o seu regime infernizou. Sob muitos aspectos é o que o público precisa. Mas Fred também. Parte da sua libertação e catarse é que ele precisa sentir esse medo para compreender totalmente as coisas. Não é possível explicar isso intelectualmente para essas pessoas.

Quais foram as demandas físicas dessa cena em que Fred é caçado e depois espancado seguindo o próprio rito da sua chamada salvação?

Eles filmaram as cenas maravilhosamente numa floresta fria, densa, lamacenta, às três horas da madrugada, usando câmera alta e cabos e que podiam se movimentar a 30 quilômetros por hora. Tão rápido que você podia correr e ela estava na sua frente. Tive de repetir a cena três ou quatro vezes e nas cenas abertas a responsabilidade passava para um dublê. Mas à parte as cenas filmadas com drone, toda dor infligida a Fred também foi sentida por mim. Eu estava protegido com acolchoados de modo que as pessoas podiam dar vazão à sua fúria e me golpear a pontapés. Foi genuinamente aterrador.

Mesmo antes da salvação há momentos em que Fred parece entender a dor que infligiu às mulheres de Gilead ao saber que Serena está grávida do seu filho. Então vemos o testemunho abrasador de June expondo os abusos que ele cometeu contra ela.

É importante para Fred que o fato de Serena ser capaz de ter um filho agrada a todos de Gilead. E a percepção de que ele deve perder isso lhe dá uma nova perspectiva. Aqueles vários meses que passou na sua cela cinco estrelas proporcionaram momentos de reflexão, não só como se safar da responsabilidade, mas retomar a narrativa para acusar a vítima como todo predador faz. Mas no fundo existe a sensação de que ele entende claramente os horrores que infligiu.

É o suficiente para provocar uma redenção?

Não. Fred é um torturador inveterado - um monstro misógino, patético, horrível, que nunca mudará. Sinto que Fred jamais se redimirá da maneira que gostamos de ver nos filmes. E eu permaneci, acho, no caminho mais difícil, que foi realmente me fixar no seu amor pelo poder, o aspecto predador oculto por trás dessa teocracia, dessa crença, dessa religião.

As pessoas que têm a chance de mudar são as que perdoam, o que é um paradoxo interessante na jornada de June. Ela se torna alguém que busca algo para destruir. Ela traz Gilead totalmente para o Canadá. Naturalmente June é um produto horroroso disso tudo e não é sua culpa.

Você disse que Fred foi escassamente retratado no romance de Margaret Atwood. Como você o completou?

Há pistas no livro. Uma, que adoro e realmente é a base de Fred, é que Atwood o descreve como um agente devastador patético que vive dentro de uma bota militar. E também a escrivaninha de mogno, o uniforme tipo jaquetão, a barba, toda a carapaça se preferir - contradizem a verdade da sua visão patética. É uma meditação dos efeitos corrosivos do ego e do poder mais do que crenças religiosas extremistas.

Mas às vezes, eu ouso dizer, ele é atraente. Isso foi intencional?

Sim, com certeza. Sempre quis que ele agisse conforme as regras e não se desviasse dessa crença, mas também fosse humano. Acho que quanto mais humano, mais aterrorizador ele é. É uma linha complexa, em que você tem de salvar a face de Gilead e a pessoa que queremos ver derrubada. E você não pode ser muito transcendente porque, contra o que está lutando?

Como foi para o elenco estar mergulhado na brutalidade durante as quatro temporadas?

Basicamente havia um amor e respeito profundos entre nós e um sentimento de honrar Atwood, por meio de Bruce. E também um conhecimento antecipado da peça. Por causa da estranha clarividência dos nossos roteiristas, sabíamos que havia muitos paralelos que eram muito reais para as pessoas. Do mesmo modo havia uma responsabilidade que acompanhava tudo isso. Saber que estamos participando de uma narrativa extraordinária, uma narrativa feminista importante, vital, que reflete nossas circunstâncias nos dias atuais.

Mas sempre houve momentos e interações divertidos, maravilhosos. E talvez quanto mais sombria e complexa a peça, mais felizes e alegres e joviais todos ficavam. Talvez se fosse uma comédia estariam todos brigando um com o outro.

E quanto às críticas de que a série equivale a um pornô de tortura?

Sim, em muitas circunstâncias a série pode ter ido longe demais. Mas acho que nunca adotamos uma violência gratuita. Acho que era justificada. Se penso em tortura e mutilação no nosso mundo distópico, no mundo real, isto acontece. E nós não nos furtamos a essa realidade.

Por quanto tempo você acha que a série pode ir e até onde deveria seguir?

Agora Fred está fora e obviamente a série acabou. Deveríamos apenas dar uma parada (risos).

Nós temos Os Testamentos (a sequência de 2019 de Atwood) e assim quão maravilhoso será fazer uma transição disso tudo. Mas Bruce não revelou muita coisa. Ele diz que vamos adorar com Lizzy seguindo com o papel. Nós saímos do livro de maneira que, penso eu, o cenário que vem sendo forjado ainda é rico e fascinante.

Tradução de Terezinha Martino

Estadão
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