Script = https://s1.trrsf.com/update-1779108912/fe/zaz-ui-t360/_js/transition.min.js
PUBLICIDADE
Publicidade

Índice de Soberania Digital revela nova divisão global do domínio tecnológico - e Brasil está longe do topo

China, França e Rússia lideram enquanto os EUA perdem terreno para suas próprias Big Techs. No século XXI, Soberania Digital deixou de ser opção estratégica e tornou-se condição de sobrevivência nacional

4 jun 2026 - 13h16
Compartilhar
Exibir comentários

Hoje, poder nacional se mede pela habilidade de controlar infraestrutura digital, dados, inteligência artificial e os fluxos informacionais. Países incapazes de exercer esse controle tornam-se dependentes de arquiteturas tecnológicas externas, vulneráveis à extração de dados, pressão econômica e influência política estrangeira. Soberania Digital é soberania de fato.

Da disputa pelo controle do ambiente digital emergiram três modelos de governança tecnológica. Essa é a principal descoberta oriunda do Digital Sovereignty Index do BRICS+ Tech Forum, que rankeia 86 países em Soberania Digital, desenvolvido por pesquisadores da UnB e da USP.

Esses três modelos são protagonizados por China, França e Rússia, primeiros colocados no ranking. A China consolidou um ecossistema digital próprio, integrado entre Estado, indústria e plataformas nacionais, dominando infraestrutura, inteligência artificial e governança digital em escala global.

O modelo europeu, representado pela França, utiliza governança, proteção de dados, nuvem soberana e regulação para disciplinar o poder das Big Techs e afirmar a soberania digital da União Europeia.

Já o modelo russo emerge da necessidade de sobrevivência estratégica perante as sanções, acelerando processos de substituição tecnológica, fortalecimento de plataformas nacionais e reorganização estatal da infraestrutura digital.

São três paradigmas distintos. O primeiro oriundo da visão estratégica de longo prazo orientada pela soberania nacional, o segundo baseado na capacidade de redirecionar e enquadrar o funcionamento do capitalismo digital através da governança, e o terceiro moldado pela reconstrução soberana da infraestrutura digital diante da pressão geopolítica, das sanções e do cerco econômico e tecnológico do Ocidente.

Como funciona o Índice de Soberania Digital

O DSI (Digital Sovereignty Index) avaliou as capacidades estatais em quatro dimensões - hardware, software, cognição e governança. Em cada uma delas, o índice mede diferentes níveis de domínio tecnológico, desde a simples capacidade de utilizar determinada tecnologia até a habilidade de especificá-la, produzi-la autonomamente e capturar valor econômico em larga escala por meio de cadeias produtivas próprias. A média dessas dimensões resultou em uma nota que vai de 0-100.

O mapa produzido pelo índice revela de maneira sistemática algo que já sabíamos faz tempo: que o domínio tecnológico continua concentrado no Norte Global e nas grandes potências industriais, e que a divisão reproduz, em larga medida, antigas hierarquias do sistema internacional.

China: O Dragão na Sala

A China é o primeiro colocado do DSI, com a nota de 98,43. Não é nota máxima apenas por não dominar por completo a produção de semicondutores. A China construiu um modelo integrado entre Estado, indústria, infraestrutura e planejamento estratégico, e o país atingiu pontuação máxima em Software, Cognição e Governança, vide o pre-print do estudo.

Na prática, isso significa que a China consegue coordenar ecossistemas tecnológicos inteiros. No hardware, o Estado chinês controla diretamente a expansão de telecomunicações, redes de backbone, infraestrutura 5G e grandes projetos de data centers distribuídos nacionalmente.

No software, e enquanto boa parte do mundo opera sobre plataformas norte-americanas, a China construiu um ecossistema digital próprio e funcionalmente completo: Huawei Cloud, Tencent e WeChat, dentre outros, tornaram-se extensões da própria infraestrutura estratégica chinesa.

Diante dos sucessivos escândalos envolvendo vigilância, manipulação algorítmica e uso geopolítico de plataformas ocidentais, o Great Firewall passou a servir como instrumento de proteção estratégica.

A dimensão cognitiva reforça essa lógica. Planos quinquenais, estratégias nacionais de inteligência artificial e programas massivos de formação técnica revelam um Estado capaz de alinhar educação, pesquisa, indústria e planejamento estratégico sob objetivos nacionais de longo prazo.

O Estado também mantém capacidade efetiva de disciplinar plataformas digitais, controlar fluxos de dados e reorganizar mercados inteiros quando considera necessário, o que é significativo já que poucas potências hoje possuem capacidade política para enquadrar suas gigantes tecnológicas quando elas entram em choque com os objetivos estratégicos nacionais.

França estrelando o modelo europeu

França é o segundo colocado no ranking, com a nota de 92,18. Diferentemente da China, porém, o poder digital francês não emerge de um modelo industrial integrado, mas da capacidade europeia submeter infraestrutura à governança estratégica.

A lógica europeia parte de um entendimento simples: quem define as normas do ambiente digital também exerce poder sobre ele. Através da General Data Protection Regulation (GDPR) a União Europeia obrigou a Big Tech a adaptar sistemas, contratos e políticas de dados às regras europeias, transformando regulação em instrumento de soberania digital.

A Europa compreendeu cedo que, em um cenário onde a infraestrutura física da internet já estava amplamente concentrada em empresas norte-americanas, a disputa pela soberania poderia passar pela capacidade de obrigar essas corporações a obedecer regras externas aos EUA.

Na prática, a Europa demonstrou que governança digital também produz poder. A França lidera esse modelo através de cloud soberana, cibersegurança e regulação, pressionando empresas internacionais a se adaptarem à lógica soberana europeia.

A resiliência russa perante as sanções

O terceiro colocado do ranking é a Rússia, com a nota de 89,06 e desafia a expectativa de que sanções econômicas e isolamento tecnológico produziriam colapso digital e dependência estrutural irreversível no país. O que o índice revela é praticamente o oposto: as sanções aceleraram processos de substituição tecnológica, coordenação estatal e reorganização soberana da infraestrutura digital russa.

A Rússia consolidou uma arquitetura digital própria para sustentar conectividade, governança e infraestrutura crítica mesmo sob pressão externa. Apesar das limitações em semicondutores avançados, Moscou compensou parte dessas vulnerabilidades através de coordenação estatal, adaptação regulatória e fortalecimento de softwares e ecossistemas domésticos.

Em termos de Software, o Estado russo passou a impulsionar sistemas nacionais, registros oficiais de softwares domésticos e exigências de compatibilidade para órgãos públicos e empresas estratégicas.

A Rússia também se destaca na dimensão cognitiva. O país mantém forte tradição matemática, formação técnica avançada e uma produção estratégica altamente articulada em torno de inteligência artificial, segurança cibernética e soberania informacional. O discurso oficial russo trata a tecnologia como questão diretamente ligada à sobrevivência do Estado - e essa coerência aparece claramente no índice.

EUA recuado perante o poder corporativo

O EUA ficou fora do pódio. No quarto lugar, o país têm a nota 87,5. E isso acontece pois os EUA simplesmente não conseguem colocar limites às próprias corporações que criou. Ainda que em hardware e software, os Estados Unidos continuem sendo uma superpotência quase incontestável, o DSI mede mais do que capacidade tecnológica - ele mede soberania. E soberania pressupõe capacidade estatal de disciplinar atores econômicos. E é justamente nesse ponto que os EUA perdem terreno para China, França e Rússia.

Washington permanece preso a um modelo em que as Big Techs frequentemente operam como polos autônomos de poder político, econômico e informacional. Enquanto alinhadas com os interesses de Estado norte-americanos, o Meta-trumpismo segue firme e forte, ainda que na prática os EUA comprometam sua soberania à longo prazo. Isso aparece claramente no elemento de governança, mais baixo justamente por ainda não possuírem uma legislação federal abrangente de proteção de dados e por demonstrarem dificuldade prática em impor restrições estruturais às grandes plataformas digitais.

O paradoxo é profundo: os Estados Unidos possuem talvez o maior ecossistema tecnológico do planeta, mas a maior parte dessa capacidade está concentrada mais nas corporações do que no próprio Estado. Em muitos casos, Washington depende das Big Techs para exercer projeção geopolítica digital enquanto demonstra, na letra da lei, capacidade limitada de subordiná-las integralmente aos objetivos públicos nacionais.

BRICS e o Sul Global

O contraste mais brutal do DSI aparece na velha divisão entre Norte e Sul Global. Grande parte da África, América Latina e do Sudeste Asiático permanece dependente de infraestrutura tecnológica externa. São países que possuem internet, digitalização bancária, aplicativos de governo, conectividade móvel e consumo massivo de plataformas digitais, mas não tem controle efetivo sobre as infraestruturas que sustentam essa própria digitalização.

O Brasil aparece com 57,8 pontos - mesma nota de Ucrânia e Cazaquistão, na 48ª colocação geral do ranking. Apesar do mercado interno, da produção científica e da capacidade institucional, ainda depende de infraestrutura digital estrangeira.

Dentro dos BRICS, China e Rússia aparecem como polos de reorganização soberana, Índia (75) como potência intermediária com forte capacidade de software e crescimento industrial enquanto Brasil e África do Sul (56,25) permanecem vulneráveis à dependência tecnológica externa.

O colonialismo do passado, assim, retorna sob nova forma: não mais baseado apenas no controle de territórios e recursos naturais, mas na capacidade de controlar dados, infraestrutura informacional e arquitetura tecnológica.

China, França e Rússia representam respostas distintas a essa nova disputa pelo poder - pela indústria, pela governança ou pela reconstrução soberana da infraestrutura digital. Em comum, os três modelos apontam para a mesma conclusão: no século XXI, Soberania Digital deixou de ser opção estratégica e tornou-se condição de sobrevivência nacional.

The Conversation
The Conversation
Foto: The Conversation

Isabela Rocha-Dashicheva recebe bolsa de pesquisa da CAPES, e é presidente do Fórum para Tecnologia Estratégica dos BRICS+.

Laura Beatriz Ludovico é afiliado ao Fórum para Tecnologia Estratégica dos BRICS+

The Conversation Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
Compartilhar

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.

Publicidade

Conheça nossos produtos

Meu Terra