Homenagem feita por Zelenski causa indignação e reabre feridas históricas na Polônia
Presidente ucraniano denomina unidade militar em homenagem a uma organização nacionalista envolvida em massacres de poloneses na Segunda Guerra Mundial. Varsóvia reage com indignação.Em 26 de maio de 2026, o presidente da Ucrânia, Volodimir Zelenski, concedeu a uma unidade especial das Forças Armadas ucranianas o título honorífico de "Heróis do UPA", uma organização nacionalista durante a Segunda Guerra Mundial. A justificativa foi a "restauração das tradições históricas das Forças Armadas nacionais".
Um dia antes, os restos mortais do líder do UPA Andriy Melnyk e da sua esposa foram enterrados, numa cerimônia solene presidida por Zelenski, num cemitério militar de Kiev, após terem sido trasladados de Luxemburgo.
Esses gestos de Zelenski criaram, porém, sérias tensões com a Polônia, um dos mais importantes aliados da Ucrânia na guerra contra a Rússia.
O Exército Insurgente Ucraniano (UPA) lutou, após a invasão da União Soviética pela Alemanha nazista, em 1941, por um Estado ucraniano independente, inicialmente ao lado dos alemães. Para expulsar a população polonesa das áreas que o UPA reivindicava para a Ucrânia, membros do grupo cometeram inúmeros crimes contra civis poloneses, incluindo os massacres na Volínia e na Galícia Oriental.
Um dos líderes do UPA foi Melnik. Num dos períodos mais controversos do seu percurso, o líder nacionalista colaborou com a Alemanha nazista em certas fases da guerra, embora tenha depois sido enviado para o campo de concentração de Sachsenhausen.
Nesse contexto, a reação do presidente da Polônia, Karol Nawrocki, foi forte. "O presidente Zelenski infelizmente demonstrou que a Ucrânia, no que diz respeito à mentalidade e à glorificação dos bandidos e assassinos do UPA, não está pronta para fazer parte da família europeia", declarou Nawrocki na sexta-feira passada em Varsóvia.
"Na família europeia, não se pode glorificar bandidos e assassinos que mataram mulheres e crianças, que mataram poloneses", acrescentou o presidente, segundo a emissora Polsat. Nawrocki defendeu retirar de Zelenski a Ordem da Águia Branca, a mais alta condecoração da Polônia. O comitê responsável pela honraria deverá analisar essa proposta na próxima segunda-feira.
Nawrocki ainda não visitou a Ucrânia
O presidente ucraniano recebeu a condecoração dois anos antes, a pedido do então presidente polonês, Andrzej Duda, que fez da aliança militar com a Ucrânia uma prioridade da política externa polonesa. O apoio militar e político vindo de Varsóvia contribuiu significativamente para conter o ataque russo no início da guerra, em 2022.
Já Nawrocki não poupava críticas à Ucrânia durante a campanha eleitoral de 2025. Ele avaliava com ceticismo as chances do país vizinho de ingressar na União Europeia e criticava como excessivos os benefícios sociais concedidos a refugiados ucranianos na Polônia.
Um ano após sua eleição, Nawrocki ainda não realizou uma visita oficial a Kiev. Em vez disso, recebeu Zelenski em Varsóvia em dezembro de 2025. "Nawrocki aproveita a oportunidade e inflama o sentimento antiucraniano. Ele ganhou um pretexto e o usa de forma implacável", avaliou nesta segunda-feira o jornal polonês Gazeta Wyborcza.
Tusk tenta conter os danos
O primeiro-ministro da Polônia, Donald Tusk, tentou inicialmente conter os danos. Ele ressalvou que a decisão do presidente ucraniano feriu a "sensibilidade histórica polonesa". Cada nação tem o direito de interpretar seu passado, afirmou, mas Zelenski e "nossos amigos ucranianos" deveriam estar cientes do que significa "a herança sombria do UPA" para os poloneses.
Tusk se distanciou da proposta de Nawrocki de retirar a condecoração de Zelenski. "Se brigarmos por causa do passado, outra pessoa ganhará o futuro", alertou, referindo-se à Rússia, "que certamente ficará satisfeita com isso".
Outros representantes da coalizão pró-europeia no governo em Varsóvia também se mostraram indignados com a concessão do título "Heróis do UPA", mas ao mesmo tempo apelaram contra acirrar as tensões. "Não devemos reagir de forma hostil, mas com firmeza", disse o vice-presidente do Parlamento, Piotr Zgorzelski, à emissora TVN. Para ele, Zelenski tenta unir em torno de si as forças nacionalistas na Ucrânia e acaba ignorando as sensibilidades polonesas.
O Ministério do Exterior da Ucrânia assegurou, na sexta-feira, que a concessão não foi um gesto contra a Polônia. "A luta do UPA simboliza para as Forças Armadas ucranianas exclusivamente a resistência contra a política imperial de Moscou", afirmou. Os ucranianos tendem a encarar o UPA como uma organização antissoviética.
Combates sangrentos no passado
A disputa sobre o passado há muito tempo turva as relações entre Polônia e Ucrânia. Após o colapso do Império Russo no fim da Primeira Guerra Mundial, tanto poloneses quanto ucranianos reivindicaram territórios que haviam pertencido à Polônia até o fim do século 18, mas cuja população era de maioria ucraniana.
Ambas as nações travaram combates sangrentos em 1918, entre outros pela cidade de Lviv. Em seguida, a Ucrânia ocidental tornou-se parte da República da Polônia, enquanto o leste do país ficou sob domínio da União Soviética.
O UPA esteve envolvido nos massacres na Volínia e na Galícia Oriental, ocorridos entre 1943 e 1945 e considerados um genocídio na Polônia, nos quais a Polônia afirma que cerca de 100 mil poloneses foram mortos. Em ações de retaliação de partisans poloneses, até 20 mil ucranianos foram mortos.
Após 1945, o UPA continuou sua luta contra a sovietização da Ucrânia até a década de 1950, o motivo pelo qual hoje é reverenciado no país como símbolo de resistência contra a Rússia.
Com a invasão da Ucrânia pela Rússia, em fevereiro de 2022, os conflitos históricos entre Polônia e Ucrânia ficaram em segundo plano. Após um entusiasmo inicial com a resistência do país vizinho e a acolhida de mais de 1 milhão de refugiados ucranianos, o clima na Polônia se deteriorou. Especialmente poloneses alinhados à direita passaram a criticar os benefícios sociais concedidos aos ucranianos no país e a questionar o apoio militar de Varsóvia à Ucrânia.
Presidente mira Tusk
Com suas críticas a Zelenski, Nawrocki também busca ganhar pontos na política interna polonesa. Sua proposta na verdade mira Tusk, seu adversário político - pois, caso o presidente da Polônia determine a retirada da condecoração do presidente ucraniano, o primeiro-ministro terá de referendar essa decisão.
Se Tusk o fizer, prejudicará a relação com o país vizinho, cuja vitória militar contra a Rússia também é essencial para a segurança da Polônia. Se, por outro lado, recusar sua assinatura, será rotulado pela direita polonesa de traidor que ignora os sentimentos da população polonesa.
O imbróglio ocorre às vésperas da 5ª Conferência de Reconstrução da Ucrânia, que será realizada no fim de junho na cidade polonesa de Gdansk. Seria um sinal desastroso caso o conflito entre Polônia e Ucrânia se intensifique antes dessa importante conferência internacional dedicada à reconstrução do país.
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